Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.

Espectro

A espada rouba a vida

e lhe tira o juramento
abrindo então ferida
que sempre tarda o recobramento

Só não tira o desejo
esse se agarra ao aço
fazendo seu esconderijo
por gerações cheias de asco

Os frutos daquela morte
são movidos por fantasmas passados
ancorados nos desejos que não puderam realizar
e não entendem o motivo do que fazem
mas fazem mecanicamente
sem titubear

Tentam reproduzir os anseios
e enaltecem os caídos
enterrando os vivos
com seus golpes de vingança
mataram em si mesmo a esperança
e nem se deram conta
de que já estão todos mortos

A Última Festa

Todos chegaram cedo, eu ainda estava deitado. Não entendi o motivo de tanto alvoroço: “Hoje vai ter festa grande lá em cima!” alguém disse em meio ao barulho.
Só consegui levantar ainda meio dormindo, poxa, era motivo pra me acordar? Uma festa? Eu nem sou tão festeiro assim.
Todos me olhavam atônitos. Aparentemente sim, era um motivo para se acordar em pleno feriado. Era uma festa importante. Diante da minha incredulidade disseram que precisavam me arrumar e dar banho.
Epaa, banho?
Quando dei por mim já estava vestido. Um lindo terno aliás, eu nunca uso terno. Ri comigo mesmo, essa festa vai ser boa.
Não me lembro do trajeto mas só de já estar no local. Estava florido, muito florido. Deveria ser uma festa cheia de pompas, e por sinal parecia Black Tie, a maioria usava preto. Ainda bem que me arrumaram porque eu teria vindo com a minha camiseta batida do Pink Floyd.
Todos vinham falar comigo, eu respondia mas ninguém parecia me escutar. As pessoas estavam ficando tristes. As mensagens tomaram formas de despedidas.
De repente percebi que o motivo era eu. Eu era o culpado do sofrimento. Eu tentava avisar que estava bem, mas minha voz não era escutada.
Eu estava ali, vivo. Por que choravam?
“Nunca mais te verei” “Foi tão cedo”
Caramba, acho que tinha morrido. Só podia ser isso… Ou então algum tipo de brincadeira de muito mal gosto.
Mas era completamente inaceitável. Quer dizer, como isso iria acontecer? Eu estava ali bem e de repente, estou morto?
Suspirei.
“Vai ficar tudo bem. Tem um lugar bom te esperando”
Ah, que ótimo.
Minha visão começou a ficar turva. Acho que vou passar muito mal se continuar aqui. Os choros aumentaram, de repente alguém apagou a luz.
Chega. Que brincadeira de mal gosto. Escutei o choro da minha mãe. Eu gritei por ela mas estava tão escuro.
De repente o barulho cessou. Me senti sozinho. Eu queria muito voltar pra casa. Por que tinham me levado até ali? A escuridão me cegava, pra onde quer que virasse.
Me acostumei ao ambiente ainda ouvia a família me sussurrando palavras baixinho, sem poder encontra-los.
Não sei em que instante vi uma luz no lado oposto ao barulho.
Eles clamavam por mim mas a luz me chamava também, e eu sabia que era pra lá que devia andar. Mas não queria deixa-los ali chorando.
Eu podia voltar pra casa não podia?
A resposta vinda em meio ao clarão era não.
Demorei muito tempo para decidir entre ir e ficar. Mas os sussurros já eram quase inaudíveis aquela altura.
Resolvi explorar o outro lado, talvez a luz fosse minha passagem para casa.
Quando adentrei na claridade estando tanto tempo envolto em trevas só pude sentir paz e plenitude em cada parte do meu ser. Era ali mesmo que deveria estar.
Aos poucos fui digerindo a ideia e tudo foi ficando bem, tudo foi se serenando.
Eu vi que não tinha morrido. Estava mais vivo do que nunca. Estava, finalmente, em casa.

Vida e Morte

Desde os primórdios da filosofia, o homem vem questionando diversos assuntos que despertam sua curiosidade e o levam a questionar a essência de sua própria vida. Partindo desse principio, temos em mente que o senso curioso é aquilo que move o ser humano a fazer descobertas e teorias, que são importantes para o desenvolvimento da vida como um todo.
Esta mesma curiosidade, atrelada a estudos e doses de questionamentos, levou certos pensadores a indagarem o que acontece após a morte. Afinal, para muitos a vida pode ser incerta durante seu percurso, mas sobre ela sabemos duas coisas: ela começa, e termina. Continue reading “Vida e Morte”

Cara do meu Brasil

Cara do meu Brasil
Por que se sente assim?
Se és tu o nosso brilho
Nossa identidade
Deveria poder se sentir a vontade
Em sua própria casa
Sem ser esfaqueada com foice ou faca
Sem tirar a própria
Pra sarar a ferida de ver seu povo
Morrer
Sem dor ou sofrimento
deveríamos apenas por um momento respeitar
Ouço o silêncio da floresta
Esta quieto sem vocês
Menos dez menos cem
Talvez amanha já não tenha mais ninguém

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Imagem retirada do google imagens

 

Faz

Entre risos e laços
Deu-se o ponto
Entre o abraço fez-se o pranto
Entre o ponto e o fim
Fez-se o começo
Do começo fez-se o encanto
Do encanto fez-se amores
Dos amores, algumas dores
Das dores restou solidão
E da solidão faz-se poemas
Dos poemas se criam sentimentos
Com os sentimentos entendemos o mundo
Do mundo entendemos as coisas, das coisas vemos a vida
E da vida, se faz a morte.
E dela, podemos criar um novo começo
ou um novo poema

 

 

Inspirado em Vinicius de Moraes