O burro e a viseira

A fazenda toda trabalhava para que as coisas permanecessem em seus devidos lugares. Os cães vigiavam as terras, as galinhas botavam seus ovos, os patos nadavam no lago, os cavalos aravam as terras e os pássaros cantavam suas melodias, todos viviam felizes. Mas havia um animal que estava sempre insatisfeito, o burro.Certo dia, quando todos estavam em seus afazeres cotidianos, o burro que havia sido amarrado em um toco esperando a próxima viagem que faria, foi tornando-se a cada segundo mais impaciente e resmungão. Para ele, havia sentido em cada crítica solta ao vento, pois quando olhava para os cachorros, ao invés de vigiarem as terras estavam atentos a um ponto fixo em que ele nada via, quando, pensava ele, deveriam estar atentos a diversas áreas. As galinhas todas fora de seus poleiros andavam ouriçadas batendo as asas, os cavalos recostavam na sombra da árvore quando ainda havia muita terra para ser arada. Ele lamentava a falta de trabalho de seus colegas e sentia que era o único a capaz de atentar essas falhas. O burro sabia apontar os defeitos, mas não sabia de fato como corrigi-los. Jamais argumentava, apenas impunha aquilo que achava certo e saia antes de qualquer conversa. Nas raras vezes em que parava para escuta-los, já assumia a defesa antes mesmo do término das frases contrárias as suas ideias. Dias sem fim passaram-se e a mesma situação acontecia corriqueiramente.
Os outros animais habituaram-se ao velho burro, e já nem atendiam as suas reclamações. Este por sua vez tornava-se a cada dia mais ranzinza e infeliz, pensando estar cercado de seres inúteis que em nada contribuíam para a fazenda. Cansado de tantas discussões, um pássaro que observava ao longe decidiu prestar um favor para as duas partes. Esperou que o burro voltasse de suas viagens e fosse amarrado ao toco outra vez. Quando lá estava desceu rasante de sua árvore e pousou no topo de sua cabeça:

-Quem está ai? – indagou o burro.

-Adivinhe só meu amigo! Queria lhe fazer uma visita. – disse o pássaro.

-Eu não tenho amigos nesse lugar detestável! Pode ir embora.

-Irei se assim o quiser, mas antes preciso lhe contar uma coisa.

O burro bufou:

-Diga logo, não estou com tempo para isso.

O pássaro no limite de sua paciência, bicou a viseira enquanto o burro chacoalhava-se e tentava tira-lo dali. Sua persistência fez com que o burro se livrasse dos tampões que lhe cerceavam as ideias. Antes de voar, sussurrou:

-Veja por si mesmo o que queria lhe contar.

O burro que sempre acompanhava o senhorio em suas viagens, não retirava a viseira na maior parte do tempo, para que não se distraísse de seu caminho vendo o panorama geral. Dessa forma, acostumou-se a enxergar o mundo sempre pela fresta que se apresentava a sua frente. Quando o pássaro o soltou da viseira, ele pode olhar novamente a cena que via todos os dias, mas dessa vez, notou coisas diferentes.
Os cachorros quando concentravam-se num ponto só, estavam observando seus filhotes que não poderiam ir além dos limites da fazenda para não se perderem. As galinhas ficavam agitadas sempre que alguém ia até lá para jogar-lhes comida. Os cavalos sempre paravam embaixo da árvore pois aquela era a divisão entre as duas metades de terra que precisavam ser aradas, sempre que ali chegavam, metade do trabalho já havia sido feito. Ao deparar-se com o cenário diferente do que defendia, o burro agradeceu ao pássaro pela ajuda e desculpou-se com todos que havia criado intrigas.

1 thought on “O burro e a viseira

  1. Gostei do conto. Nunca temos razão sobre todas as coisas, justamente por nosso ponto de vista ser sempre limitado. Aí está a importância da empatia para com o outro e suas opiniões 🙂

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