Repensando a educação – O fracasso escolar (2/2)

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Rubem Alves

Continuação da primeira parte da entrevista, caso não tenha lido, clique aqui.

• O quadro educacional brasileiro que se levanta hoje, principalmente nas escolas públicas é preocupante, não apenas pela baixa qualidade de ensino ofertada, mas pelo baixo aproveitamento, existe saída para reverter esse quadro? 

O problema não é simples e muito menos a solução. O problema é complexo então a solução também. O buraco é bem mais embaixo. Na verdade, uma primeira coisa que precisa se fazer, pensando na psicologia escolar, é entender a raiz do processo que é isso que se refere ao conceito de crítica. Quando se entende a história, se historiciza, se entende o contexto, entende como isso é produzido. Nós psicólogos, por exemplo, temos um compromisso ético e político, de resgate da humanização do homem e não da coisificação do homem, e de entender todos esses elementos, para não reproduzir o que a Maria Helena Patto chama de preconceito travestido de ciência, porque muitas dessas explicações caem num senso comum e ciência e senso comum se retroalimentam, então a gente reproduz. Nós como psicólogos, por exemplo, reproduzimos muitos desses esteriótipos nas relações, na escolarização. Um compromisso que temos é de não reproduzir, não compactuar com a culpabilização dos indivíduos, por exemplo, esse é um elemento. Pra reverter isso precisaria ser feita uma análise de todas essas condições de o que produz esse fracasso para poder investir. Agora uma coisa que está na base é esse secular descaso do estado,  então precisariam ser implantadas politicas públicas voltadas para efetiva melhoria da qualidade da educação e não pra uma falsa. Não pra fazer de conta que tá se investindo, mas no nosso atual sistema, enfim na conjuntura, na sociedade capitalista, é assim.. a sociedade capitalista é contraditória como nós que somos produtos e produtores dela. Então precisamos ir na brecha, precisa ir onde tem possibilidade de ruptura. Não é só pensar “Oh meu Deus é o fim do mundo”, então tem as complexidades, por isso devemos ir na brecha, ir na potência, ir no que é possível, nas mudanças possíveis, a serviço do que? Qual a visão de homem? Qual a visão de mundo que tá na base dessa mudança? O que precisamos ter é um compromisso com a transformação social. Transformação do atual estado de coisas, transformação por uma luta efetiva, pela igualdade de direitos, pela humanização, pelos direitos sociais, direitos humanos que enfim ficam ai numa precarização. Tem que ter um compromisso que é a ética política pela transformação da educação, enfim, a transformação social. Isso tá na base.

• Então temos várias esferas que fazem parte dessa problemática e elas continuam se relacionando, interagindo entre si. E elas influenciam nos estados práticos tanto na sala de aula como na parte administrativa que coordena isso. Então, existe uma grande desvalorização dos profissionais da área de educação, eu queria saber como professora se você poderia falar de como encara tal fato? 

Tem uma autora chamada Denise Trento, ela é professora da faculdade de educação lá da USP. Ela escreve justamente sobre o argumento da incompetência docente, que é essa representação social que existe do professor, é a culpabilização do professor pelas mazelas da educação pública, como se então o mal da escolarização fosse atribuído ao professor. Então “é porque o professor é mal formado, é incompetente, todo professor é incompetente, é mal formado, por isso a educação tá do jeito que tá”. Pra isso fazemos o que? Reciclagem. Mas o que se recicla? Reciclagem é a capacitação para os incapacitados. Porque se você capacita os incapacitados logo você resolve o problema. Não vai resolver o problema. Porque não é falta de capacitação. Eu estava resgatando a ideia da culpabilização do professor porque é um discurso coerente que também alimenta o senso comum, existe uma representação social do professor, com uma imagem muito depreciativa de que os professores não valem nada, não tem um reconhecimento. Então, além de serem vistos como profissionais mal formados, são incapacitados para poder fazer, desqualificados, enfim, tudo isso é uma bola de neve. Só que é um argumento, em que ciência e senso comum se retroalimentam, de novo. Então, a gente precisa entender a raiz desse processo, que é histórica e social também. Não é de hoje, não é a toa, não é natural, não é “assim sempre foi e assim sempre será”, então precisa entender. É um argumento da incompetência docente.

• Falta de estrutura, material, preparo e incentivo são muito citados quando analisamos os problemas mais frequentes nas escolas. Em seu ver, quais os maiores déficits que encaramos hoje na educação? 

Se pegarmos aquele quadro, em que falamos sobre a complexidade de elementos que atravessam o processo de escolarização: o secular descaso do estado que está na base disso, os elementos institucionais… Se pensarmos em elementos políticos como eu estava dizendo, políticas públicas, que em cada escola trazem efeitos singulares, em que cada uma se apropria de uma forma. Tem escolas que dizem: “Aqui na minha escola tem progressão continuada, mas funciona mais ou menos, a gente faz de conta que implanta essa política, mas não passa não, vai ficar retido sim.” Ou seja, tem a especifidade em cada instituição, mas se pensarmos na dimensão política, na dimensão institucional, por exemplo, era aquilo que eu estava falando da infraestrutura das escolas. Tem escola que não tem nem uma quadra decente, para extravasar a energia das crianças, e elas ficam lá cinco horas sentadas. Como é que querem que elas fiquem concentradas como robozinho sentado ali? Não tem como, então muitas vezes a indisciplina é mais efeito do que causa do que acontece, ela se produz, ela é produzida, também num contexto desse, em que várias escolas tem essa condição de recursos materiais. Tem algumas escolas em que a sala de leitura é um faz de conta que é uma sala de leitura… um depósito de livro que ninguém vê, ninguém consulta, ou então, tem outras escolas que tem um uso bem apropriado, rodas de leitura, mas tem uma questão que é da infraestrutura e tem uma outra questão que é da dimensão pedagógica de um projeto político pedagógico elaborado coletivamente ou não é? Como isso se apropria, quais são as práticas pedagógicas que são feitas, qual é o modelo pedagógico hegemônico ali. Ele faz sentido pras pessoas ou não faz? Ele é coerente? O que está no projeto é coerente com aquilo que se faz ou não? Tem um acompanhamento ou não? Uma outra coisa da burocratização do trabalho, é que muitas vezes os profissionais da educação, de um modo geral, precisam lidar com tarefas burocráticas que também tomam um tempo, então, muitas vezes no imediatismo não tem tempo de estudo, de reflexão, então, ficam numa correria para fazer esse trabalho burocrático, e não conseguem ter tempo para parar, pensar, estudar, não tem um grupo de estudo para poder falar, por exemplo sobre o construtivismo, sei lá, imaginando que é a proposta da escola, então tudo isso impacta diretamente no processo de escolarização e consequentemente na produção ou não do fracasso escolar.

• Coloquei uma pergunta aqui porque antes de termos essas matérias na faculdade  eu nem sabia que existiam outras formas de ensino além do tradicional. Então, coloquei aqui pra gente pensar um pouquinho se essas mudanças no ensino são positivas, quando esses velhos modelos já não atendem as expectativas, as necessidades. Então além das escolas tradicionais existem outras propostas de ensino, você poderia falar um pouquinho delas…

Sim, na verdade ao longo da história – tudo precisa ser historicizado –  a gente vem tendo mudanças de concepção, mudança de visão de homem, de visão de mundo, então se no início tínhamos muito forte a questão do empirismo, que estava ali na base no modelo tradicional. Depois tivemos a influência do modelo comportamental que já trazia alguns questionamento em relação ao modelo  pedagógico tradicional, em que se tentava de certo modo estimular, fazer com que nas escolas tivessem estímulos positivos, que as crianças se sentissem bem, que tivessem uma coisa que produzisse um bom efeito na escolarização, uma relação positiva. Enfim, isso depois começou a ser questionado com outros autores como Rogers, que foi um que trouxe bastante influência, para poder pensar numa perspectiva humanista e ai tivemos Summer Hill como uma influência no modelo da visão humanista. Essa visão de Summer Hill, era justamente o contrário, do que temos numa visão tradicional, no sentido de que, não temos que ter essa coisa de decorar, esse método tão diretivo em que o professor fala e o aluno escuta, e o aluno só vai reproduzir aquilo que o professor esta falando. Lá o aluno está no centro do processo de escolarização. Eu estava falando da abordagem humanista de Carl Rogers que a centralidade é no indivíduo, no sentido de que o sujeito precisa estar no centro da aprendizagem, que é um salto muito importante, é importante pensar no aluno, a dimensão do aluno que estava sendo deixado de lado. Assim, todas as abordagens tem os seus alcances e os seus limites, então depois dela que vem essa perspectiva que tem o Piaget como referência do construtivismo, que busca então, pensar num interacionismo que não é nem a centralidade no professor e nem a centralidade no aluno, mas na interação nessa relação, entendendo como interação também essa articulação entre o que a criança traz na sua bagagem, no seu desenvolvimento, e no convívio dela na sociedade, no convívio social, enfim naquela experiência que ele tem no ambiente, no meio social em que ele vive. Essas duas coisas interferem, compõem, constituem o desenvolvimento. Então, é também um salto muito importante, o construtivismo trouxe uma contribuição muita boa para o processo educacional, então a gente sempre vai vendo o que uma perspectiva traz, reproduz de elementos, o que ela supera, o que ela avança, o que ela se mantém, temos ainda hoje muito forte a influência da abordagem tradicional, hegemônica assim que na realidade temos indícios de outras abordagens. Também tem a abordagem das inteligências múltiplas, da inteligência emocional com o Gardner, que traz elementos interessantes também para serem pensados, onde não existe somente uma forma de inteligência e sim muito mais. Eu acho que o importante nisso é entender o processo histórico. Entender que cada uma das abordagens tem os seus alcances possíveis no contexto histórico em que elas surgiram. A gente não pode querer que no berço da tradicional, já tenha um questionamento, que a gente só tem um século depois. Então precisamos entender sempre, que as coisas são produzidas num contexto histórico. Ela vai trazer seus alcances e limites desse contexto, e isso é importante de se entender.

• Como é a receptividade quando se fala em diferentes modelos aplicados as escolas, a ideia de “inovação” costuma ser bem aceita? 

Depende de onde e em que contexto você fala dessas abordagens. Acho que normalmente com profissionais da educação se eles já tem uma trajetória, já tem uma experiência, eles conseguem vislumbrar com base na experiência prática deles, o alcance e limites deles, os modelos com os quais eles trabalham, então eles percebem “É mesmo, o construtivista tem isso de bom e também tem aquilo de difícil”, então ele fala “Nossa eu já trabalhei em uma escola humanista que tem isso de bom e tem aquilo de difícil” ou então “Olha eu trabalhei em uma tradicional que tem esses alcances e aqueles limites”. Então quando você tem uma experiência profissional isso te ajuda a entender, dependendo do lugar em que contexto você fala sobre os modelos eles fazem mais sentidos ou fazem menos sentido. Você pode ter uma instituição, que segue à risca uma determinada abordagem, seja ela qual for e que está muito bem com ela e que acha que aquela é a certa e que nenhuma outra chega aos pés. Quando você segue uma linha teórica, qualquer que seja no campo da psicologia, e você considera que aquela é a certa e tudo mais que existe está errado na humanidade, fica mais difícil. Eu acho que depende muito de pra quem você fala, mas de um modo geral é plausível você entender que não existe uma perfeição uma resposta que venha dizer uma completude.

• A interdisciplinaridade parece ser uma grande aliada para que ocorra uma mudança de paradigmas dentro do quadro educacional. Como seria a inserção de outros profissionais como psicólogos dentro do âmbito escolar?

Primeiro sobre essa coisa da interdisciplinariedade, existe uma coisa muito importante… A Maria Helena Patto fala sobre isso no livro Psicologia e Ideologia, ela começa falando assim: A psicologia quando se isola em si mesma como a área do conhecimento, recai nesses reducionismos, então é fundamental pra psicologia fazer uma articulação com a sociologia, com a filosofia, com a história, fazer uma articulação com a educação, porque ela como ciência como campo do conhecimento não se esgota em si mesma. A gente precisa entender um pouco de história, de filosofia pra entender o nosso fenômeno, porque o nosso fenômeno não é só psíquico, ainda mais na interface psicologia e educação precisamos entender tudo isso pra poder olhar, se não vamos reproduzir esse reducionismo. Então, outras áreas do conhecimento dialogarem é uma coisa fundamental. A gente precisa não ter a pretensão de se esgotar em si mesma com a psicologia, por exemplo. Agora pensando na atuação do psicólogo, existe e isso é uma coisa polêmica, porque existe um projeto de lei acho que do Gadelha, de se tentar colocar, de inserir o psicólogo, mas isso a serviço do que é que era o problema. Porque ele queria colocar um psicólogo, acho que no primeiro ano do ensino fundamental, pra diagnosticar precocemente a dislexia nas crianças. Então, era um projeto de lei de cunho medicalizante. Então ai o próprio CRP, junto com várias entidades, articularam pra barrar esse projeto de lei, ai teve por vários meses toda uma discussão para poder propor uma outra coisa, a serviço do que, como é que é… e na secretaria da educação em São Paulo na gestão do Haddad, teve até dezembro do ano passado (2016) Eu trabalhei nesse projeto também, o NAAPA que é o Núcleo de Apoio de Acompanhamento a Aprendizagem, em que os psicólogos na realidade não estavam dentro da escola, eles faziam parte de uma equipe interdisciplinar que tem a ver com o que você está falando justamente, então tem o coordenador do projeto e ai tinham psicólogos, psicopedagogos, educadores, assistentes sociais, fonoaudiólogo, eles ficavam na Secretaria da Educação um grupo no NAAPA que dava assessoria as escolas, como um grupo interdisciplinar, que não estava como profissional que ficava dentro da escola como contratado da escola, então eles estavam na secretaria lidando com os problemas de escolarização. Então, com a vulnerabilidade social, problema de aprendizagem, com questões de comportamento e disciplina, enfim várias coisas atravessadas, nesse processo de escolarização sem ser um profissional dentro da escola esse projeto é muito bom porque fornece a base para uma intervenção institucional, não centrada no individuo. O psicólogo escolar dependendo da forma como entra na escola pode produzir demanda. Ele produz aquilo que ele quer romper, muitas vezes dependendo da inserção do modo como é, tem que ver a serviço do que, para que, e então tem que se pensar isso. Essa inserção do psicólogo pode se dar por exemplo, na rede como estava acontecendo lá numa equipe interdisciplinar e o projeto que era feito lá era muito bom justamente de questionamento da mobilização do indivíduo. Eles viam a complexidade do processo de escolarização. É um projeto muito bom o NAAPA, ele continua agora e agora com a mudança de gestão teve um pouco de mudança de alguns profissionais da coordenação, até o ano que eu acompanho. Porque eu dava assessoria a essa equipe, tinha uma equipe grande que dava assessoria e eu fazia parte dessa equipe, então foi um projeto muito bonito, muito bem fundamentado teoricamente. O processo de formação desses profissionais foi muito bom, então é possível ter um tipo de intervenção de inserção bem pensada, fundamentada, em coerência com esse movimento crítico no campo da psicologia escolar.

Agradecimentos:
Agradeço imensamente a Profa.Ana Karina, pela ajuda nesse projeto e principalmente por ter aceito o convite de abri-lo com chave de ouro.
Externo também meus agradecimentos a Sandra, melhor pessoa intergaláctica pela ajuda na transcrição desta entrevista.

Para saber mais:
Citados no texto
Autores:
Maria Helena Souza Patto
Maria Aparecida Moysés
João dos Reis da Silva Junior
Carl Rogers
Jean Piaget
Howard Gardner

Livros:
Psicologia e Ideologia uma Introdução Critica a Psicologia Escolar – Maria Helena Souza Patto

Extra, extra, extra:
Palestra TED> Experiências inovadoras na educação: José Pacheco Experiências inovadoras na educação: José Pacheco
Livro> A escola que sempre sonhei e nunca pensei que pudesse existir – Rubem Alves
Livro> Pinóquio às avessas – Rubem Alves

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