Universo em gotas

Faltavam sete estações. O garoto ao meu lado movia lentamente sua caneta sobre o papel canson. A tinta manchava a superfície amarelada traçando o perfil de um homem numa escala cinza. Aos poucos ganhava forma o rosto flutuante. Ele ajeitava cuidadosamente as fronteiras entre a forma existente e o vazio, ora com o dedo, ora com a caneta, fazia um jogo de luz e sombras, escurecendo e clareando a silhueta.
Cinco estações. Agora o sujeito tinha olhos, estavam fixos na borda lateral da folha, o que para ele era a frente, era também limite e de certa forma, o fim. Cravou o borrão negro que aos poucos tornou-se expressivo. Era um olhar caído e triste, talvez outrora fosse os tais olhos de ressaca que queriam tragar o mundo, mas que agora eram cansados e sérios. Tragados pelo próprio universo. Os olhos dizem muito, mesmo sem qualquer palavra.
Três estações. Mesmo com todas as paradas e alterações de velocidade os traços permaneciam no lugar e a mão não vacilava em cada risco, estavam exatamente onde deveriam estar. Pacientemente ele encarava o desenho, e ajustava os traços que deveriam ser mais fortes… demarcava o queixo, a gola da blusa… A cabeça era metade sombra, metade traço. Fez e retocou todos detalhes.
Duas estações. Suspirou satisfeito, tornou a escurecer a lateral demarcando o queixo e finalizou os traços da cabeça. Estava pronto.
Criador e criatura se entreolharam por uma fração de segundos, como quem pergunta: falta algo? Definitivamente faltava algo, mas não ali. Naquele lugar tudo estava preenchido, apesar do enorme espaço em branco.
O traço do desenho era bonito e leve, daqueles de quem já risca há muito. Ele olhou por mais alguns segundos e fechou o caderno preto jogando-o na escuridão da mochila. Foi enclausurado pelo zíper junto das canetas, para não se perder no meio do caminho e esperou a próxima estação.
Desceu no paraíso, com a figura do homem na bolsa. Contraditoriamente levou os olhos tristes com ele, que soltam lágrimas de aquarela.

Epifania

O trem já estava na plataforma quando eu ainda estava descendo as escadas, corri para o ultimo vagão e consegui um cantinho perto da porta. Faltavam algumas estações pra chegar em casa, então me permiti respirar em paz por alguns instantes.Um casal estava ao meu lado debatendo em uma língua que eu tentava identificar.
Alemão. Talvez fosse alemão. Mas não tenho certeza, não falo alemão. Podia ser russo, mas definitivamente parecia alemão. Mas talvez não fosse. Inglês não era, disso eu tinha certeza.
Quatro estações depois decidi aceitar o possível alemão e fiquei rindo de mim por tentar descobrir a tal língua. Que falta me faz um livro no trajeto até em casa.
Finalmente chegamos no terminal, o casal apaixonado desceu de mãos dadas e atrás de mim, um rapaz e uma senhora comentavam:
“-Você viu que língua estranha eles estavam falando?
-Sim – ele respondeu – parecia alemão.
-Não era francês – disse ela pensativa– pode ser alemão mesmo.
-Talvez seja, porque inglês não era –conclui o rapaz.”
Passei rindo por eles, e a conversa foi sumindo conforme avançava a passos largos. Fiquei aliviada em saber que não era a única tentando adivinhar o dialeto estranho no metrô.
Percebi depois de algum tempo, que não fazia ideia do significado de nenhuma palavra que tinha escutado daqueles dois. Acho que deve ser assim que os bebês se sentem com várias pessoas balbuciando ao seu redor,tentando entender do que aquelas pessoas falam e dão risada. Só pude concluir que somos letrados para algumas coisas, mas sempre seremos analfabetos em outras.