Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto. Continue reading “Passageiros”

Um lado do prisma

“Mudando-se a mente que observa, muda-se o mundo que é observado (…) A mente é o centro, e existem tantos mundos quantos as mentes que os veem.”

Masaharu Taniguchi , Mistérios da Vida, p.33

Diante do vasto cenário que se ergue frente ao mundo cotidiano, algumas coisas podem ser esquecidas. Na pressa em que se move a cidade, os pensamentos andam ainda mais rápido do que as pernas, podendo involuntariamente tropeçar nas ideias que lhe são familiares. As finitas proporções da Terra abrigam cerca de sete bilhões de seres. Sete bilhões de histórias, crenças e pensamentos; sendo que cada um possui suas peculiaridades e características, de beleza singular. Continue reading “Um lado do prisma”

Sobre o silêncio

Nós os índios, conhecemos o silêncio…
Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio.
E eles nos transmitiram este conhecimento.
Observa, escuta, e logo atua, nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos.
E então aprenderás.
Quando tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos, é o contrario.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões, nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de “resolver um problema”.
Quando estão numa habitação e há silencio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estas dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrario, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveriam pensar em vossas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra esta sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio…

Continue reading “Sobre o silêncio”

Sêneca: A brevidade da vida

Sêneca, foi um filósofo pré-socrático, que apesar de não muito comentado atualmente, teve ideias relevantes para as escolas de pensamento de sua época, sendo um dos representantes do estoicismo. Escreveu diversos livros e dentre eles, A brevidade da Vida, que será utilizado como base neste texto.
Quando Sêneca escreveu-o já estando em exílio político, imprimiu seus pensamentos no papel para que suas ideias fossem registradas. Talvez muitos se identifiquem com esses pensamentos, que mesmo datando de séculos, continua atual.
Podemos afirmar apriori, que não importa quanto tempo uma ideia tenha desde sua criação, mas sua influência, fundamento e objetivo determinam quanto tempo ela irá durar. Afinal, o conhecimento é eterno e quando bem construído pode atravessar os séculos, permanecendo terrivelmente atual.

Continue reading “Sêneca: A brevidade da vida”

Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.

Pensar a resiliência

Perco a conta de quantos são os momentos em que outras pessoas contribuem para as visões e conceitos que eu nutria em meu âmago. Por vezes o contato com o outro alimenta essas ideias, por vezes as destrói completamente. Mas na maioria dos casos esse contato possibilita a compreensão de um mesmo objeto sobre prismas dos quais jamais lançaria olhar sozinha. São esses os estalos mentais que surgem dizendo que existem facetas das quais nos esquecemos, por ignorância ou desdém.

Continue reading “Pensar a resiliência”

As estrelas não são para o homem

“-Só conhecemos a baixa gravidade e uma atmosfera que não conseguimos respirar. Terráqueos podem caminhar do lado de fora em direção à luz respirar ar puro, olhar para um céu azul e ver algo que lhes da esperança… e o que eles fazem? Eles olham adiante daquela luz, adiante daquele céu azul vêem as estrelas e pensam: São minhas.”
The Expanse ep.5
“-É uma ideia terrível, mas precisam encara-la. Pode ser que um dia vocês possuam os planetas. Mas as estrelas não são para o homem (…) Sim, eles não gostariam nada de dar com a cara nos portais celestes fechados. Contudo, precisavam aprender a enfrentar a verdade… Ou tanto da verdade quanto, piedosamente, podia ser lhes dada.”
O fim da infância – Arthur C. Clarke 

As esferas públicas e privadas

Nem sempre o mundo foi exatamente da maneira como o conhecemos hoje. Existe nesse meio tempo entre um passado longínquo e o presente, uma longa caminhada de ascese ou declínio – dependendo do tema – dos mais variados assuntos, conceitos e ciências. Por esse motivo o mundo é como é, por conta das inúmeras transformações, e também por esse motivo não é algo imutável e sim algo que está em constante mutação, mesmo que demore décadas para que possamos observar essas transformações de maneira clara. Continue reading “As esferas públicas e privadas”

Eternidade I

Postagem atualizada. 

O tema ‘morte‘ já foi exposto por aqui em alguns textos como  Vida e Morte (nesse texto você encontrará diversos argumentos de filósofos e a visão de algumas religiões sobre o assunto) e A Última Festa (crônica que ilustra uma situação pós-morte). Mas hoje o assunto vai na direção contrária  mas nem tanto dos mesmos, visto que se volta justamente a eternidade.
E se o homem não precisasse morrer? Se você tivesse a oportunidade de viver para sempre aceitaria a eternidade sem reclamações?

“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata.”

Carlos Drummond de Andrade

A eternidade é um conceito que se refere ao infinito, algo que não pode ser medido pelo tempo e que não se restringe a ele. Eterno portanto, é algo que não tem início nem fim.
Esse assunto (que é mais uma reflexão do que qualquer outra coisa) será divido em dois posts. Nesse primeiro texto iremos tratar da ideia de eternidade do homem quanto corpo.

Dito isso, vamos colocar em questão o fato de que o homem pudesse viver eternamente exatamente na forma que possui hoje, ou então, se tratando de uma suposição, você caro leitor, teria o poder de decidir em qual idade estaria seu corpo para que vivesse para sempre sem envelhecer, mas apenas você teria a eternidade. Você aceitaria?
Continue reading “Eternidade I”

Da complexidade da vida

A vida sempre me encanta, por tantos motivos que é até difícil enumera-los. Quando olhamos para outra pessoa, dificilmente lembramos que ela é mais do que aparenta e nem digo sobre sua personalidade… não vemos que ela é um amontoado de células, órgãos, sinapses e sangue. Dificilmente lembramos que nós também somos assim, e que o nosso coração esta constantemente batendo, precisamente cerca de 70 vezes por minuto, para garantir que tudo funcione dentro de nós. O cérebro da os comandos de tudo que ocorre no corpo, principalmente de nossas ações. Tome cuidado com elas.
Nossas ações determinam as consequências, afinal, como diria Newton: Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário, ou podemos utilizar o popular dito, aqui se faz, aqui se paga, se colhe aquilo que é plantado, etc etc como preferir.
No geral nos prendemos a situações e momentos, enquanto os pequenos detalhes nos escapam. O show da vida acontece com você a todo instante (clichê mas é verdade). Células nascem e morrem. E você continua vivo.
E se olhar pra fora do corpo ainda vai encontrar uma rede ainda maior de complexidade. Temos outras pessoas, objetos, animais, a natureza, tudo… tudo isso possui sua composição e seu impacto na sua vida e na de outros, no ambiente, no tempo, na história. E ainda, se olhar de maneira mais ampla, talvez de um nível estelar vai notar que esse é só mais um planeta no meio de outros milhões e milhões…
Realmente não lembramos desses pequenos detalhes e da complexidade da vida enquanto o tempo corre. Porém, se tiver um tempo reflita. Vale a pena. E enquanto refletir se lembre da imensa quantidade de processos internos e externos que contribuem para que você continue vivendo. Você irá encarar a vida de outra maneira e certamente perceberá que não existe motivo para que não seja grato ou até mesmo para que não sinta nenhuma pontada de alegria, só isso já é o bastante para tornar sua vida cada dia mais encantadora.

Entre Papéis

Essa semana tive o prazer de encontrar uma nota antiga, escondida em meio a papéis, mas tão singela e verdadeira que resolvi traze-la pra cá. Eu tenho o péssimo hábito de por vezes esquecer de colocar data nas coisas, e adivinhem só, não coloquei nesse. O texto que segue abaixo foi escrito há alguns anos, num passado distante, direto do túnel do tempo. Transcrevo da forma que encontrei, porque acho que essa é a graça de mergulhar nas memórias, não tentar muda-las, mas aprender com elas. E essa – em especial – foi um grande lembrete:

“Certa vez, em uma noite de muita chuva a luz havia acabado e o vento batia as janelas e portas, os trovões soavam ensurdecedoramente, fora tudo isso, com intervalo de poucos segundos o céu era iluminado por clarões. O que tornava a coisa toda ainda mais caótica.
Eu sempre tive medo de chuvas desse porte, e com essa não foi diferente. Enquanto me forçava a ficar calma vi que seria em vão se não serenasse a mente como me ensinaram. Então coloquei-me a pensar em coisas boas e acabei fazendo uma reflexão interessante. 
Vocês sabiam que se no meio dessa chuva, alguém subisse acima do nível das nuvens tudo estaria tranquilo? Afinal só chove pra baixo. Parece simples, e é. A água evapora, se condensa forma nuvens e então chove. E só chove na terra porque nós precisamos de água. Se nós vivêssemos acima das nuvens, talvez não necessitássemos de chuva, ou então iria chover para cima.
O ponto é, no mesmo instante me veio a cabeça que o mesmo ocorre com o medo. Enquanto vivemos aqui na terra, quando em vez nos deparamos com ele porque é necessário, mas no momento que transcendemos acima das nuvens ele não existirá mais. 
Já que só chove pra baixo, o medo assim como a chuva só ira te atingir se você estiver embaixo, portanto, se levante e procure subir cada vez mais!

Devo confessar que dei boas risadas com essa ideia de chover pra cima, seria realmente curioso e louco. O mais engraçado foi que me transportei exatamente para o dia em que escrevi isso e uma pontinha de orgulho surgiu, por ter entendido que o medo só nos controla se permitirmos. Essa foi uma importante lição.

PS:Devo dizer que temporais não foram mais um problema depois desse episódio.