O pálido ponto azul

Carl Sagan

A essa distância, a Terra pode não parecer muito interessante. Mas para nós é diferente. Considere novamente esse ponto. É aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele estão todos aqueles que você ama, todos aqueles que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, todos que já viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e cada pai, cada criança esperançosa, cada inventor e cada explorador, cada professor de moralidade, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol. Continue reading “O pálido ponto azul”

Pensar

Rubem Alves

Quando eu era menino, na escola as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela. Continue reading “Pensar”

M45

.otnela ed otelper rahlo o odnanrot
,radnirb mev sotnemele sod amos a
otnemamrif oa oiem mE

ralertse odaremolga o euges otnesI
.otnemgarf odot moc ranroda uo
,racsufo edop acimsóc arieop a meN

.alenitnes rahlo o etnA
etnapmor mun atnopsed alet aN
,alenaj alep zuler euq etnatsiD
etnatsni omsem oN

.lina luza on assemorp amU
,asserpxe litneg zul A
.lim saicnatsid ertne ,asserp meS
assevarta ohlirb ueS 

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Universo em gotas

Faltavam sete estações. O garoto ao meu lado movia lentamente sua caneta sobre o papel canson. A tinta manchava a superfície amarelada traçando o perfil de um homem numa escala cinza. Aos poucos ganhava forma o rosto flutuante. Ele ajeitava cuidadosamente as fronteiras entre a forma existente e o vazio, ora com o dedo, ora com a caneta, fazia um jogo de luz e sombras, escurecendo e clareando a silhueta.
Cinco estações. Agora o sujeito tinha olhos, estavam fixos na borda lateral da folha, o que para ele era a frente, era também limite e de certa forma, o fim. Cravou o borrão negro que aos poucos tornou-se expressivo. Era um olhar caído e triste, talvez outrora fosse os tais olhos de ressaca que queriam tragar o mundo, mas que agora eram cansados e sérios. Tragados pelo próprio universo. Os olhos dizem muito, mesmo sem qualquer palavra.
Três estações. Mesmo com todas as paradas e alterações de velocidade os traços permaneciam no lugar e a mão não vacilava em cada risco, estavam exatamente onde deveriam estar. Pacientemente ele encarava o desenho, e ajustava os traços que deveriam ser mais fortes… demarcava o queixo, a gola da blusa… A cabeça era metade sombra, metade traço. Fez e retocou todos detalhes.
Duas estações. Suspirou satisfeito, tornou a escurecer a lateral demarcando o queixo e finalizou os traços da cabeça. Estava pronto.
Criador e criatura se entreolharam por uma fração de segundos, como quem pergunta: falta algo? Definitivamente faltava algo, mas não ali. Naquele lugar tudo estava preenchido, apesar do enorme espaço em branco.
O traço do desenho era bonito e leve, daqueles de quem já risca há muito. Ele olhou por mais alguns segundos e fechou o caderno preto jogando-o na escuridão da mochila. Foi enclausurado pelo zíper junto das canetas, para não se perder no meio do caminho e esperou a próxima estação.
Desceu no paraíso, com a figura do homem na bolsa. Contraditoriamente levou os olhos tristes com ele, que soltam lágrimas de aquarela.

1.064 °C

Eram três da tarde quando o telefone tocou no escritório. Outra reclamação do serviço do ourives. Com aquela, já havia outras cinco na fila para serem solucionadas, sem que ele se quer botasse os pés na empresa para repensarmos a estratégia dos produtos.
“O que o cliente disse, Sr.Borges, é que não levaria o pingente justamente pela fragilidade. Ele estava com o dinheiro na mão para comprar o de ouro, mas acabou pegando um dez vezes mais barato pela resistência!! É direito do cliente e veja bem, eu faria o mesmo. O senhor conhece os clientes assim como eu, eles querem algo resistente, mas que ao mesmo tempo, não tire a delicadeza de uma peça requintada.” Reclamava o vendedor de uma das filiais. Apenas concordei e anotava cada frase. Ele estava certo.
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Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto. Continue reading “Passageiros”

Um lado do prisma

“Mudando-se a mente que observa, muda-se o mundo que é observado (…) A mente é o centro, e existem tantos mundos quantos as mentes que os veem.”

Masaharu Taniguchi , Mistérios da Vida, p.33

Diante do vasto cenário que se ergue frente ao mundo cotidiano, algumas coisas podem ser esquecidas. Na pressa em que se move a cidade, os pensamentos andam ainda mais rápido do que as pernas, podendo involuntariamente tropeçar nas ideias que lhe são familiares. As finitas proporções da Terra abrigam cerca de sete bilhões de seres. Sete bilhões de histórias, crenças e pensamentos; sendo que cada um possui suas peculiaridades e características, de beleza singular. Continue reading “Um lado do prisma”

Sobre o silêncio

Nós os índios, conhecemos o silêncio…
Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio.
E eles nos transmitiram este conhecimento.
Observa, escuta, e logo atua, nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos.
E então aprenderás.
Quando tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos, é o contrario.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões, nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de “resolver um problema”.
Quando estão numa habitação e há silencio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estas dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrario, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveriam pensar em vossas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra esta sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio…

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