Reconstituição

Completava-se o primeiro centenário desde que a guerra devastara a cidade de Kyota. Nilo olhava o céu ainda cinzento em um luto que ficara guardado na mente de todos.

Desse mesmo local ele havia presenciado a chegada das naves anos antes. O caos se alastrara na mesma velocidade com que as naves pintavam o céu: mais rápido do que deveria ser. Estupefato não conseguia se dar conta de que era mesmo realidade, todas aquelas carcaças de metal invadindo o planeta, como nas histórias em que seu pai lhe contava. As interações entre diversos seres extra-solares parecia mentira mesmo quando acontecia na realidade. Da primeira vez pareceu ainda mais incrédulo pois o ataque destruiu metade das cidades que deveria ajudar. Nilo era criança na época. Hoje de jovem só tinha a mente.
– Senhor – dizia a voz vinda da porta – precisamos ir.

Ele ajeitou a gravata, endireitou a postura e saiu do quarto interrompendo as lembranças. Do lado de fora seus agentes o esperavam para a conferência em memória dos combatentes. No carro ainda observava pela mente com pesar a cidade sendo reconstruída. Os estragos causados pela guerra deixaram marcas irreparáveis, principalmente em sua memória. Reviveu todas as falhas e conquistas que o trouxeram até ali. Até o microfone que iria ampliar suas palavras para milhares de ouvidos.

Ele representava a defesa do planeta, era o responsável pelo acordo que protegeria a Terra de qualquer ameaça. E para agregar mais um titulo era agora, membro oficial do conselho intergaláctico.

Subiu no palanque e de frente para aquele mar de pessoas, respirou fundo, as pleuras forçavam-se dentro da caixa torácica, os pulmões iam lentamente expandindo e retraindo-se.

– Caros amigos, não é com muita felicidade que faço o discurso hoje. Mas com gratidão e respeito a todos que por esse planeta deram a própria vida para mante-lo em segurança. Muitos sob meu comando, e isso algo que apesar do orgulho, sempre me causa uma pontada de tristeza. Nem sempre foi fácil a vida e a convivência com seres intergalácticos, e os conflitos de interesse existem até mesmo dentro de nossos povos, mas é importante que acima das diferenças estejamos todos unidos. Hoje completa-se o primeiro centenário desde que a guerra foi finalizada, cem anos de paz, em que somente o que nos assombra é a lembrança de nossas próprias falhas. E o que importa é que não as repitamos nunca mais. O dia de hoje é marcado pela lembrança, daqueles que tornaram esse momento possível. Aos heróis caídos, aos que lutaram por um futuro melhor. Aos que contribuem para que esse futuro melhor continue existindo. Orgulho-me da nação que formamos apesar dos contratempos, estamos na melhor possibilidade de existência. Gostaria que dedicassem parte de seus dias em prol dessas pessoas, em pensamentos ou ações, que retornassem ao que foram e fizeram. Sobretudo que pensassem com a atenção no papel que possuem em meio a tudo isso. Desejo a todos uma ótima semana, que a paz continue sendo nossa motivação para continuar.

Os aplausos demonstravam o alto nível de aprovação do discurso. Em parte pelas próprias palavras ditas com emoção e ênfase no ritmo certo, em parte por conta do próprio orador, um centenário que apesar da idade avançada mantinha a saúde e a memória intactas. Sendo parte viva e ativa da maior construção histórica até então.  

Nilo desceu do palanque e pelos fundos fez questão de retirar-se diretamente para casa. Havia muito mais eventos naquele dia do que horas no relógio, as cidades estavam em festa, com motivo nobre de comemoração. Mas a realidade é que seu organismo pedia pausa.

A casa estava vazia, pois todos tinham afazeres, Nilo também tinha muito o que fazer ali. Pretendia enterrar-se em memórias a tarde toda. Assim como recomendou que fizessem.

Sentou na sala que permitia a visão da cidade, enquanto aquele emaranhado de construções focalizava em sua vista a memória trabalhava de modo a parte.

Na primeira vez em que tentou um acordo, a justiça era a única coisa que existia em sua mente. Durante todas as campanhas que lançou esse era o objetivo primordial, fazer o que é certo. Posteriormente, acabou descobrindo que nem sempre certo é um conceito universal. Percebeu que a justiça não era feita, mas imposta. Cometeu muitos erros, até aprender a agir como deveria ser. Mas finalmente se enquadrou. Quando o fez alcançou grande êxito. Mas, sentado hoje naquela poltrona, não sabia mais quem era.  A vida é muito curta para não cometer erros, e longa demais para agradecer ou lamentar todos eles.
Longa, pensou, longa o suficiente para refletir.

Deixe seu comentário :)