Estranhos

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.
Carlos Drummond de Andrade

Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções.
Francis Bacon

A capacidade de adaptação presente nos seres vivos permite que possamos sair de um local conhecido e desafiar nossos alcances e limites em ambientes ainda inexplorados, até que nos adaptemos a ele e se necessário podemos recomeçar o ciclo. Incrível é perceber como podemos ser estranhos em um ambiente que ainda não conhecemos bem.

A percepção do novo, de pessoas e experiências novas me fascina e assusta ao mesmo tempo. Sou adepta da visão de que podemos e devemos, sempre que possível, nos desafiar em situações que exigem mais da nossa capacidade e que certamente servirão para nosso aprimoramento, mesmo que passemos a condição temporária de estranhos. Acontece que muitas vezes me arrependo quando já não posso voltar atrás, algo semelhante a analogia de que é como pular de um penhasco, uma vez feito não podemos voltar. Isso ajuda a quebrar um pouco do comodismo que costumamos internalizar e desfazer o medo do desconhecido.

Voltando ao estranho, somos estranhos quando nos sentimos como tal e isso é algo verdadeiro. Se você não se sente parte de um grupo, comunidade ou qualquer outra situação se sentirá mal e desconfortável, contará os minutos para sair desse local e ir onde se sente bem, ou lembrará de todos lugares semelhantes a esse que você já frequentou e sente falta. Em meio a toda a estranheza você também pode passar a reparar que as pessoas te olham como algo novo, com ar de curiosidade, algumas guardarão teu nome e outras esquecerão quando cruzarem a primeira porta, algumas com rostos amigos, outras antipáticas, mas a falta de conhecimento nos impede de criar julgamentos concretos então nadamos nas infinitas possibilidades do raso, do superficial.

Ser estranho nos mostra quão complexa são as redes de conhecimentos que podemos construir, mas também nos mostra a fragilidade que permeia a nossa volta. Tudo pode ser transformado, adaptado. Tudo é e ao mesmo tempo nada é. Isso da um nó na minha mente.

Porém, a estranheza não é de todo ruim. Ser estranho nos permite ser quem somos, com todas particularidades e individualidades que esse termo possa abrigar. Digo ainda que ser estranho pode tornar as coisas mais belas, pois esse véu de estranheza permite que aos poucos se descubra como as coisas são. Exercício penoso e interessante de ser feito.

De qualquer forma, sempre existirá um lugar em que seremos conhecidos, por outro lado, sempre existirá um lugar em que seremos desconhecidos/estranhos. Somos estranhos conhecidos. Como dizia Jim… People are strange.

 

1 thought on “Estranhos

  1. E há os amigos longínquos estranhos mas menos estranhos, atentos e à disposição quando precisar. Bom retorno e sucesso no novo espaço, seja o real ou o virtual! 🙂

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