Racionalidade

O que seria do homem sem o pensamento? A definição de homem geralmente vem acompanhada do termo “ser racional” e é essa característica que o difere de todos os outros seres vivos existentes no planeta¹. A capacidade de pensar, criar argumentos e reflexões para se basear nelas e então viver da melhor maneira possível.
A busca por conhecimento e aprimoramento de conceitos que já carregamos faz parte da atividade de “ser pensante”, e é ela que nos move em muitos momentos da vida.
A racionalidade em si é algo incrível, ao mesmo tempo em que pode servir de acelerador também é capaz de nos frear. Eu me pergunto muitas vezes até que ponto ela é realmente nossa aliada.
Entendo que essa é uma questão subjetiva e que outros diversos argumentos entram nessa discussão, mas de fato, dentro da visão que tenho hoje, a frase em itálico define o que penso sobre a racionalidade.
Exemplificando a ideia, podemos pegar uma situação em que você pensa tanto nas consequências dos seus atos, quanto nos acontecimentos posteriores a ele, e acaba por não executar a ação, por acreditar que ela não seja satisfatória ou que não corresponda plenamente com aquilo que você procura. Não existe mal algum nisso. Existe mal quando esse quadro passa a repetir diversas vezes em um ciclo infinito. Pensar demais pode atrapalhar, bem como pensar de menos pode atrapalhar mais ainda.
Somos reflexos de nossos próprios pensamentos e ideias e sempre é tempo de revisar conceitos para conviver em harmonia com os mesmos e com o meio em que estamos inseridos. Também é importante dizer que ser racional não significa estar certo, mas sim ponderar e tentar ser sensato diante de diversas situações. Fato é que muitas vezes tomam a racionalidade como sinônimo de verdade inabalável e esse é um problema bem grande.
Outro problema é até que ponto a razão basta por si só. Mas esse é assunto para outro devaneio.

¹Nota: Existem diversas pesquisas que dizem que o homem não é o único ser racional (leia aqui), mas o argumento apresentado continua sendo utilizado em muitos debates por isso foi ilustrado aqui.
Uma frase interessante sobre esse assunto vem de Blaise Pascal “O Homem não é o único animal que pensa. Entretanto é o único que pensa que não é animal.”

 

4 thoughts on “Racionalidade

  1. Olá, Gabriella.

    Muito boa sua reflexão, ou seu devaneio, se assim preferir. Penso que, amiúde, superestimamos a racionalidade. Tenho impressão que essa é a principal herança que Platão nos deixou ao descolar a alma do corpo, a razão dos afetos e criar toda a sua neurose metafísica – entretanto, não intenciono adentrar nisso aqui, porque senão me delongarei muito mais do que sempre acabo me delongando.
    Acho que sua frase em itálico é brilhante, tal como a citação de Pascal. Tenho uma inclinação pessoal a concordar com pensadores como Maquiavel, Spinoza e Nietzsche no que diz respeito à racionalidade.
    Basicamente, Maquiavel e Nietzsche nos dizem que a divisão platônica é uma balela e a rejeitam, de modo que nos concebem como unidade. Spinoza, por sua vez, nos diz que nossa racionalidade é uma ilusão que nos leva a pensar que somos livres, quando na realidade somos tão instintivos quanto os outros animais, pois embora não sejamos tão previsíveis quanto eles ao deliberar, também o fazemos instintivamente, motivados por fatores psicológicos, sociológicos e biológicos – em outras palavras, nossas decisões são tomadas em âmbito inconsciente antes que tenhamos consciência delas (prisma este corroborado por Nietzsche e, posteriormente, Freud: “O homem não é senhor na sua própria casa”) -, o que, trocando em miúdos, quer dizer que nossa racionalidade não é tão racional assim.
    Boa parte de nós superestima a racionalidade porque acha que através dela poderemos alcançar as respostas “verdadeiras” – eis a verdade, uma de nossas grandes obsessões – de todas as perguntas, o que me parece algo bastante ingênuo, mas bastante natural, uma vez que somos animais sedentos por certezas, ainda que, no fundo – ao menos aqueles espíritos com algum resquício de nobreza e sofisticação (isso em meu ponto de vista) -, sempre duvidemos delas.
    Sem dúvida alguma, a racionalidade colaborou para que o mundo melhorasse, ao menos tecnicamente falando, assim como ainda colaborará muito. O grande problema do homem é que seu principal adversário é sua humanidade, que é o obstáculo que o limita a alcançar o que Kant chama de razão pura – o próprio Kant nos mostra com sua razão prática (a razão afetada) que, em se tratando de humanidade, a razão não pode desconsiderar os afetos, o que é um grande problema, pois isso nos impede de alcançar uma das maiores obsessões humanas: a justiça.
    Desde Platão, o homem tenta se descolar do mundo e dos afetos, em busca de um além-mundo perfeito e justo. Trocando em miúdos, o homem nega a si mesmo e a sua condição de animal angustiado, da qual só é consciente graças à sua racionalidade, que, por si só, não é boa nem má, é apenas o que é. Parafraseando Luiz Felipe Pondé: “sabemos mais do que devemos e menos do que precisamos”. Eis ela de novo: a contradição – sempre ela -, pois talvez a racionalidade seja nossa grande dádiva e, ao mesmo tempo, nosso grande fardo, ou nossa cruz, utilizando-me de um termo cristão.

    Sempre acabo me delongando. Não tem jeito (rsrs). Fique bem.

    Abraço.

    1. Olá Juliano!
      Fico feliz em saber que você gostou. Obrigada por complementar o pensamento trazendo tantas visões, sempre é de grande valia conhecer um assunto por diversos pontos/argumentos distintos. Em passos tortos estou avançando nos estudos com a filosofia e comentários como o seu me incentivam nessa caminhada.
      Acho que você descreveu bem quando disse que “Talvez a racionalidade seja nossa grande dádiva e, ao mesmo tempo, nosso grande fardo, ou nossa cruz” Isso me lembrou aquela velha discussão dos que defendem como bênção a racionalidade ou a ignorância. É uma discussão intrigante e como particularmente tendo a ver o copo meio cheio, assim como você apontou também acredito que a racionalidade ainda nos proporcionará muitas coisas boas apesar dos pesares e além da angústia.
      Sempre é uma alegria te encontrar por aqui, e fique sempre à vontade para se delongar o quanto quiser.
      Abraços, tenha uma boa semana (ou melhor um bom ‘resto’ de semana haha)

  2. Sempre pensei na racionalidade como uma dádiva, até começar a fazer uso frequente dela. A partir daí comecei a sentir o peso do “pensar”. E assim como você disse em seu texto, Gabriella, concordo que a racionalidade possa nos frear. Confirmo isso de forma empírica, o que não costuma ser muito racional (temos aí a nossa já citada contradição haha). Para mim, a racionalidade é como uma linda rosa, porém, cheia de espinhos! E mesmo assim, não consigo manter proximidade com quem não a cultiva. Será que existe alguma razão lógica para isso? Ou isso se dá puramente por motivos emocionais? Fica aí a pergunta. Haha

    1. Olá Willian!

      É sempre uma alegria te encontrar por aqui. Concordo com o que disse: “a racionalidade é como uma linda rosa, porém, cheia de espinhos” Como diria a música “every rose has its thorn”. Acredito que exista razão no seu questionamento e o entendo muito bem, mas sempre é bom deixarmos a dúvida no ar não é mesmo? hahaha

      Abraços

Deixe seu comentário :)