Retrato urbano

As ondas flutuam no céu e a brisa amansa a pele
Um mar de memórias é derramado aos pés com o vento
O canto dos pássaros ecoa ao fundo
Enquanto a água escoa memórias de nuvens furadas por um arranha-céu

O rio do lembrar jamais é o mesmo
Nuances de cinza e azul-infinito disputam o espaço
Sobre as cabeças cansadas, pincelam o dia
E no chão a tinta é espalhada por passos, que esmagam o passado
[para ganhar lugar no futuro

As placas são meros avisos do que há por vir:
Construção.
Em algum lugar o sol brilha, na linha do horizonte
E as ondas viajam entre uma antena e outra levando mensagens
“Eu te amo”
Um letreiro anuncia em letras garrafais algo ilegível aos míopes

A bandeira hasteada resiste a hipocrisia que paira no ar
E da janela alguém observa em distância segura
As confusas estações passageiras que cabem num só dia
Por lentes escuras calcula em silêncio, quantos sonhos caminham por metro quadrado

E os corpos seguem juntos, no caminho de cada dia
E os corpos vivem separados, em universos particulares
O relógio marca o tempo no pulso do vigia
Enquanto o asfalto duro apoia o sonho, de quem não tem lugar

O polvo de um dos braços, se desprende e abraça o mundo abissal
Com sua tinta escreve o futuro inteligível
E mantém as pálpebras fechadas em seu mergulho ao mar negro
Sinal Verde: O barco segue ao porto seguro enquanto outro naufraga

Olhos abertos fitam o mundo, mas não o interpretam
Bocas vociferando altivas, não escutam
E quando escutam o interior não se cala
Abrem a primeira chaga, que não fecha

Dois, três passos, o destino é algum lugar ao leste
O sol está se pondo
A sombra da árvore apoia a vida e sorri com seus galhos ao estranho
Olhos jovens, choram o coração partido e turvam a visão do por do sol

A música ecoa em ruas noturnas que não adormecem
Tornando o caos ameno enquanto o alimentam com confusão
No silêncio o descanso, e nas luzes um convite
A vida

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