1.064 °C

Eram três da tarde quando o telefone tocou no escritório. Outra reclamação do serviço do ourives. Com aquela, já havia outras cinco na fila para serem solucionadas, sem que ele se quer botasse os pés na empresa para repensarmos a estratégia dos produtos.
“O que o cliente disse, Sr.Borges, é que não levaria o pingente justamente pela fragilidade. Ele estava com o dinheiro na mão para comprar o de ouro, mas acabou pegando um dez vezes mais barato pela resistência!! É direito do cliente e veja bem, eu faria o mesmo. O senhor conhece os clientes assim como eu, eles querem algo resistente, mas que ao mesmo tempo, não tire a delicadeza de uma peça requintada.” Reclamava o vendedor de uma das filiais. Apenas concordei e anotava cada frase. Ele estava certo.
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Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.

Duplicata

Os dois sóis ardiam próximos ao cinturão de Koyper. Sob eles a cidade agitava-se em meio aos murmúrios da nova ordem.

O peso do regimento caia sobre os ombros de cada cidadão. Nunca o homem havia chegado tão longe. Além dos limites de Shutter-3 onde séculos atrás a primeira sonda teria enviado as notícias de uma área habitável. Desde então, os seres humanos se alastraram pelo espaço, multiplicando-se como faziam na Terra. Continue reading “Duplicata”

Xisto

A visão turva pelo calor fazia com que seus olhos ficassem cada vez menores tentando fitar quem vinha ao longe.

Poucos segundos foram necessários para que reconhecesse a silhueta da última pessoa que gostaria de encontrar na face daquele planeta. Ironicamente estava feliz por isso. Ao seu lado os destroços da nave repousavam no chão rochoso e o motor já não emitia nenhum ruído. Continue reading “Xisto”

A inevitável queda

Ele recobrou os sentidos antes de ser tarde demais. Seu corpo estava dolorido e o chão fez com que os membros ficassem frios. Tremia por dentro em parte pelo medo, em parte pela queda de temperatura.

O vazio das ruas fazia-o recobrar de que era proposital sua estada naqueles cantos do subúrbio, onde jamais pisava por vontade própria. A dor ao movimentar os membros fazia-o lembrar ainda, de que antes de estar inconsciente possivelmente poderia ter sofrido coisas das quais não passavam mais aos olhos. Ainda assim, estava inteiro, só não sabia dizer por quanto tempo. Continue reading “A inevitável queda”

Reconstituição

Completava-se o primeiro centenário desde que a guerra devastara a cidade de Kyota. Nilo olhava o céu ainda cinzento em um luto que ficara guardado na mente de todos.

Desse mesmo local ele havia presenciado a chegada das naves anos antes. O caos se alastrara na mesma velocidade com que as naves pintavam o céu: mais rápido do que deveria ser. Estupefato não conseguia se dar conta de que era mesmo realidade, todas aquelas carcaças de metal invadindo o planeta, como nas histórias em que seu pai lhe contava. As interações entre diversos seres extra-solares parecia mentira mesmo quando acontecia na realidade. Da primeira vez pareceu ainda mais incrédulo pois o ataque destruiu metade das cidades que deveria ajudar. Nilo era criança na época. Hoje de jovem só tinha a mente. Continue reading “Reconstituição”

Dispositivo

3549. O dispositivo fez um clique baixo antes de abrir, restavam poucos minutos até que os agentes invadissem o prédio. Nenhum alarme havia sido disparado, mas assim que saísse dali com o material em mãos, viraria um alvo ambulante.

Guardou o pequeno objeto metálico no bolso e fechou a porta do cofre. Restava por volta de dois minutos até que o prédio fosse cercado. Desceu as escadas correndo e saiu pela porta dos fundos enquanto os carros cantavam pneu em frente a entrada.

Ninguém olhou os fundos, e quando pensaram em faze-lo ele já estava longe demais.

***

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Crônicas da Era Dourada

Avisos antes da leitura:

As histórias não tem ligação entre si apesar de apresentarem elementos em comum, isso ocorre pois todas se passam no mesmo universo. Justamente por esse motivo não seguem necessariamente uma ordem cronológica. Aliás, não seguem ordem nenhuma.

Todas elas tem um pano de fundo feito a partir de uma crítica velada sobre a qual nada direi, porém isso pode ter deixado alguns textos mais densos, espero apenas que não tenham ficado confusos, mas isso seria pedir demais. Vocês serão minhas cobaias para essas histórias, então desejo-lhes boa sorte e claro uma boa leitura.

Introdução: 

Após o término do terceiro ciclo instalaram-se três grandes eras. Na cronologia vigente foram separadas por uma antiga classificação de estágios, conhecida por muitos pesquisadores dos livros do tempo. Previstas e debatidas por séculos como passos necessários a existência, fizeram-se então verdadeiras.
A primeira era foi dita era de bronze: os comportamentos e tecnologias eram precários, a civilização ainda desenvolvia-se em seus tortos passos pela escala da evolução, da qual lança-se o olhar atual. A segunda era foi tida como a era de prata: onde pouco a pouco avançava-se em cada setor, levando adiante os passos que a era anterior não havia conseguido avançar. Mas o tempo atual era o mais promissor comparado aos antecessores e tinha em si a promessa dá paz que triplicava seu valor a humanidade. Por isso historiadores nomearam-na de Era de Ouro.
A era dourada era a melhor oportunidade de redenção.
Agarraram-na.

Crônicas da Era Dourada:

Dispositivo
A base
Reconstituição
A inevitável queda
Xisto
Duplicata

Epifania

O trem já estava na plataforma quando eu ainda estava descendo as escadas, corri para o ultimo vagão e consegui um cantinho perto da porta. Faltavam algumas estações pra chegar em casa, então me permiti respirar em paz por alguns instantes.Um casal estava ao meu lado debatendo em uma língua que eu tentava identificar.
Alemão. Talvez fosse alemão. Mas não tenho certeza, não falo alemão. Podia ser russo, mas definitivamente parecia alemão. Mas talvez não fosse. Inglês não era, disso eu tinha certeza.
Quatro estações depois decidi aceitar o possível alemão e fiquei rindo de mim por tentar descobrir a tal língua. Que falta me faz um livro no trajeto até em casa.
Finalmente chegamos no terminal, o casal apaixonado desceu de mãos dadas e atrás de mim, um rapaz e uma senhora comentavam:
“-Você viu que língua estranha eles estavam falando?
-Sim – ele respondeu – parecia alemão.
-Não era francês – disse ela pensativa– pode ser alemão mesmo.
-Talvez seja, porque inglês não era –conclui o rapaz.”
Passei rindo por eles, e a conversa foi sumindo conforme avançava a passos largos. Fiquei aliviada em saber que não era a única tentando adivinhar o dialeto estranho no metrô.
Percebi depois de algum tempo, que não fazia ideia do significado de nenhuma palavra que tinha escutado daqueles dois. Acho que deve ser assim que os bebês se sentem com várias pessoas balbuciando ao seu redor,tentando entender do que aquelas pessoas falam e dão risada. Só pude concluir que somos letrados para algumas coisas, mas sempre seremos analfabetos em outras.