A adivinha

-Fique com a mão estendida dessa forma – ela indicava estreitando a vista – preciso ver bem sua palma.
Mantive a mão na posição sugerida enquanto os grandes olhos azuis me encaravam atentos.
-Está vendo algo? – disse depois de alguns minutos em silêncio.
Sua expressão era desorientada. Ela balançava a cabeça levemente numa negativa, os brincos chacoalhavam em suas orelhas.
-Deveria funcionar – dizia incrédula enquanto revirava a palma que se estendia sobre a sua. Continue reading “A adivinha”

Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso

Consideremos que o cansaço implica e muito no raciocínio e capacidade de argumentação das pessoas, bem como o “saco cheio”, contribui em larga escala para que a paciência – mantenedora da concórdia e do diálogo respeitoso – se dissipe rapidamente, levando com ela a empatia. Continue reading “Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso”

O fantástico caso da mágica meia azul

Minha mãe sempre me disse pra não ficar andando pela casa descalço. Mas o chão gelado sob meus pés sempre passou uma sensação tão boa… Além do mais, tinha escutado no jornal que as crianças precisam criar anticorpos, e pra isso, elas podem andar descalças. Minha mãe não discutia com o homem da televisão, mas ainda assim, brigava comigo sempre que me via correndo de meia por aí. Estar de meia é igual estar de sapato, não é? O pé fica vestido do mesmo jeito.
De qualquer forma, eu já expliquei pra minha mãe qual é o lance das meias, mas ela não parece acreditar. Eu tenho uma gaveta cheia delas, tá… tudo bem que boa parte está sem um dos pés, mas eu tenho certeza de que a máquina de lavar roupas tá querendo me encrencar. Continue reading “O fantástico caso da mágica meia azul”

O amor é uma falácia

Max Shulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Continue reading “O amor é uma falácia”

O estripador de laranjeiras

Carlos Eduardo Novaes

As pessoas estão com medo. Expressões tensas, gestos nervosos, olhares desconfiados, todos à beira do pânico. Uma simples faísca pode provocar a explosão.
Constatei esse clima uma tarde quando saí de casa para comprar pão. Parado na porta da padaria, já com os dois pãezinhos debaixo do braço, num momento de bobeira, acendi um cigarro, olhei o tempo e procurei pelas horas. Não havia relógio à minha volta. Vi uma senhora caminhando apressada pela calçada, bolsa apertada contra o peito. Aproximei-me, sem ser visto, e toquei de leve no seu ombro. A mulher virou-se e deu um berro monumental:
– UAAAAAIIIIII – E saiu correndo. Continue reading “O estripador de laranjeiras”

1.064 °C

Eram três da tarde quando o telefone tocou no escritório. Outra reclamação do serviço do ourives. Com aquela, já havia outras cinco na fila para serem solucionadas, sem que ele se quer botasse os pés na empresa para repensarmos a estratégia dos produtos.
“O que o cliente disse, Sr.Borges, é que não levaria o pingente justamente pela fragilidade. Ele estava com o dinheiro na mão para comprar o de ouro, mas acabou pegando um dez vezes mais barato pela resistência!! É direito do cliente e veja bem, eu faria o mesmo. O senhor conhece os clientes assim como eu, eles querem algo resistente, mas que ao mesmo tempo, não tire a delicadeza de uma peça requintada.” Reclamava o vendedor de uma das filiais. Apenas concordei e anotava cada frase. Ele estava certo.
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Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.

Duplicata

Os dois sóis ardiam próximos ao cinturão de Koyper. Sob eles a cidade agitava-se em meio aos murmúrios da nova ordem.

O peso do regimento caia sobre os ombros de cada cidadão. Nunca o homem havia chegado tão longe. Além dos limites de Shutter-3 onde séculos atrás a primeira sonda teria enviado as notícias de uma área habitável. Desde então, os seres humanos se alastraram pelo espaço, multiplicando-se como faziam na Terra. Continue reading “Duplicata”

Xisto

A visão turva pelo calor fazia com que seus olhos ficassem cada vez menores tentando fitar quem vinha ao longe.

Poucos segundos foram necessários para que reconhecesse a silhueta da última pessoa que gostaria de encontrar na face daquele planeta. Ironicamente estava feliz por isso. Ao seu lado os destroços da nave repousavam no chão rochoso e o motor já não emitia nenhum ruído. Continue reading “Xisto”

A inevitável queda

Ele recobrou os sentidos antes de ser tarde demais. Seu corpo estava dolorido e o chão fez com que os membros ficassem frios. Tremia por dentro em parte pelo medo, em parte pela queda de temperatura.

O vazio das ruas fazia-o recobrar de que era proposital sua estada naqueles cantos do subúrbio, onde jamais pisava por vontade própria. A dor ao movimentar os membros fazia-o lembrar ainda, de que antes de estar inconsciente possivelmente poderia ter sofrido coisas das quais não passavam mais aos olhos. Ainda assim, estava inteiro, só não sabia dizer por quanto tempo. Continue reading “A inevitável queda”