Prelúdio

Ventava muito e as nuvens escureciam o céu, os pássaros atordoados buscavam abrigo. As folhas das árvores queriam desprender-se dos galhos, janelas se fechavam e ao longe um feixe de luz iluminou o céu anunciando o inicio da tempestade, mas Kira andava lentamente em direção a praia. Seus pés firmes em atrito com o asfalto faziam com que nenhum transeunte a parasse no caminho. Tudo estava da maneira que deveria estar.
Quando seus passos finalmente a levaram até a areia seu corpo vacilou, conforme andava o rastro vermelho de suas pegadas a seguia. Finalmente permitiu-se cair ao chão. Voltou o olhar a sua costela, pensando que, por uma questão de centímetros não teria sido atingida, agora continuava sentido a dor da lâmina que atravessara seu corpo. Cada suspiro reavivava a sensação do corte. Mas nada ocorre por acaso, a dor era seu passe para a nova vida.
Seus olhos cinzentos perdiam a expressão em cada segundo, logo ela que buscava a justiça havia sido morta pela mesma. No fundo sabia que não havia mais lugar para ela em nenhum dos dois mundos, a morte era seu único fim plausível, a única maneira de acertar as contas com o universo. Já havia feito tudo que podia e causado mais contendas do que o necessário em séculos, aguardava o fim longe do caos, ouvindo o barulho das ondas e esperando que alguma delas levasse seu corpo para perto da lua.

Nessa noite não havia lua e as gotas que caiam do céu envolviam seu corpo, mesclando-se ao sangue que carregava nas mãos. Tudo tornava-se turvo ao mesmo tempo que teimosamente seus olhos tentavam prolongar seus últimos momentos na Terra, agarrando-se em qualquer ponto firme que bailasse frente a sua vista. Pensava no povo de Regnor e no sofrimento ao qual estavam fadados, uma lágrima caia de seu rosto. Haron nunca a perdoaria, ele nunca entendeu seus motivos, nem lhe deu espaço para tal. De qualquer maneira era tarde demais. Sussurrou uma prece ao vento pedindo perdão pelo sangue derramado em seu nome e por não ter mais forças para lutar.
Ao longe uma silhueta corria ao seu encontro, era uma sombra disforme que aos poucos ganhava traços conhecidos. Demorou algum tempo para finalmente entender o que estava acontecendo, quando por fim o fez toda a dor se dissipou. A pequena criança que curiosa encarava o corpo quase sem vida soprou-lhe o rosto sorrindo serenamente, o olhar celeste parecia encara-la face a face. A criança sentou-se ao seu lado e lhe puxou a mão. Ficaram ali observando o mar agitado com a tempestade, enquanto do outro lado a guerra prosseguia. Não pense na guerra – dizia a criança para Kira – você não pode mais lutar. Kira fechou os olhos. A única guerra que você perdeu foi contra si própria, eles cuidarão do resto – prosseguia a criança – é hora de baixar as armas e deixar que outros lutem por você.
Não havia mais energia alguma para travar um debate com a angelical figura que se estendia ao seu lado, mesmo se houvesse não seria preciso.
O último suspiro não lhe causou dor, pelo contrário, trouxe a paz que Kira buscou durante toda a sua vida. O corpo caído ao chão da praia não estaria lá ao amanhecer, mas sua prece ressoava ao vento com o único pedido para que a paz voltasse ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
Imagem em destaque: Créditos na figura

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