Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso

Consideremos que o cansaço implica e muito no raciocínio e capacidade de argumentação das pessoas, bem como o “saco cheio”, contribui em larga escala para que a paciência – mantenedora da concórdia e do diálogo respeitoso – se dissipe rapidamente, levando com ela a empatia.
Por isso em uma segunda-feira ensolarada, João gritava em voz altiva na secretaria: “NÃO TEM SERIEDADE, AQUI NÃO TEM SERIEDADE. NÃO TEM EDUCAÇÃO, TRATAM TODO MUNDO MAL, FALAM UMA COISA E FAZEM OUTRA, FARISEUS, HIPÓCRITAS (insira aqui mais uma dúzia de palavras ásperas).” O motivo dos berros se dava por conta do atraso na devolução de seu relatório, mas o atraso não era de hoje. Era de sempre. João, porém, em todas vezes anteriores, foi muito paciente e educado, prezava pelo diálogo respeitoso e pela concórdia. Essa foi a primeira vez que ele chutou a barraca pelos ares. Tentando se diferenciar, se igualou aos opositores. Não sei quantas vezes alternamos os papéis entre João e José (secretário que normalmente respondia de forma grosseira). Quantas vezes lutamos e vencemos e quantas vezes tornamo-nos aquilo que tentamos destruir.
Voltemos um pouco. O cansaço ao qual me referi no início, não se restringe a sensação física, abarcando também a parte psíquica, emocional. Afinal, o mundo nos bombardeia o tempo inteiro com informações novas de diversas naturezas, além das situações velhas que voltam e nos atingem outra vez, e tudo isso acontece simultaneamente durante o decorrer do dia, de forma ininterrupta. É normal, que vez ou outra estejamos cansados das coisas, dos outros, do mundo. Isso acontece.
Porém, quando o cansaço se estende a nossa forma de ver as situações, podemos cair em sérios problemas. A partir daí – com as ideias e olhos cansados – não demora muito para que o nível do discurso se rebaixe e se nivele com aquele que tenta ‘destruir’. O problema central sobre o qual queria falar, está em tentar desconstruir uma ideia, por meio do reforçamento do estereótipo que constitui essa ideia. Talvez, justamente por isso, esse texto seja uma bela hipocrisia.
Os rótulos e estereótipos conseguem de forma simplista, reduzir algo complexo a um termo de poucas palavras de significado ímpar, por isso, não são suficientes para abarcar aquilo que tentam definir. Além do que, cada um carrega em si os rótulos construídos sócio e culturalmente. As representações sociais que criamos para facilitar a compreensão dos fenômenos coletivos, acabam por complicar ainda mais as relações quando se limitam apenas a elas. Então, taxar o secretário de grosso, não resolveria o problema, tão pouco, agir como ele seria a melhor solução. Ou seja, por vezes as pessoas tentam se livrar e desconstruir um rótulo imposto, enquanto vestem a máscara desse mesmo rótulo levemente modificada.
Retomando as linha iniciais, o saco cheio das situações implica – e muito – na capacidade de argumentar. E eu estou de saco cheio de pessoas com saco cheio. O que certamente implica na minha capacidade de argumentar sobre isso.
Quando o ambiente voltou ao nível de decibéis naturaisJoão pegou o relatório e o silencio quebrou os elos devaneosos que ricocheteavam nas palavras rudes. Até que foi possível escutar uma voz chamando “próximo” e me levantar da velha cadeira da recepção.

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