Xisto

A visão turva pelo calor fazia com que seus olhos ficassem cada vez menores tentando fitar quem vinha ao longe.

Poucos segundos foram necessários para que reconhecesse a silhueta da última pessoa que gostaria de encontrar na face daquele planeta. Ironicamente estava feliz por isso. Ao seu lado os destroços da nave repousavam no chão rochoso e o motor já não emitia nenhum ruído.

-Bélio! Não diria que estou feliz em te ver, mas é um alívio de fato – disse Cândio ao vê-lo se aproximando.

-Digo o mesmo! – concordou o outro estendendo a mão para cumprimenta-lo- parece que está passando por maus bocados aqui… – apontou com o queixo para a nave ao chão.

-A ignição deu problema e fui obrigado a forçar o pouso.

Bélio ria puxando a turbina suspensa por fios.

-Aparentemente você desaprendeu a aterrissagem.

Cândio suspirou aquele encontro não poderia ser pior do que havia sido em sua mente nas mil vezes em que o imaginara. Precisaria ser simpático para conseguir sair dali.

-Nós sabemos quem de nós é o melhor piloto – retrucou.

-Você não mudou nada irmão – disse Bélio.

-Nem você.

-Estava mesmo me perguntando quatro anos atrás, quando você viria nos visitar, mas acabei esquecendo com o passar do tempo e quase já não recordava sua feição. Passaram-se dez anos Cândio…

Diante do silêncio culposo Bélio prosseguiu.

-Mas não quero lhe dar lição de moral. Você já é um homem formado, o orgulho da família. Patrulheiro da galáxia – ele ria – e esqueceu-se de cuidar do seu maior bem. Vou te ajudar a sair daqui, sei o quanto você detesta esse lugar.

-Eu não detest…

-Mas vai ficar por dois dias pelo menos. Quando você faz uma coisa, faz bem feita. Mesmo que seja uma coisa ruim, como destruir a nave.

Cândio riu seco. De todos os planetas em que queria parar Xisto não estava na lista, não era uma opção enfrentar todos os receios e fantasmas da família. Especialmente na data em que sua nave caíra o dia estava com uma coloração diferente, talvez por tentar misturar presente e passado, mas a irreconhecível chuva se aproximava. As chuvas em Xisto sempre eram aguardadas e igualmente temidas.  De inicio se ouvia o barulho do vento entre as rochas, e esse era o primeiro sinal, depois lentas e tímidas gostas despencavam do céu, seguidas então por fortes trovejadas e raios por toda parte. Ambos se entreolharam, e tinham uma certeza. Dois dias virariam uma semana.

***

A casa continuava igual mesmo após tantos anos sem visita-la. A nostalgia que tomava Cândio era um misto de abraço com soco no estômago. Havia demorado tanto tempo para voltar para casa que o sentimento de culpa brotava em seu corpo. Mesmo assim, sentia-se seguro como não podia sentir-se a meses.

-Seu quarto continua inteiro caso queira saber.

-Vocês não quiseram usar o espaço? Podia virar tanta coisa.

-Conhecendo Célia como a conhece, não deixou que tocássemos em um fio dos lençóis. Na verdade usamos como quarto de visita algumas vezes afinal, não havia outro motivo aparente para deixar um quarto inteiro montado. Mas ela insistia em dizer que você iria voltar.

Célia. Fazia tempo que não via o rosto mais sereno da galáxia. Apenas por transmissões corridas teve tempo de falar com sua mãe.

-Ela está melhor?

-Ela está indo.      

-Quando voltará para casa?     

-Não nos deram previsão quanto a isso. Você sabe que a saúde dela vem decaindo e não temos suporte para dar a assistência que ela precisa.

-Vocês poderiam ter pedido dinheiro, eu enviaria.  

-Cândio… você não entende não é? O problema não é dinheiro e sim a presença, ela não quer estranhos cuidando dela. Na verdade mal aceita o cuidado dos médicos, por isso a melhora é tão pouca. Ela está se despedindo, a única coisa que queria era reunir a família. Parece que seus ideais são tão fortes que atraíram você até aqui e com uma ótima forma de te manter.   

A chuva caía entre as grandes montanhas e rochas. Trazia a infância consigo e a certeza de que a ida seria bem após o imaginado.

***

O problema da nave não havia sido apenas na ignição, um curto geral da parte mecânica se fez presente enquanto Bélio analisava a magnitude do estrago.

-Eu fiz a revisão antes de deixar a estação. Impossível que tenham ocorrido tantos estragos espontâneos.  

-Está duvidando das minhas capacidades? Posso quebrar essa espelunca e você irá embora em um cargueiro.

-Não foi bem isso que quis dizer.

Bélio ria balançando a cabeça.

-Senti sua falta sabia?

-Também senti – respondeu Cândio.

-Como anda a vida na estação?

-Temos muitas tarefas, no começo ficamos sobrecarregados mas depois acostuma-se com o ritmo de trabalho. Não é tão simples, pois são cargos de certa relevância, então são muito rígidos… Como anda a vida em Xisto?

-O mesmo – Bélio deu um riso – continua o mesmo.

Sentaram-se na carcaça da nave.

-Amanhã você poderia me levar para visita-la.

-Sim! Ela ficará feliz em lhe ver. Mas para isso seria bom descansar antes, não acha? Ainda lembra o caminho para o quarto?

-Não faça esse tipo de pergunta! – Cândio ria – se tem uma coisa que eu me lembro é essa.

Trocaram um abraço desajeitado do tipo que abriga todas palavras não ditas e foram dormir. A noite estendia-se chuvosa prometendo um dia não muito diferente.

***

Célia dormia de modo calmo. Em parte pelas fortes medicações, em parte pelo cansaço. Através das pálpebras fechadas os dois filhos imaginavam por seus próprios olhos que tipo de universo ela estaria encarando.
Já completavam-se duas semanas que as respostas aos estímulos médicos caíam bem como periodicamente medicamentos mais fortes eram aplicados.
Existia entre toda evolução, traços da incompetência daquilo que nem o melhor dos homens havia conseguido reparar.
Cândio aproximou-se da cama, segurando a mão de sua mãe, os dedos fecharam-se levemente em torno dos seus. Mas os olhos permaneciam fechados. Ficaram assim por longos minutos, até que pedissem para que se retirassem do quarto.

***

A chuva ainda não permitia decolagens, mesmo que o céu estivesse limpo e a nave pronta para partir, não era isso que sentia dentro de si. Ao menos dessa vez o trabalho poderia esperar. Cândio fitava o espelho pendurado atrás da porta, a última vez que havia olhado seu reflexo ali, tinha dezessete anos. Agora com mais alguns dígitos acrescidos na idade, com mais sabedoria e um punhado de ponderações, conseguia pensar no que aquele jovem acharia a respeito de quem havia se tornado. No todo, pelo bom e pelo mau, havia maior peso da resposta na parte positiva. Entre todos caminhos possíveis e dos caminhos trilhados, estava exatamente onde deveria estar, sem antes ou depois, mas no tempo certo. Pela janela não mais chovia, era dia de visita novamente, Célia retomava parte dos sentidos. Cândio retomava uma parte de si que havia esquecido possuir.     

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