Éons

Os traços outrora tão conhecidos
Fragmentaram-se absorvidos pela vastidão da existência
Até em essência aos poucos são esquecidos
Varridos da memória com veemência

Não existe inocência, ou sorriso por trás do véu cheio de furos
No retrato impuro o corpo se liquefez,
Afogado em embriaguez, liquida fica a mente que tateia no escuro
Em vão, procuro as memórias que se distorceram, pelos anos sem sensatez

Vês, não existe presença diante do vazio que habita o peito
Aceito, pois existe você em cada partícula
Na mais fina película, restará você, quando tudo diminuir-se a justiça do leito
Sem efeito, você também se desfará diante do infinito… Então, desde já, calcula

Articula quando lhe pergunto, onde estaremos quando tudo acabar?
Se findar, existirá algo além do tempo?
No vento, os éons responderão para ti

Entre Papéis

Essa semana tive o prazer de encontrar uma nota antiga, escondida em meio a papéis, mas tão singela e verdadeira que resolvi traze-la pra cá. Eu tenho o péssimo hábito de por vezes esquecer de colocar data nas coisas, e adivinhem só, não coloquei nesse. O texto que segue abaixo foi escrito há alguns anos, num passado distante, direto do túnel do tempo. Transcrevo da forma que encontrei, porque acho que essa é a graça de mergulhar nas memórias, não tentar muda-las, mas aprender com elas. E essa – em especial – foi um grande lembrete:

“Certa vez, em uma noite de muita chuva a luz havia acabado e o vento batia as janelas e portas, os trovões soavam ensurdecedoramente, fora tudo isso, com intervalo de poucos segundos o céu era iluminado por clarões. O que tornava a coisa toda ainda mais caótica.
Eu sempre tive medo de chuvas desse porte, e com essa não foi diferente. Enquanto me forçava a ficar calma vi que seria em vão se não serenasse a mente como me ensinaram. Então coloquei-me a pensar em coisas boas e acabei fazendo uma reflexão interessante. 
Vocês sabiam que se no meio dessa chuva, alguém subisse acima do nível das nuvens tudo estaria tranquilo? Afinal só chove pra baixo. Parece simples, e é. A água evapora, se condensa forma nuvens e então chove. E só chove na terra porque nós precisamos de água. Se nós vivêssemos acima das nuvens, talvez não necessitássemos de chuva, ou então iria chover para cima.
O ponto é, no mesmo instante me veio a cabeça que o mesmo ocorre com o medo. Enquanto vivemos aqui na terra, quando em vez nos deparamos com ele porque é necessário, mas no momento que transcendemos acima das nuvens ele não existirá mais. 
Já que só chove pra baixo, o medo assim como a chuva só ira te atingir se você estiver embaixo, portanto, se levante e procure subir cada vez mais!

Devo confessar que dei boas risadas com essa ideia de chover pra cima, seria realmente curioso e louco. O mais engraçado foi que me transportei exatamente para o dia em que escrevi isso e uma pontinha de orgulho surgiu, por ter entendido que o medo só nos controla se permitirmos. Essa foi uma importante lição.

PS:Devo dizer que temporais não foram mais um problema depois desse episódio.