A adivinha

-Fique com a mão estendida dessa forma – ela indicava estreitando a vista – preciso ver bem sua palma.
Mantive a mão na posição sugerida enquanto os grandes olhos azuis me encaravam atentos.
-Está vendo algo? – disse depois de alguns minutos em silêncio.
Sua expressão era desorientada. Ela balançava a cabeça levemente numa negativa, os brincos chacoalhavam em suas orelhas.
-Deveria funcionar – dizia incrédula enquanto revirava a palma que se estendia sobre a sua. Continue reading “A adivinha”

O amor é uma falácia

Max Shulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Continue reading “O amor é uma falácia”

O estripador de laranjeiras

Carlos Eduardo Novaes

As pessoas estão com medo. Expressões tensas, gestos nervosos, olhares desconfiados, todos à beira do pânico. Uma simples faísca pode provocar a explosão.
Constatei esse clima uma tarde quando saí de casa para comprar pão. Parado na porta da padaria, já com os dois pãezinhos debaixo do braço, num momento de bobeira, acendi um cigarro, olhei o tempo e procurei pelas horas. Não havia relógio à minha volta. Vi uma senhora caminhando apressada pela calçada, bolsa apertada contra o peito. Aproximei-me, sem ser visto, e toquei de leve no seu ombro. A mulher virou-se e deu um berro monumental:
– UAAAAAIIIIII – E saiu correndo. Continue reading “O estripador de laranjeiras”