Televisão fechada

O dia de trabalho havia sido exaustivo: Acordar cedo, andar em um transporte público lotado, chegar ao trabalho e ser enterrado por pilhas de documentos que precisavam ser finalizados,  fazer uma pausa de poucos minutos, diminuir a pilha atual e receber uma nova pilha que somada a meia pilha de hoje, deixa muito trabalho para amanhã, andar em um transporte público lotado, chegar em casa e desabar no sofá.
Pode parecer rápido, mas estender esse cronograma em doze horas e multiplicar por seis, que eram os dias de trabalho, pode causar certa quantidade de estafa.
Tudo que Pedro queria era ficar ali no sofá e só acordar no outro dia. Ele quase conseguiu, visto que passados alguns minutos desde que deitara, seu celular começou a vibrar em seu bolso. Ele franziu o cenho, não podia ter cinco minutos de paz?
Colocou a mão no bolso e resoluto tirou o celular de dentro do envoltório de pano que o guardava, não era uma ligação. Ele respirou aliviado, era só uma mensagem de sua noiva, dizendo que estava presa no trânsito, mas que de forma alguma perderia a janta que seria preparada por ele hoje.
Levou à mão a testa. Hoje era o seu dia de preparar a janta. A mão escorria pelo rosto enquanto ele pensava no que faria em menos de meia hora. A resposta era clara: Macarrão.
Deu um salto do sofá e afrouxou a gravata indo em direção ao fogão. Panela, água, macarrão, tempero e molho. Minutos depois já estava pronto, comida feita, mesa posta, só que ainda faltava alguma coisa. Da mesa da cozinha virou a cabeça levemente a direita e viu a televisão. Talvez tivesse algum filme bom passando hoje e os dois pudessem assistir dali. Achou a ideia genial.
Ligou a televisão apenas para constatar que tinha dezenas de canais e nada de bom para assistir… parece que os filmes interessantes só passavam nos canais fechados, não havia nada de seu agrado nas redes abertas, mas tinha um filme que poderia interessar a sua mulher e começaria em dez minutos. Tempo hábil para que ela chegasse em casa. Deixou no canal e voltou para mesa.
Os comercias lhe mantiveram tão distraído, que só voltou a si quando ouviu o barulho da chave sendo inserida na fechadura. Mariana chegara a tempo do filme. Recepcionou-a com um caloroso abraço seguido por um beijo que já era costume dos dois, que em seguida desataram a falar do dia, que havia sido difícil para ambos.
Ela aprovara o cheiro bom que pairava no apartamento e elogiara a escolha do filme. Colocaram a comida e o filme já havia começado. Sorriram e assistiram, ao menos os cinco primeiros minutos antes de uma mensagem que foi considerada como intrusa ser detectada “Interrompemos sua programação para exibição do horário eleitoral político”
Murmúrios de lamentação podiam ser ouvidos.
-Eu não trabalhei um dia inteiro pra chegar aqui e assistir isso.
-Eu havia esquecido completamente que passaria  hoje – ele se desculpou soltando o garfo.
-Ninguém merece ouvir esses corruptos reclamarem da situação dizendo que tem soluções que eles não exercem – ela bufava.
-Posso colocar uma música…
-Não. Não. Deixe como esta.
-Tudo bem, então – ele pegou o garfo e quando ia coloca-lo na boca, ela continuou.
-Mas você sabe que eu odeio política, é cheio de corrupção, é uma coisa podre… podre. Em todos os lados que você procurar olhar, vai encontrar uma coisa errada lá dentro. Esses políticos são todos ladrões. E gastam o dinheiro com o que? Campanhas? Pra que? Pra enganar a população que compra as mentiras em uma bandeja. Tirando o dinheiro que eles roubam de nós…
Ele havia desistido de fazer objeções e só escutava, pois ela parecia uma metralhadora de insultos.
-Isso não aconteceria se tivéssemos uma televisão a cabo..
-Você sabe que não temos dinheiro pra pagar isso agora Mari..
-Eu sei, eu sei – ela o interrompeu – me desculpe. Não vou deixar que isso estrague nossa noite, até porque, posso consertar isso.
-Como?
-Sabe, eu não pago a tv fechada, pois acho um absurdo precisarmos pagar tão caro nas coisas e a maioria dos preços altos, se não todos, é por conta dos impostos.
Agora o macarrão já estava frio, a cabeça dele doía enquanto desejava ter ficado desmaiado no sofá. Ela levantou-se da mesa, foi até a bolsa e depois direto para o aparelho televisor.
-Querida – ele se apressou em dizer – por favor, não quebre a televisão, pagamos caro por ela, e além do mais, essa propaganda já esta acabando, não existe motivos para tanta zanga.
Ela ria sem se virar para ele.
-Não vou quebrar nada, mas a propaganda vai voltar amanhã, e depois e depois.. Cheia das suas mentiras e com mais e mais hipocrisias. Eu não quero fazer parte disso.
Ela puxava os fios e ele a essa altura ele já dava passos rápidos em sua direção. Quando chegou até lá, viu que na realidade ela estava conectando um aparelho no lugar da antena.
-O que raios seria isso Mariana?
-Um aparelho que desbloqueia todos os canais da televisão fechada.
-Você comprou?
-Ganhei, isso faz alguma diferença?
-Eu só acho contraditório…
-Apenas sente no sofá e assista.
Sofá. Isso mesmo, era exatamente onde ele queria estar, que se dane o aparelho e os políticos. Tudo que importava agora era fechar os olhos e tentar descansar a cabeça. O aparelho havia sido conectado e Mariana ria consigo mesma, feliz pela proeza. Realmente funcionava e agora tinham muitas opções sem a intromissão de políticos no meio da janta.
Deitou-se ao lado de Pedro e colocou em um filme qualquer, minutos depois os dois cochilavam frente ao televisor que exibia as imagens para um casal desacordado e dois pratos de macarrão frio.
E assim o ciclo vicioso de corrupção continua, em todos os níveis e camadas sociais, onde os pequenos atos raramente são levados em consideração e a culpa dos problemas é jogada apenas de um dos lados da história. O aparelho que rouba o sinal de televisão ficou no apartamento do casal até quebrar, e o político que guarda o dinheiro no bolso ficou no poder até o final de seu mandato.

6 thoughts on “Televisão fechada

  1. É quem diz condenar a corrupção sendo corrupto, quem diz lutar contra preconceito sendo preconceituoso. São tempos de deturpação total do que um dia já foi defensável.
    Ótima crítica!

  2. Olá, Gabriella.

    Leitura gostosa e leve, mas que, ao mesmo tempo, cutuca e incentiva o leitor a refletir. Acho fascinante você ter se utilizado de uma situação cotidiana e tê-la descrito de maneira tão rica – consegui projetar seu texto em minha mente, como um pequeno filme.
    Esse seu texto fala sobre algo que me fascina, que é o quanto somos contraditórios sem nem ao menos termos consciência disso, exercendo o que eu chamo de moral da conveniência.
    Adorei seu texto. Parabéns!

    Abraço.

    1. Olá Juliano,
      Esse assunto é realmente fascinante e podemos aborda-lo de tantas maneiras diferentes… Consequências das diversas ocasiões em que ele ocorre (infelizmente). Muito obrigada pelos elogios, é animador ler comentários assim.
      Abraços.

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