Universo em gotas

Faltavam sete estações. O garoto ao meu lado movia lentamente sua caneta sobre o papel canson. A tinta manchava a superfície amarelada traçando o perfil de um homem numa escala cinza. Aos poucos ganhava forma o rosto flutuante. Ele ajeitava cuidadosamente as fronteiras entre a forma existente e o vazio, ora com o dedo, ora com a caneta, fazia um jogo de luz e sombras, escurecendo e clareando a silhueta.
Cinco estações. Agora o sujeito tinha olhos, estavam fixos na borda lateral da folha, o que para ele era a frente, era também limite e de certa forma, o fim. Cravou o borrão negro que aos poucos tornou-se expressivo. Era um olhar caído e triste, talvez outrora fosse os tais olhos de ressaca que queriam tragar o mundo, mas que agora eram cansados e sérios. Tragados pelo próprio universo. Os olhos dizem muito, mesmo sem qualquer palavra.
Três estações. Mesmo com todas as paradas e alterações de velocidade os traços permaneciam no lugar e a mão não vacilava em cada risco, estavam exatamente onde deveriam estar. Pacientemente ele encarava o desenho, e ajustava os traços que deveriam ser mais fortes… demarcava o queixo, a gola da blusa… A cabeça era metade sombra, metade traço. Fez e retocou todos detalhes.
Duas estações. Suspirou satisfeito, tornou a escurecer a lateral demarcando o queixo e finalizou os traços da cabeça. Estava pronto.
Criador e criatura se entreolharam por uma fração de segundos, como quem pergunta: falta algo? Definitivamente faltava algo, mas não ali. Naquele lugar tudo estava preenchido, apesar do enorme espaço em branco.
O traço do desenho era bonito e leve, daqueles de quem já risca há muito. Ele olhou por mais alguns segundos e fechou o caderno preto jogando-o na escuridão da mochila. Foi enclausurado pelo zíper junto das canetas, para não se perder no meio do caminho e esperou a próxima estação.
Desceu no paraíso, com a figura do homem na bolsa. Contraditoriamente levou os olhos tristes com ele, que soltam lágrimas de aquarela.

1.064 °C

Eram três da tarde quando o telefone tocou no escritório. Outra reclamação do serviço do ourives. Com aquela, já havia outras cinco na fila para serem solucionadas, sem que ele se quer botasse os pés na empresa para repensarmos a estratégia dos produtos.
“O que o cliente disse, Sr.Borges, é que não levaria o pingente justamente pela fragilidade. Ele estava com o dinheiro na mão para comprar o de ouro, mas acabou pegando um dez vezes mais barato pela resistência!! É direito do cliente e veja bem, eu faria o mesmo. O senhor conhece os clientes assim como eu, eles querem algo resistente, mas que ao mesmo tempo, não tire a delicadeza de uma peça requintada.” Reclamava o vendedor de uma das filiais. Apenas concordei e anotava cada frase. Ele estava certo.
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Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto. Continue reading “Passageiros”

Um lado do prisma

“Mudando-se a mente que observa, muda-se o mundo que é observado (…) A mente é o centro, e existem tantos mundos quantos as mentes que os veem.”

Masaharu Taniguchi , Mistérios da Vida, p.33

Diante do vasto cenário que se ergue frente ao mundo cotidiano, algumas coisas podem ser esquecidas. Na pressa em que se move a cidade, os pensamentos andam ainda mais rápido do que as pernas, podendo involuntariamente tropeçar nas ideias que lhe são familiares. As finitas proporções da Terra abrigam cerca de sete bilhões de seres. Sete bilhões de histórias, crenças e pensamentos; sendo que cada um possui suas peculiaridades e características, de beleza singular. Continue reading “Um lado do prisma”

Sobre o silêncio

Nós os índios, conhecemos o silêncio…
Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio.
E eles nos transmitiram este conhecimento.
Observa, escuta, e logo atua, nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos.
E então aprenderás.
Quando tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos, é o contrario.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões, nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de “resolver um problema”.
Quando estão numa habitação e há silencio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estas dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrario, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveriam pensar em vossas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra esta sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio…

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Links uteis

Encontrar informações nunca foi tão fácil. Temos em nossas mãos acesso aos mais diversos conhecimentos através de uma ferramenta conhecida por todos: a internet. Saber utiliza-la pode ser o real problema, afinal, uma arma além de te ajudar a ganhar a batalha também pode lhe ferir; é preciso saber utilizar e recarregar a arma do conhecimento.
Contamos com diversos portais para acessar informações que podem contribuir não apenas na parte do entretenimento, mas também construindo conhecimentos, afinal é possível aprender e se divertir sem colocar as coisas em polos opostos. Um dos meios de comunicação mais utilizados para isso é o YouTube que vem ganhando cada vez mais destaque e também os já conhecidos sites, portais que divulgam conhecimentos. Dessa forma separei alguns deles que procuram divulgar o conhecimento cientifico de maneira simples e dinâmica, além de outros links uteis (ou não) que valem o seu acesso.

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Sêneca: A brevidade da vida

Sêneca, foi um filósofo pré-socrático, que apesar de não muito comentado atualmente, teve ideias relevantes para as escolas de pensamento de sua época, sendo um dos representantes do estoicismo. Escreveu diversos livros e dentre eles, A brevidade da Vida, que será utilizado como base neste texto.
Quando Sêneca escreveu-o já estando em exílio político, imprimiu seus pensamentos no papel para que suas ideias fossem registradas. Talvez muitos se identifiquem com esses pensamentos, que mesmo datando de séculos, continua atual.
Podemos afirmar apriori, que não importa quanto tempo uma ideia tenha desde sua criação, mas sua influência, fundamento e objetivo determinam quanto tempo ela irá durar. Afinal, o conhecimento é eterno e quando bem construído pode atravessar os séculos, permanecendo terrivelmente atual.

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Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.