Oz

Não se sabe de onde vem o vento

E para onde o vento vai.
Nem se existe há quanto tempo,
Ou quando se esvai.

Se lhe toca a face a ameno,
Agradeça com fervor.
Se lhe empurra forte as vestes,
Mantenha em si o mesmo amor.

O sopro que visita
torna a avisar,
Mesmo que não insista
virá de longe soprar.

Sobre o silêncio

Nós os índios, conhecemos o silêncio…
Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio.
E eles nos transmitiram este conhecimento.
Observa, escuta, e logo atua, nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam de seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que querem.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos.
E então aprenderás.
Quando tiveres observado o suficiente, então poderás atuar.
Com vocês, brancos, é o contrario.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões, nas quais todos interrompem a todos, e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de “resolver um problema”.
Quando estão numa habitação e há silencio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo se não gostar do que estas dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei minha decisão sobre o que disseste, mas não te direi se não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrario, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.
Deveriam pensar em vossas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra esta sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio…

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não mais que um querer

queria a boemia de vinicius
a maestria de drummond
os encantos dionisíacos de jim
eu queria pouco
um pouco da formosura de lígia
da força de clarice
queria o descaramento de bukowski
o não importismo de malu
e mais um tanto da malandragem de rita
queria as tramas de pedro e zé
e a voz de renato
as malícias de cam
e a imaginação de verne
os dedos rápidos de amadeus
queria ser mais como carl
ter a simpatia de vivi
queria ser summer, sou tom(to)
fazer piada dos problemas como joão
queria a leveza de ana
se pudesse escolher uma só coisa, queria não me apegar
ir embora sem olhar pra trás como você
queria mesmo é ser metade
mas sou inteiro
queria ser só
apenas queria ser
adivinha?
sou
não direi o que

p.s: você queria que eu colocasse as pontuações, mas isso não passa de um querer

Matando a Poesia – 7

Manoel de Barros

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Chumbo

A cortina de fumaça se estendia
em meio a praça.
A cinza dos prédios embebia
o pôr do sol em massa.

De concreto e ossos reerguiam-se os mortos
em anúncios e painéis,
exaltavam-se reflexos tortos.
Frutos de criações cruéis.

Marcado nos corpos e mentes,
as ideias
pouco contentes,
agora já eram aceitas.

Aos poucos o cinza imposto tomava espaço.
Combinando com as sujas lentes de contato,
que só enxergavam fiasco.
Nos corações de chumbo ocorrem os mais duros assassinatos.

então queres amar?

releitura. 

se precisa forçar sentimentos e palavras
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que sinta naturalmente
com o coração, com a mente, com o corpo,
se não sentir surgir do fundo de tua alma,
não o faças.
se tens que estar horas pensando
se vale ou não a pena
ou curvado demais
em si mesmo
procurando os sentimentos,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres ou homens na tua cama,
não o faças.

se tens que parar e
perdido não sabe como solucionar todas as dúvidas,
não o faças.
se dá desamino só de pensar em encontrar a pessoa,
não o faças.

se tentas amar como outros amaram,
não o faças.

se tens que esperar que o amor saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que se basear primeiro no relacionamento de seus amigos,
ou colegas ou parentes
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos apaixonados,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram amantes,
não sejas ansioso nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
os cartórios de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie (que amam sem amar).
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que estar sozinho
te leve à loucura, mas se levar
ao sentimento de posse ou ilusão,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime o coração,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Releitura do poema Então queres ser um escritor?  de Charles Bukowski, espero que ele não se revire no túmulo por isso.

Nota: Não alterei diversos versos por expressarem aquilo que queria dizer, e sinto que alguns pontos ficaram vagos, mas queria respeitar a estrutura original, por isso peço desculpas desde já.

Tráfego

Embalado pelo tráfego,
Da lentos e grandes suspiros.
Alheio ao barulho das máquinas,
que mantém a cidade girando.

Embalado pelo tráfego,
Sonha tranquilamente.
Enquanto a realidade escapa dos olhos,
que vê pelas pálpebras um mundo inconsciente.

Embalado pelo tráfego,
O cérebro dorme em sua caixa.
Nutrindo as idéias em que deseja acreditar,
eliminando as idéias que não quer aceitar.

Embalado pelo tráfego,
de idéias, de pessoas, de sentidos,
braços acalentam o corpo desacordado
o gracejo final antes do despertar.

Mas está tudo bem, mesmo que durma,
Sabe que a máquina continuará girando
enquanto alguém estiver de pé.

Matando a Poesia – 6

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

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Desata

desliza na superfície nua
tua
explora o mundo que aflora ante teu olhar
em toda superfície crua
deixe-se buscar
enquanto a mão tateia no escuro
em busca do outro corpo nu
cru
deixe que se completem
encaixem
vê a beleza que ergue-se
retira os panos em excesso
liberta-te