Sêneca: A brevidade da vida

Sêneca, foi um filósofo pré-socrático, que apesar de não muito comentado atualmente, teve ideias relevantes para as escolas de pensamento de sua época, sendo um dos representantes do estoicismo. Escreveu diversos livros e dentre eles, A brevidade da Vida, que será utilizado como base neste texto.
Quando Sêneca escreveu-o já estando em exílio político, imprimiu seus pensamentos no papel para que suas ideias fossem registradas. Talvez muitos se identifiquem com esses pensamentos, que mesmo datando de séculos, continua atual.
Podemos afirmar apriori, que não importa quanto tempo uma ideia tenha desde sua criação, mas sua influência, fundamento e objetivo determinam quanto tempo ela irá durar. Afinal, o conhecimento é eterno e quando bem construído pode atravessar os séculos, permanecendo terrivelmente atual.

QUEM FOI ?

Em curtas linhas pode-se dizer que Lúcio Aneu Sêneca, nasceu em Córboda, na Espanha no ano 4 a.C falecendo em Roma em 65 d.C. Durante os anos transcorridos entre sua juventude e velhice, considera-se que ele tenha passado por quatro fases distintas, sendo elas: mocidade, exílio político, professor de Nero (sim aquele que queria queimar a cidade toda) e velhice com fim trágico.
Ressaltarei sobre sua fase de exílio político, que veio por uma acusação de adultério com uma dama da corte imperial, gerando o palco em que A brevidade da vida foi escrito; uma reflexão sobre a vida moral. Também se destaca seu papel como professor de Nero, pois o assessorava como conselheiro, quando o segundo tinha apenas dezessete anos. Conta-se que naquele tempo, Sêneca e Afrânio Burro, vigilaram durante anos para que Nero controlasse sua índole perversa. Mas, não tardou muito para que Nero se desequilibrasse e Sêneca pedisse afastamento da vida pública, se recluindo a solidão e estudos de filosofia. Eis aqui o fim trágico que citou-se no início, em 65 d.C foi acusado sem nenhum tipo de julgamento ao suicídio, pois desconfiavam que ele fazia parte de uma conjuntura contra Nero, dessa forma cortou os pulsos na presença de alguns amigos e foi seguido no ato por sua esposa.¹

O ESTOICISMO

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O termo deriva da palavra grega “stoa” que significa pórtico, locais de ensinamento filosóficos. Na imagem uma Stoa em Atenas. Imagem:Vima

A escola de pensamento a qual o autor faz parte denomina-se Estoicismo, sendo sua principal característica a ênfase na paz de espírito e forte valorização das virtudes para atingir a felicidade. Dentro do Estoicismo Sêneca enquadra-se especificamente no Estoicismo Imperial Romano (stoá nova) e contribuiu para o desenvolvimento dessa escola por meio de seus estudos de ética, lógica e física.
Alguns autores defendem que com isso Sêneca almejava elaborar um método filosófico que permitisse alcançar a felicidade pessoal e a liberdade interior do eu²:

Na vida de um estoico, cada minuto tem seu preço; o tempo é precioso não porque é curto e receamos que ele falte (todo minuto representa um ganho, que consiste em ter empregado racionalmente o tempo), mas porque não devemos desperdiça-lo irrefletidamente.

Paul Veyne

A BREVIDADE DA VIDA

“Não é que temos tempo exíguo. O problema é que perdemos muito dele. (…) Não é que recebemos uma vida breve. Nós a encurtamos(…) A vida desde que saiba como usá-la, ela é longa ”
– A brevidade da vida 

Em suma Sêneca se atem para a rapidez com que a vida humana passa, atentando sempre para o fato de que o maior problema não é a falta de tempo e sim como esse tempo é utilizado. Também ressalta a importância para a prática do bem e das virtudes ao longo da vida, melhorando assim a qualidade do viver. Critica os vícios e a facilidade com que empurramos nosso tempo para outros deixando por vezes, pouco tempo para nós mesmos. Reafirma a necessidade de viver o agora, pois a fugacidade do tempo não está em nosso controle, mas temos o presente e é dele que devemos cuidar. Já ao final do livro discorre sobre a importância da sã filosofia que ensina não apenas a viver corretamente, mas proporciona também análise crítica para o entendimento do mundo.

Deixarei abaixo algumas anotações pessoais acerca da obra e de temas que a circundam:

O TEMPO:

O tempo é depositário de reclamações há mais de 2.000 anos, seja na sociedade antiga ou na famosa pós-modernidade, a reflexão constante no livro permanece atual. As relações levantadas por Sêneca parecem escritas ontem e podem ser feitas por qualquer um que se proponha a analisar a sociedade:

Tempo x Dinheiro 

“Não se encontra ninguém que queira repartir seu dinheiro, mas a vida cada um a partilha com muitos.” p.25

Perder dinheiro é completamente inaceitável, mas e perder tempo? Gastar horas a fio com conversas e atividades que em nada te edificam, fazem com que no final exista um prejuízo bem maior que uma conta bancária negativa. Estamos em uma era em que o tempo é usado como moeda de troca, sendo a única coisa que não podemos comprar de volta e ainda assim cada vez menos se importam e esbanjam das horas que possuem. Não por falta de aviso, mas contraditoriamente muitas vezes por falta de tempo para olhar para si mesmo, afinal, temos tempo para reclamar que não temos tempo, mas temos tempo para refletir? Tempo é vida. Não ter tempo significa não ter vida. Temos tempo, tempo o bastante, mas a sensação coletiva é de que nunca temos o suficiente, como podem notar, isso não é algo novo.

Tempo X Vícios

“Os vícios incitam e acorrem de todos os lados sem permitir que os olhos alcem-se para contemplar a verdade, já que os retém submersos e presos à concupiscência que nunca permite que eles se voltem para si.
Se, por ventura, advém algum instante de pausa tal como, em alto mar, onde, após os ventos reina calmaria, eles flutuam sem que jamais as paixões fraqueiem-lhes um repouso estável.” p.22

Pergunta-se então, onde todas aquelas pessoas que reclamavam do pouco tempo que tinham, encurtavam suas vidas, para que surgissem tantas reclamações. Na época em que o livro foi escrito existiam alguns padrões de comportamento que quase não se repetem em tempos atuais. Grande parcela daqueles que reclamavam gastavam seu tempo ficando bêbados e entregando-se a vícios e futilidades, coisa essa é claro, enterramos na Roma Antiga. Também existiam aqueles que se atarefavam por demais e Sêneca critica os atarefados pelo pouco tempo que lhes sobra.

Tempo X “O tempo certo”

“Ora, que garantia tens de viver tanto tempo? Quem autorizará para que tudo corra como programastes? Não te envergonhas de reservar para ti as sobras da vida e destinar ao cultivo da reflexão um tempo que não vale mais para alguma coisa?” p.26

Outro problema levantado (que será assunto de outro texto) batizei como utopia do tempo certo, pois muitos esperam um determinado momento para viver, mas quem garante que esse momento realmente chegará? Qual o tempo para ação? Do que adianta planejar uma vida inteira e não dar nenhum passo adiante sendo que amanhã mesmo pode morrer, sem nada ter feito. Sábio é quem aproveita oportunidades, pois quem cria o “tempo certo” somos nós, aqueles que ficam parados esperando talvez nunca encontrem o momento que tanto almejam.
Sêneca relembra que alguns pensam que só podem viver quando já estiverem aposentados, não se preocupam portanto com o tempo gasto para conquistar a aposentadoria, desde que chegue o tempo em que as responsabilidades serão amenas. Quando lá chegam perguntam-se onde os anos esconderam-se e lamentam.

VIDA

Sêneca faz uma divisão da vida em três etapas:
1. o que foi
2. o que está aí
3.o que será

“Dessas três a que vivemos é a mais breve. A vindoura é duvidosa. A vivida é certa, mas irrevogável.” p.45

Nesse sentido surge a necessidade de voltar-se ao presente, prestar atenção no que está aí, acontecendo agora, pois nossa vida está em constante mutação, como já dito, o tempo presente é brevíssimo, mas o universo não permite parada, estamos em movimento. Quem atola-se em atividades não consegue agarrar o presente. Viver olhando apenas para para o futuro ou passado também não permite que o homem caminhe em sua jornada. É como tentar pilotar em uma estrada andando para a frente e guiando-se pelo retrovisor. É preciso o tempo de reflexão e o tempo de ater-se ao agora.
Um dos capítulos presentes nesse livro chama-se: A filosofia sã ensina como viver de modo correto, onde fica clara a ideia de que o sábio desfruta de todos os tempos já transcorridos. Nem abandonar o passado ou ignorar o futuro, o correto é saber quando e como viver em cada um deles.

RESPOSTA?

Alguns ainda insistem em pensar que apenas a morte seria capaz de solucionar todos problemas gerados pelo tempo ou pela falta dele, ideia semelhante a do filme com Jason Segel “The discovery”. Com se morrer permitisse zerar e começar tudo novamente sem erros, ou então, que permitisse paz e sabedoria sublime, a isso coloco apenas a frase usada pelo autor:

“Agora, enquanto sentes o calor do teu sangue, que teu viver volte-se para essas realidades deslumbrantes.” p.73

VIRTUDES

Aquilo que determina o real valor de uma pessoa para Sêneca, chama-se virtude. As virtudes podem e devem ser desenvolvidas ao longo da vida, com a prática do bem ao próximo (ai reside a liberdade) e seriam também as responsáveis por conduzirem até a felicidade.  

FRASES:

Meu livro está completamente grifado. Acontece com as melhores obras (vocês precisam ver meu exemplar de O Sucesso Nunca Dorme). Por ora, deixo abaixo as frases que mais se descaram em minha leitura tirando aquelas presentes no texto:

“Ainda que os intelectuais brilhantes de todos os tempos estivessem direcionados para esse único tema, jamais poderiam expressar, adequadamente, sua admiração ante a densa penumbra da mente humana.” p.25

“O que menos faz o individuo atarefado é viver. Nenhuma ciência é mais difícil do que a do bem viver.” p.38  

“Por conseguinte, não digas que fulano viveu muito porque tem cabelos brancos e rugas.

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Busto de Sêneca 

Ele não viveu muito. Apenas durou bastante.” p.40

“Para onde olhar? Até quando pensas viver? Tudo quanto está por advir assenta-se em terreno inseguro. Cuida de viver o já e o agora!” p.43

“Eis que existem indivíduos tão enfronhados nos prazeres da luxuria que só tomam consciência de estarem ocupando uma cadeira quando alertados por outra pessoa.” p.54

“Muito breve é a vida daqueles que se esquecem do passado, descuidam do presente e temem o futuro.” p.63 

“Perdem o dia na expectativa da noite e perdem a noite com medo do dia” p.64


Sêneca tece uma bela crítica a sociedade romana, e também a nós. Estoicos ou não, usufruindo dos minutos concedidos resta a velha pergunta: Como tem gastado seu tempo?

Até o próximo texto.

REFERÊNCIAS

ESTOICISMO disponível em <https://www.todamateria.com.br/estoicismo/> acesso em 27/06/17
¹SÊNECA. A brevidade da Vida. Editora Escala.
²VEYNE, Paul. SÉNÈQUE. Editora Três Estrelas, 2015.

 

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