Vida e Morte

Desde os primórdios da filosofia, o homem vem questionando diversos assuntos que despertam sua curiosidade e o levam a questionar a essência de sua própria vida. Partindo desse principio, temos em mente que o senso curioso é aquilo que move o ser humano a fazer descobertas e teorias, que são importantes para o desenvolvimento da vida como um todo.
Esta mesma curiosidade, atrelada a estudos e doses de questionamentos, levou certos pensadores a indagarem o que acontece após a morte. Afinal, para muitos a vida pode ser incerta durante seu percurso, mas sobre ela sabemos duas coisas: ela começa, e termina. Uma espécie de axioma. Afinal, aceitamos isso. Simples. Sim, seria simples se isso fosse realmente o fim desse assunto. Mas é aqui que nosso debate começa, afinal, como podemos saber que realmente existe um fim, ou então que existe apenas um começo.
Até hoje não sabemos a real resposta de muitas perguntas, a morte ainda é uma incógnita para aqueles que não seguiram uma linha de pensamento, assim como a vida por vezes consegue ser misteriosa. Acredito porém, que é válido, voltarmos na historia e analisarmos os pensamentos de pessoas influentes nessas áreas, e assim talvez possamos compreender melhor esse assunto que assola a humanidade, desde que o homem é homem.

VIDA

“Quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver.”
-Montaigne(1533-1592)

“Vida significa existência. Do latim “vita”, que se refere à vida. É o estado de atividade incessante comum aos seres organizados. É o período que decorre entre o nascimento e a morte. Por extensão vida é o tempo de existência ou funcionamento de alguma coisa.”
Dentro da filosofia, a vida é abordada em diversos pontos, sendo difícil condensa-los em apenas um. Portanto, deixemos que ela continue com seu esplendor e nos atentemos ao que nos interessa neste momento.
Sabemos de um fato muito importante, vida é o espaço de tempo que temos para nos desenvolver e evoluir. Há quem faça bom uso desse tempo, e quem diga que ele é curto. Segundo Sêneca, a vida não é breve, mas por vezes achamos que é, pois estamos envolvidos em atividades, trabalhos e problemas, que parecem surrupiar de nós todo o tempo. Nas palavras do autor : “ […] Não é que temos tempo exíguo. O problema é que perdemos muito dele. Bastante longa é a vida e suficiente pra levar a termos os maiores empreendimentos, desde que bem utilizada. Quando desperdiçada em luxo ou em futilidades ou quando não é empatada em algo bom, então sob o impacto da derradeira e inevitável hora, vamos entender ter-se esvaída a vida sem que tivéssemos percebido. ”
Montaigne compartilha de pensamento semelhante quando diz “ A vida em si não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis.”
Saber utilizar de maneira consciente o nosso tempo, e nos atentar as nossas atividades, nos ajuda a viver de maneira saudável. Portanto, se vivemos apenas para os outros ou para o mundo, ao final de nossas vidas quando refletirmos sobre nosso passado, veremos que não vivemos realmente, mas tivemos a falsa sensação de ter vivido, enquanto nosso tempo corria.
A vida pode por vezes se tornar uma espécie de escola, já que é nela que desenvolvemos nossa alma, nossa mente, nosso ser de uma maneira ampla. Também pode ser considerada uma espécie de transição, um tipo estágio que devemos passar para poder após este aprimoramento, alcançarmos elevado nível em outro plano, como é visto no próprio Espiritismo e em tantas outras religiões, que pregam que a morte não é o fim da vida. Podemos enquadrar aqui a frase em destaque na epígrafe, pois muitas vezes moldamos nossos pensamentos em diversas filosofias, que nos ensinam o modo correto de viver, para termos paz quando morrermos.
A religião muitas vezes é usada, para suprimir a carência daquilo que ainda não conhecemos, diminuindo o temor do homem em rumar para um futuro incerto, parafraseando Luc Ferry, daí a importância de teorias e conceitos, para tentar compreender de maneira mais clara essas questões.
Mas, e a morte?

MORTE

A morte por sua vez, seria a nossa ultima experiência. Sobre ela podemos dizer que: Sabemos os processos que podem causa-la, o que acontece em um corpo durante a mesma – de certa forma sabemos todos os processos naturais – mas o que vem após a morte continua um mistério. Mistério sendo, diversas teorias foram construídas ao redor da mesma, e uma teoria muito peculiar andou circulando a internet nos últimos anos e consiste em uma reflexão seguida de uma pergunta, assim como irei demonstrar a seguir:
“Segundo pesquisas que vem sendo realizadas, o cérebro humano( em áreas como hipocampo) chega a funcionar por cerca de 10 minutos após o falecimento do corpo. Nesses minutos, recordamos tudo que já vivemos, como em uma espécie de sonho. Vemos, porém, que os sonhos tem uma duração muito breve, diferente de nossa realidade. Sendo que quando acordamos, lembramos deles em frações de segundos quando na verdade duraram horas a fio. Portanto, existe a possibilidade de nesse momento, estarmos vivendo nesses 10 minutos, afinal, quantos anos de nossas vidas conseguem se compactar em 10 minutos de sonho? Mesmo que você não acredite, existe a remota possibilidade de você estar morto e recordando desse texto. Enfim, como você leitor, me provaria que esta realmente vivo e não preso em 10 minutos de sonho?”
Não posso provar a veracidade dessa reflexão, mas fiz questão de mostra-la com fim de exemplificar a angustia e a incerteza que rondam a morte, e do quão complexo é falar da mesma.

Os pensadores

filosofos-gregos.jpg

Busto de filósofos gregos

 

De Platão até os dias de hoje, dentro desse campo muitos pensadores fizeram questão de exprimir suas opiniões como veremos abaixo:

Segundo Platão, existe uma vida em nosso espírito que não depende de nosso corpo. Nossa alma, é eterna e imutável assim como muitas ideias.
Epicuro justificou sua convicção sobre a morte da seguinte maneira : “A morte nada significa para nós, ela é uma quimera: porque enquanto eu existo, ela não existe, e quando ela existe, eu já não existo.”
Aristóteles também vê na operação intelectiva um sinal de espiritualidade.
Feuerbach vê na imortalidade da alma uma consequência do desejo de sobrevivência.
Montaigne vê a morte como algo importante, de modo a citar que o dia da mesma, é o dia que trará valor a todos os outros, e nele teremos que enfrentar nossos medos e falhas. Ainda diz que “filosofar não é outra coisa senão se preparar para a morte”.
Freud – apesar de ter sua formação em psiquiatria, por estudar a psique, também merece vez nesse meio – considera a morte como o instinto do próprio ser vivo. Dado que a vida tem origem no mundo inorgânico, tende a retornar para a substância inorgânica: a vida tende para a morte.
Nietzsche acredita que a morte é a suprema possibilidade da liberdade humana. Na morte, o homem pode demonstrar-se vivo no mais alto grau.
E vemos traços desse pensamento em uma frase dita por Luc Ferry : “ A finalidade da vida é superar os temores que a impedem de chegar a liberdade e a serenidade.”

Portanto temos duas correntes
1)Niilistas : A morte é o fim total do homem.
2)Não-Niilistas: A morte não é o fim total do homem.

Pessimismo X Otimismo na morte

A morte pode ser encarada como algo bom, olhando do lado otimista como Platão, que acredita que a morte é a libertação da alma encarcerada dentro do corpo, ou então de modo pessimista, encarando a visão que algumas crenças originadas por povos primitivos da África e Oceania, acreditavam que a morte seria o resultado da desobediência do homem.

Religiões

-Os muçulmanos creem que, como o nascimento, a morte está nas mãos de Deus. Vivendo conforme os ensinamentos divinos, não há por que temer a morte. Assim, seguem tranquilos para a reencarnação.
– Para a maioria dos cristãos, na morte, o espírito vai para o céu ou para o inferno – para os católicos, há o purgatório e, para outras denominações, a morte é um sono até o dia do juízo. O destino varia de acordo com o que o morto fez em vida.
-Os judeus se veem como “hóspedes temporários” de passagem pela Terra. Ou seja, a alma sobrevive mesmo que o corpo tenha falecido.
– Os hindus acreditam na reencarnação, ou seja, que a alma volta várias vezes à vida até se libertar. A vida na Terra é parte de um ciclo de nascimento, morte e renascimento.
– A morte para o budismo pode ser explicada por uma parábola: uma mulher procura Buda para reviver o filho. Buda pede a ela grãos de mostarda de uma casa em que nunca tenha morrido alguém. A mãe não encontra e entende que teria de conviver com a morte.

Conclusão

A vida e a morte, são as certezas que acompanham o homem desde o inicio do pensamento racional. Saber onde a vida começou, e o que acontece depois que ela acaba ainda é, e talvez sempre seja um enigma, afinal, não temos como provar com 100% de certeza, o que ocorre após a morte, e o que ocorreu antes da vida, pois não existe maneira de faze-lo de modo objetivo e cientifico.
Por consequência, vemos que muitos pensadores, tentaram encontrar uma resposta para essa angustia que acompanha o homem, e as temos registradas como conceitos que nos apresentam uma visão sobre esse tema.  Como todo assunto que é capaz de gerar uma discussão, esse também separa a opiniãoem dois grupos, e cada um deles segue seu tipo de pensamento e cria seus conceitos com base nisso, é a conhecida corrente chamada Niilista e Não-Niilista.
Portanto, acreditando ou não que a morte é o fim, estamos no meio do processo chamado vida, e devemos aproveitar o melhor dela, afinal, não sabemos o que ocorre após a ela, mas sabemos que ela acaba, de modo que todo o tempo nos é precioso.


Gabriella de Macedo

Fonte: Humanismo e Renascimento Michel de Montaigne – Marcos Pugliesi ; Youtube  – Fronteiras do Pensamento:  Luc Ferry ; gentequeeduca.com.br ; mundoestranho.abril.com.br ; berakash.blogspot.com.br ; super.abril.com.br ; infoescola.com ; megacurioso.com.br

 

3 thoughts on “Vida e Morte

  1. Olá,

    Primeiramente gostaria de parabenizá-la pela reflexão e pela maneira competente como organizou a exposição dessa rica e fascinante miscelânea de pensamentos. Ademais, peço-lhe licença para compartilhar uma observação que julgo pertinente.
    Acredito que a morte seja uma antinomia, isto é, nunca conseguiremos, seja através da religião, ciência ou filosofia, entender o que de fato acontece após a morte. Sendo assim, creio que o que temos são especulações, hipóteses e crenças e, devido à nossa enorme limitação cognitiva, jamais conseguiremos compreender efetivamente o que acontece.
    Acho especialmente interessante o prisma epicurista – que você mencionou – acerca da morte: enquanto somos, ela não é; quando ela vem a ser, já não somos mais.
    Basicamente, creio que esta consciência que temos da morte é o que nos traz aquele sentimento de vazio, que é o que Kierkegaard, que foi posteriormente corroborado por Heidegger, chamou de angústia, que nada mais é do que a sensação do nada. Isto é, a angústia é uma sensação sem uma causa específica e, portanto, incerta, e, como o texto bem expõe, nada é mais misterioso do que a morte, uma vez que através dela perdemos o que temos de mais precioso e importante, que é a vida.
    Alguns buscam preencher a angústia existencial que sentem através de certezas, que é o que eu entendo como fé; outros, incluo-me neste segundo grupo, são incapazes se sentir fé, e por isso tentam aprender a conviver com ela. Saliento, no entanto, que não me refiro à fé pejorativamente, pois, em momentos difíceis, ela me fez (e faz) muita falta.
    Acho que me delonguei muito. Sendo assim, se você leu até aqui, obrigado e parabéns.

    Abraço.

    1. Olá Juliano, antes de tudo gostaria de agradecer por esse primoroso comentário. Eu fico realmente grata de abrir o blog e ler coisas assim, e fico feliz por notar que você gostou do que foi dito.
      A morte é um dos assuntos mais intrigantes que podemos tratar. Justamente pelo que já foi postulado, dela só podemos fazer especulações sem nunca ter algo concreto para se sustentar. Acho que a beleza desse assunto esta exatamente aqui. Por vezes parece que somos todos movidos pela curiosidade de buscar entender aquilo que não nos é compreensível – apesar de nossas limitações, como você bem colocou – insistimos nisso. Concordo com o que disse, nunca entenderemos realmente o que é acontece após a morte, mas hipóteses são o que não faltam.
      Realmente, essas perguntas sem respostas deixam lacunas dentro de nós que precisam ser respondidas de alguma maneira. Esse vazio precisa ser preenchido, e chega um momento em que a angústia precisa ser superada, mas no caso, acho que a fé tem mais aproveitamento do que ser uma simples muleta para nos apoiarmos nos momentos em que vacilamos. Mas compreendo seus argumentos, o grande uso que fazem dela geralmente é exclusivamente esse.
      Pois fique a vontade para se delongar por aqui sempre que quiser, acredito que até mesmo eu me empolguei na resposta e ela ficou maior do que eu tinha planejado haha Engraçado que mesmo assim não dissemos 1% de tudo que existe pra ser debatido desse tema. Doido né?
      Mais uma vez obrigada pelo comentário, e fique com o convite para aparecer por aqui sempre que quiser. Obrigada também pela complementação que você fez ao texto com sua visão e conceitos sobre o assunto.
      Abraços

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *