Pensar a resiliência

Perco a conta de quantos são os momentos em que outras pessoas contribuem para as visões e conceitos que eu nutria em meu âmago. Por vezes o contato com o outro alimenta essas ideias, por vezes as destrói completamente. Mas na maioria dos casos esse contato possibilita a compreensão de um mesmo objeto sobre prismas dos quais jamais lançaria olhar sozinha. São esses os estalos mentais que surgem dizendo que existem facetas das quais nos esquecemos, por ignorância ou desdém.

É importante saber valorizar essas pessoas que cruzam nossos caminhos, concordantes ou discordantes de nossas ideias, elas nos apontam horizontes aos quais talvez nossos olhos, por falta de experiência ou qualquer outro fator, nos escapam. Por isso sou grata a todos que contribuem e contribuirão na minha formação como pessoa. Toda essa dialética cotidiana permite que os pensamentos continuem se atualizando e não caiam em estagnação, eis uma das belezas em se encarar tais fatos com visão aberta. Enxerga-se então a abrangência de termos, ideias e a problemática disso tudo. Ainda luto em lembrar-me que nem todos pensam como eu penso, que cada ser possui sua própria trajetória e maneira de encarar a vida. Essa é uma coisa da qual só tomei real ciência tempos atrás, felizmente não muito tarde. Em tempo de reaver tais conceitos dentro de mim e debate-los em primeira instância introspectivamente para depois leva-los a outras esferas, incluindo a presença de outros.
Todo esse texto começou por conta da resiliência, que entra na historia anos antes do pensamento que permeia as linhas acima como é fundamentado hoje.
Em um curso que realizava o professor perguntou qual palavra gostaríamos de usar para descrever quem somos, entregando um papel para cada pessoa e dando alguns minutos para que completássemos a tarefa. De antemão já lhes digo que sou péssima em autobiografias (vide a descrição que se encontra nessa página da internet), essa questão do “quem sou eu” é bem mais complexa do que pensamos. Até porque eu sou a primeira a rebater qualquer resposta apontada para essa questão.
Quando fiquei encarando o papel em branco depois de descartar algumas piadas péssimas e trocadilhos desnecessários, pensei numa palavra: Resiliência.
Sempre tive pra mim que se havia um conceito capaz de abarcar a ideia de humanidade, esse conceito era o da resiliência. Eu me considerava dentro desse âmbito levando em conta o tanto de trancos que a vida já havia me dado, podia dizer que resiliência era uma boa palavra para definir a capacidade humana em aderir e adequar-se as situações propostas ao longo de suas vidas, utilizei-a com licença da sala para as duas propostas apresentadas. Tanto no macro como no micro, a resiliência parecia acompanhar a humanidade historicamente e consequentemente cada indivíduo. Incluindo a mim.
Ontem, participando da apresentação de alguns trabalhos na faculdade eis que um garoto solta uma frase que me fez pensar um bocado:A resiliência consiste nessa capacidade elástica de voltar a forma original. Isso é o que pregamos, mas já perguntaram-se se realmente volta? Quanto podemos esgarçar e voltar a forma original sem deturpar aquilo que era? Chega um momento em que desgasta-se.”
Devo resgatar nesse momento que resiliência é um termo que utilizamos emprestado da física, consistente na capacidade de um objeto em voltar a forma original depois de passar por uma deformação elástica, ou seja, estica-se, estica-se, esticaaaa-seee e volta a forma que possuía antes. Em outras leituras, transporta-se o conceito a vida cotidiana e também de modo mais amplo a vida em sentido histórico.
A ideia apresentada nesse trabalho era de que a resiliência como empregamos é um conceito deficiente. Sendo insatisfatória sua aplicação em dadas situações. Coisa bem defendida em embasada ao longo de toda defesa do tema, eis o motivo portanto, da escrita desse texto.
A visão apresentada da resiliência, como uma desconstrução da mesma, me fez encara-la de modo como não havia feito antes, assim como fui obrigada a fazer com os sofistas e com o positivismo. Leituras complementares que não necessariamente excluem a anterior, mas a agregam. Extremamente ricas e provocadas pelo debate, pela interação com outras pessoas.
Confesso que nem sempre fui adepta a essas inclusões de diferenças ideológicas, tinha certa relutância em desfazer-me de algumas ideias e enxergar suas falhas, mas isso é algo que desenvolvemos com o tempo, ao menos é o que me parece. Esse ano tem sido de reestruturações diversas, esse campo ideológico é um dos mais modificados.
Sinto profundamente que esses momentos enriquecem muito aqueles que permitem vive-los sem amarras, essas interações e transformações permitem a nós tornarmo-nos cada vez mais pessoas.

1 thought on “Pensar a resiliência

  1. Curti demais o tema abordado, pois sempre refleti sobre o conceito de resiliência e outros até esgotar as possibilidades, e apesar de atuar no campo da engenharia, tenho apreço total pelo âmbito psicológico. No caso do material a ser testado na física, golpes e esticadas repetidos cada vez com maior nível de força farão até o material mais resiliente e resistente desgastar-se. No caso do comportamento humano, de como agimos e recepcionamos as situações (seja de formas reativa, passiva ou equilibrada), penso que a resiliência teria seu conceito adaptado, pois as situações a cada segundo mudam substancialmente nossa maneira de pensar e nossas reações passam a ser diversas. Talvez preferiria usar o termo “adaptativos”. Nos desgastamos com as pancadas, mas agregamos conhecimento e passamos a reagir de formas diversas para alcançar resultados diversos. Abraços e obrigado pela reflexão 🙂

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