Repensando a educação – O fracasso escolar (1/2)

É no problema da educação que assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade.

Immanuel Kant

A problemática da educação se reflete nos crescentes dados alarmantes divulgados em nosso país: A medicalização, o analfabetismo e a evasão escolar, são parte do caótico cenário de um dos pilares que deveriam ser mais sólidos em nossa sociedade. Pensar na educação por meio da ótica da psicologia escolar, leva a uma reflexão que pode e deve incutir sobre a atualidade a partir de diferentes pontos referenciais, sem perder a ideia da educação em sua essência e os processos aos quais a envolvem em meio a toda complexidade em que pode ser compreendida.

Entrevista cedida e autorizada pela Profa.Dra. em Psicologia Escolar Ana Karina Checchia, também conhecida como melhor pessoa.

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Repensando a educação

• Que contribuições a psicologia pode trazer para compreensão do fracasso escolar?

Eu vou responder sempre, as tuas perguntas, partindo de um lugar teórico, que é de uma perspectiva crítica no campo da psicologia escolar, porque toda minha formação teórica, minha trajetória acadêmica, trajetória profissional, tem isso como base. Nessa interface psicologia e educação, pensando na psicologia escolar, existe todo um movimento crítico nos últimos 30 anos, que nos ajuda a entender isso. Porque o fracasso escolar, nesta perspectiva, que tem como uma das principais autoras de referência a Maria Helena Souza Patto, o conceito de fracasso escolar, começa a ser esmiuçado, estudado no campo da psicologia escolar pela Maria Helena, justamente como uma coisa que não é natural, então fracasso escolar não é o fracasso do indivíduo. Não é o aluno que não aprende, porque ele fracassa. Essa é a primeira contribuição que a psicologia pode trazer, entendendo esse conceito e esmiuçando esse conceito, explicitando o que é o fracasso escolar e a produção do fracasso escolar. Entendendo então, com base nessa perspectiva crítica, que tem o materialismo histórico e Marx, como um autor importante de referência, vemos como o homem é produto e produtor da sociedade e os fenômenos que nós estudamos não são naturais ou naturalizados, ou seja, não se pensa que assim sempre foi e assim sempre será. Então, o fracasso escolar não é algo porque sempre foi e porque sempre será. Ele é constituído social e historicamente. Isso significa entender por exemplo, que hoje temos – infelizmente – alunos que estão na oitava série, ou nono ano, que não estão alfabetizados. Então temos um quadro educacional muito complexo e muito defasado, e quando olhamos a situação da educação no Brasil, vemos que está realmente bem complicada. E isso é um dos elementos do fracasso escolar: entendermos que o quadro educacional está comprometido. Na dissertação de mestrado, fiz um grupo com adolescentes que estavam na oitava série e eles me falaram de vários colegas que estudavam numa escola estadual de São Paulo, numa comunidade e que não estavam alfabetizados. Então, como a psicologia pode ajudar a entender isso, a não alfabetização na oitava série, que é um dos elementos do fracasso escolar, por exemplo? Tradicionalmente a própria psicologia, nesse encontro com a educação ao longo dos anos, vem trazendo algumas explicações, para o fracasso escolar, em que se culpabiliza o aluno. Diz-se que o aluno não aprende porque o aluno é “carente cultural”, a teoria da carência cultural diz que o aluno não aprende porque o aluno teria um ambiente carente cultural, “não aprende porque é pobre”. Tem a teoria ambientalista, que diz que não aprende porque o ambiente familiar é desfavorável, a família seria “desestruturada”; Tem a teoria organicista que diz que o aluno não aprende – e aqui é o berço da medicalização da educação – porque ele tem algum problema, algum distúrbio de aprendizagem, alguma patologia, algo no corpo, no organismo. Em todas essas tradicionais explicações, existe um elemento em comum, que é a culpabilização do indivíduo. Seja o aluno, seja a família, seja algo que está no cérebro dele, seja por viver em um contexto pobre. Em todos eles, se tem a culpabilização do indivíduo. Então nessa perspectiva crítica, como a gente entende que o fracasso escolar é produzido social e historicamente, o que vamos concluir? Que não. Que não devemos reproduzir esse reducionismo e que existem elementos, sociais, históricos, políticos, ideológicos, institucionais, pedagógicos e relacionais, implicados na produção do fracasso escolar. Enfim, só entendemos isso com a contribuição da psicologia escolar, nesse movimento crítico. Diante desse aluno que não está alfabetizado na oitava série, por exemplo, ao invés de pensar “O João não está alfabetizado porque ele tem dislexia”, “Não está alfabetizado porque ele tem um QI baixo” ou “Não está alfabetizado porque ele é pobre”, entende-se que existem políticas públicas, inclusive, tem vários elementos como esses que eu estava te falando: sociais, institucionais, etc… Se pegar como exemplo um aspecto político, é uma coisa que a Maria Helena Patto nos ensina a entender, que tem como base o secular descaso do estado em investir no ensino público de qualidade. Isso é uma coisa que produz o fracasso escolar. A gente precisa entender que tem uma complexidade de fatores envolvidos no processo de escolarização. Então a gente precisa conhecer o João, mas saber que o João está numa escola, que não é em qualquer escola, que não é qualquer cidade, que não é qualquer sociedade. Que é numa sociedade capitalista, que tem como base a exploração, a desigualdade social, a divisão de classes e que para que se mantenha o estado de coisas, o status quo, vários elementos precisam andar juntos. Um deles é o secular descaso do estado em investir num ensino público de qualidade. Outro deles é a dualidade de ensino. Temos o ensino voltado para os ricos e o ensino voltado para os pobres, então tudo isso está envolvido. Existe a política da progressão continuada, em que as pessoas vão sendo aprovadas independentemente da real transmissão e assimilação do conteúdo. Política da progressão continuada, tem muito a ver com o fato dele não estar alfabetizado na oitava série, mais do que dizer que o menino tem “problema na cabeça”. Então a gente precisa entender, o número de alunos na sala de aula, remuneração do professor, condição de trabalho, burocratização do trabalho, hierarquização do trabalho, enfim existe um panorama geral e a psicologia escolar nessa perspectiva crítica, nos ajuda a entender isso. O buraco é muito mais embaixo.

• Dentro disso, os processos de medicalização da educação também mostram dados preocupantes

Nesse movimento crítico, também temos uma vertente de criticar a medicalização da educação. Existe a Maria Aparecida Moysés, que é uma grande referência para isso. Ela é médica pediatra, professora titular da pediatria da Unicamp em Campinas, e ela escreve muito sobre a medicalização da educação, no interior na própria medicina. Isso é importante, porque a psicologia para fazer a crítica da psicologia, precisa falar de dentro da psicologia. Quem sou eu, psicóloga, pra falar de medicina? E então quem é o outro profissional, pra fazer a crítica da psicologia? Crítica significa ir a raiz do fenômeno investigado, não significa julgamento de valores. Então para ir à raiz do fenômeno você precisa saber de onde você está falando. Então ela vem de dentro da medicina, falar justamente desse processo de medicalização. Precisamos entender o conceito de medicalização, que é diferente de medicação, que é diferente de medicamento, que é diferente de medicar; são palavras diferentes, então o que eu acho importante frisar agora, é o conceito de medicalização. Por que ele diz respeito a um reducionismo. O que é medicalização? É quando a gente torna uma coisa, que é muito mais complexa, como por exemplo, o fracasso escolar, ou outro fenômeno social e historicamente construído, e reduz a algo do âmbito do indivíduo a algo biológico, de ordem médica. Então eu posso pegar por exemplo aquele mesmo caso de um aluno que na oitava série não está alfabetizado e dizer que ele não aprende porque ele tem TDAH, que ele não aprende porque ele tem dislexia. Então nesse processo de medicalização é a complexidade da vida humana que deixa de ser olhada, e ai se reduz o fenômeno para uma coisa pequena, na ordem do organismo, na ordem do indivíduo, em âmbito médico. Então, para um problema médico, todo o tratamento toda a concepção é atravessada pela ordem médica. Você pode ter a medicalização, sem o medicamento. Com a dislexia por exemplo, você está reduzindo no âmbito do organismo, mas você não dá remédio, e isso é medicalização. Então medicamento é remédio. Medicar é o ato de você prescrever um medicamento, por exemplo: “Sou médico e estou medicando para dor e febre, tome tylenol” Então você tá com dor de cabeça e não pode tomar remédio? Isso não é medicalização, você está medicando. Então são coisas diferentes. A nossa crítica é a medicalização no sentido de reduzir coisas de uma ordem muito mais complexa a algo que é do âmbito do indivíduo. A Maria Aparecida Moysés, nos ajuda a entender isso e vários outros autores dos últimos anos fundamentalmente. Tem um livro muito bom, que é organizado pelo Conselho Regional de Psicologia, que se chama “Medicalização da Educação da vida” tem vários autores; A Marilene Proença Rebello Ribeiro de Souza é professora do instituto de psicologia da USP atual diretora da do curso de psicologia lá na USP, também é uma excelente referência nessa área. Enfim o grupo de orientação a queixa escolar, um grupo interinstitucional de atendimento a queixa escolar é um grupo que tá forte também, nesse livro é muito bom. Temos vários parceiros aliados nesse processo, e o Conselho Regional de Psicologia endossa esse movimento. Então, na verdade, a gente precisa entender que a concepção de infância na nossa vida precisa ser questionada hoje. Quer dizer… nós amordaçamos quimicamente a criança por não conceber que ela pode ter uma agitação, que ela pode ter uma energia, que eu nomeio como TDAH. Então, timidez vira apatia, e a gente fala: “Nossa! Fulano é apático”, ou seja “Ele está com uma hiperatividade” e isso vira uma patologia, isso vira um transtorno. Então, que concepção é essa? Precisamos entender a indústria farmacêutica nesse processo, isso é um tema pra uma aula gigantesca, mas é possível entender que questionamento é esse. Estamos falando, que é um questionamento do reducionismo. De uma coisa muito mais ampla, a algo da ordem do indivíduo.

• Culpabilizar apenas um lado em qualquer situação faz com que o problema seja parcialmente observado. Quando se trata de educação vemos que envolve muito mais situações do que o já conhecido problema professor-aluno. 

Exatamente. Isso é uma coisa muito importante, e eu achei muito lindo quando você usou o termo culpabilização. Porque culpabilização é um termo que vem sendo discutido, e problematizado no campo da psicologia escolar nesse movimento crítico. Quando reduzimos uma coisa totalmente complexa a algo pontual, individual… a gente culpabiliza. Porque culpabilizar é justamente isso, atribuir uma culpa a um indivíduo. Então, é importante nessa tua pergunta, atentar ao fato que você pode culpar o aluno ou você pode culpabilizar os pais, ou você pode culpabilizar o professor. Dá no mesmo. Então, muitas vezes as pessoas dizem: “Não… mas não é culpa do aluno, também não é culpa do pai, mas é culpa do professor que não quer nada com nada, não se esforça, não se dedica”. Quando eu falo a culpa é do professor é outra culpabilização. Porque o professor é um porta voz de uma coisa muito maior, para entender o professor precisa entender que ele tá numa dinâmica, submetido a algumas condições de trabalho, precariedade da condição de trabalho dele. Então muitas vezes ele tem jornada dupla, tripla de trabalho. Ele tem uma remuneração baixíssima, sem material, sem recurso, com imposição de que então, de uma semana pra outra fica proibido usar a “Cartilha Caminho Suave” e tem que usar o construtivismo para alfabetizar, mas cadê o recurso? Cadê a base? De onde? Pra que? Se ele não atua ativamente na construção, elaboração e proposição do projeto político pedagógico, isso é imposto pra ele de cima pra baixo e aí com que ferramentas ele vai poder implantar isso que tá sendo exigido dele? Então infelizmente, é um mecanismo nosso em nossa sociedade de fazer esse movimento reducionista de culpabilizar. Responsáveis somos todos em certa medida, mas culpados não. Porque quando você culpa um indivíduo, você culpabiliza, você deixa de olhar pras condições objetivas concretas, aquela complexidade toda que eu te falei, você abstrai. Quando você abstrai você perde a materialidade, por isso que a gente parte do materialismo das condições objetivas concretas que produzem aquele fenômeno social historicamente. Então se, você abstrai, você coloca um indivíduo ali e deixa de enxergar tudo aquilo que ta em volta.

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