Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso

Consideremos que o cansaço implica e muito no raciocínio e capacidade de argumentação das pessoas, bem como o “saco cheio”, contribui em larga escala para que a paciência – mantenedora da concórdia e do diálogo respeitoso – se dissipe rapidamente, levando com ela a empatia. Continue reading “Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso”

Repensando a educação – O fracasso escolar (1/2)

É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade.

Immanuel Kant

A problemática da educação se reflete nos crescentes dados alarmantes divulgados em nosso país: A medicalização, o analfabetismo e a evasão escolar, são parte do caótico cenário de um dos pilares que deveriam ser mais sólidos em nossa sociedade. Pensar na educação por meio da ótica da psicologia escolar, leva a uma reflexão que pode e deve incutir sobre a atualidade a partir de diferentes pontos referenciais, sem perder a ideia da educação em sua essência e os processos aos quais a envolvem em meio a toda complexidade em que pode ser compreendida.

Entrevista cedida e autorizada pela Profa.Dra. em Psicologia Escolar Ana Karina Checchia, também conhecida como melhor pessoa.

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O fantástico caso da mágica meia azul

Minha mãe sempre me disse pra não ficar andando pela casa descalço. Mas o chão gelado sob meus pés sempre passou uma sensação tão boa… Além do mais, tinha escutado no jornal que as crianças precisam criar anticorpos, e pra isso, elas podem andar descalças. Minha mãe não discutia com o homem da televisão, mas ainda assim, brigava comigo sempre que me via correndo de meia por aí. Estar de meia é igual estar de sapato, não é? O pé fica vestido do mesmo jeito.
De qualquer forma, eu já expliquei pra minha mãe qual é o lance das meias, mas ela não parece acreditar. Eu tenho uma gaveta cheia delas, tá… tudo bem que boa parte está sem um dos pés, mas eu tenho certeza de que a máquina de lavar roupas tá querendo me encrencar. Continue reading “O fantástico caso da mágica meia azul”

O amor é uma falácia

Max Shulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Continue reading “O amor é uma falácia”

Utopia do tempo certo

Pois só quem perde tempo
É quem acha que não tem mais tempo a perder

5 a seco – Vou mandar pastar

Na mitologia grega, Kairós, era descrito como um belo jovem de agilidades exímias. Possuía duas asas nos ombros e estava sempre correndo. Só era possível pará-lo agarrando-o de modo firme no topete que havia em sua testa.
Kairós representa o momento oportuno para fazer o que precisa ser feito. Se você deixar a oportunidade passar sem agarra-la, será bem difícil persegui-la depois. Continue reading “Utopia do tempo certo”

O estripador de laranjeiras

Carlos Eduardo Novaes

As pessoas estão com medo. Expressões tensas, gestos nervosos, olhares desconfiados, todos à beira do pânico. Uma simples faísca pode provocar a explosão.
Constatei esse clima uma tarde quando saí de casa para comprar pão. Parado na porta da padaria, já com os dois pãezinhos debaixo do braço, num momento de bobeira, acendi um cigarro, olhei o tempo e procurei pelas horas. Não havia relógio à minha volta. Vi uma senhora caminhando apressada pela calçada, bolsa apertada contra o peito. Aproximei-me, sem ser visto, e toquei de leve no seu ombro. A mulher virou-se e deu um berro monumental:
– UAAAAAIIIIII – E saiu correndo. Continue reading “O estripador de laranjeiras”

O pálido ponto azul

Carl Sagan

A essa distância, a Terra pode não parecer muito interessante. Mas para nós é diferente. Considere novamente esse ponto. É aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele estão todos aqueles que você ama, todos aqueles que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, todos que já viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e cada pai, cada criança esperançosa, cada inventor e cada explorador, cada professor de moralidade, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol. Continue reading “O pálido ponto azul”

Pensar

Rubem Alves

Quando eu era menino, na escola as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela. Continue reading “Pensar”

M45

.otnela ed otelper rahlo o odnanrot
,radnirb mev sotnemele sod amos a
otnemamrif oa oiem mE

ralertse odaremolga o euges otnesI
.otnemgarf odot moc ranroda uo
,racsufo edop acimsóc arieop a meN

.alenitnes rahlo o etnA
etnapmor mun atnopsed alet aN
,alenaj alep zuler euq etnatsiD
etnatsni omsem oN

.lina luza on assemorp amU
,asserpxe litneg zul A
.lim saicnatsid ertne ,asserp meS
assevarta ohlirb ueS 

Continue reading “M45”

Universo em gotas

Faltavam sete estações. O garoto ao meu lado movia lentamente sua caneta sobre o papel canson. A tinta manchava a superfície amarelada traçando o perfil de um homem numa escala cinza. Aos poucos ganhava forma o rosto flutuante. Ele ajeitava cuidadosamente as fronteiras entre a forma existente e o vazio, ora com o dedo, ora com a caneta, fazia um jogo de luz e sombras, escurecendo e clareando a silhueta.
Cinco estações. Agora o sujeito tinha olhos, estavam fixos na borda lateral da folha, o que para ele era a frente, era também limite e de certa forma, o fim. Cravou o borrão negro que aos poucos tornou-se expressivo. Era um olhar caído e triste, talvez outrora fosse os tais olhos de ressaca que queriam tragar o mundo, mas que agora eram cansados e sérios. Tragados pelo próprio universo. Os olhos dizem muito, mesmo sem qualquer palavra.
Três estações. Mesmo com todas as paradas e alterações de velocidade os traços permaneciam no lugar e a mão não vacilava em cada risco, estavam exatamente onde deveriam estar. Pacientemente ele encarava o desenho, e ajustava os traços que deveriam ser mais fortes… demarcava o queixo, a gola da blusa… A cabeça era metade sombra, metade traço. Fez e retocou todos detalhes.
Duas estações. Suspirou satisfeito, tornou a escurecer a lateral demarcando o queixo e finalizou os traços da cabeça. Estava pronto.
Criador e criatura se entreolharam por uma fração de segundos, como quem pergunta: falta algo? Definitivamente faltava algo, mas não ali. Naquele lugar tudo estava preenchido, apesar do enorme espaço em branco.
O traço do desenho era bonito e leve, daqueles de quem já risca há muito. Ele olhou por mais alguns segundos e fechou o caderno preto jogando-o na escuridão da mochila. Foi enclausurado pelo zíper junto das canetas, para não se perder no meio do caminho e esperou a próxima estação.
Desceu no paraíso, com a figura do homem na bolsa. Contraditoriamente levou os olhos tristes com ele, que soltam lágrimas de aquarela.