Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto.
Daquele mirante podia fitar a enorme quantidade de prédios que havia até a linha do horizonte. Minha cabeça jamais foi muito boa em processar que dentro de cada uma daquelas janelas reluzentes havia pessoas, lares e vidas inteiras. Bem como cada pontinho que se locomovia ao chão, também possuía sua trajetória única e destino certo.  “Nem parece o mesmo lugar olhando aqui de cima” pensei alto “Nem parece que existe tanta violência, que muitos se preocupam com o caos e aniquilam a paz na esperança de trazê-la ao mundo… Nem parece que a maioria das pessoas briga e reclama o tempo todo” disseram ao meu lado “Olhando daqui parece outro universo, onde só podemos ver as coisas que importam.”
Concordei. Lugares assim, me fazem lembrar o quanto somos pequenos perto de tudo. Podemos ver dentro e fora de nós mesmos, por alguns momentos, podem-se ordenar os sentidos e clarear a percepção.
“A cidade nunca dorme notou?” disse depois de momentos no silêncio. As luzes acessas eram prova disso, afinal havia atividade em cada esquina, a vida não poderia parar porque alguns precisavam dormir. A música continuava a tocar, vendedores continuavam ofertando para que entrassem em seus comércios, panfletos eram entregues, jantares feitos, orações tecidas e laços firmados; em cada metro quadrado que se estendia no limite do olhar, tudo transcorria como numa terça-feira qualquer. Mas nenhuma outra terça-feira teria um momento exatamente como aquele, onde quer que estivesse. Aquele dia era único, assim como todos os dias que surgem e morrem. Todos os dias carregam em si o potencial de tornarem-se o melhor dia de nossas vidas, desde que façamos algo para que isso se torne verdadeiro. Pensei muito nisso enquanto olhava o mar de luzes e tentava enxergar o espaço entre as nuvens, tendo uma daquelas conversas silenciosas que traço com o céu de quando em vez. Apesar de conseguir ver poucas estrelas, a imensidão me encanta desde tenra idade. Alguns costumes não são perdidos no tempo.
O senhor ao lado concordou comigo num suspiro. Vistas como aquela tinham a capacidade de colocar qualquer um comovido como diabo. Agora estávamos os dois debruçados no muro para ver melhor o cenário que se erguia pelo concreto. Enquanto falávamos, apontávamos para as pessoas que jogavam tênis na quadra ao lado, para aquelas que corriam com os cachorros, para as outras que andavam na passarela, até mesmo para os que atravessam fora da faixa de rolamento e para aquelas que assim como nós observavam. Aquilo tudo parecia tão alheio ao resto do mundo. Esse era o ponto, aquilo era parte do mundo, parte que não conseguíamos ver quando estávamos embaixo. As vezes só conseguimos ver coisas que se restringem a nós e ao nosso universo, se esquecendo da complexidade de ações que são feitas por minuto.          “A vida não para.” acrescentei “Olhando daqui, penso que a vida transita entre estações, como aqueles carros – apontei – que migram de um ponto a outro, da janela dos olhos vemos todos os pequenos instantes. Pequenos milagres de realizações das quais esquecemos pela imersão no cotidiano. Esse é um deles.” falei para o senhor ao meu lado involuntariamente antes de voltar para o segundo período de aula.
“Nós somos passageiros de todos os momentos. Basta que admiremos a vista e aprendamos o máximo possível com a viagem.”  Completou ele.
“Faça então uma boa viagem” lhe disse saindo “Obrigada por dividir esse instante.”
Seus olhos se estreitaram num sorriso fraterno, deixei-o na companhia da cidade de pedra enquanto descia as escadas em direção a sala. Momentos pequenos e aparentemente insignificantes como esse, enchem meu coração de alegria.

Imagem: Acervo pessoal. São Paulo, 2017.

4 thoughts on “Passageiros

  1. Gostei demais de teu texto. Sempre curti demais essas cenas de imersão em filmes e textos em que parecemos nos afundar nas coisas que nos rodeiam, deixando nossa consciência livre de nosso corpo para sentirmos o quanto o mundo é belo, rico e majestoso e o quanto que temos de ver nele. Por isso, sempre gostei de poetas como Cesário e Baudelaire e adorei teu texto. Fiquei com uma vontade imensa de sair de meu pequeno quadrado e dar uma volta contigo pela cidade, para depois contemplá-la em silêncio e me deleitar com esse estranho e absurdo espetáculo que é a vida.

    1. Rafael, é bom encontra-lo por aqui! Sou suspeita para dizer, mas também gosto muito de textos assim. Vou procurar os poetas citados pois não me lembro de conhece-los. Fico grata com sua leitura, por vezes precisamos mesmo sair de nossos quadrados e dar uma volta por ai, faz um bem enorme. Abraços

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