Na Floresta

-Ele tem seis anos e está vestindo uma camiseta azul com bermuda vermelha. Foi visto pela última vez perto da floresta, mande patrulhas para averiguar o local. Entendido? Câmbio. 

-Entendido. Notificarei sobre novas atualizações. Câmbio desligo. 

O rádio fez um chiado baixo e tornou a ficar silencioso. A frente do policial um casal desolado guardava fotos dos filhos.

-Vamos encontra-lo – prosseguia o oficial – no momento é tudo que podemos fazer. Vocês só podem registrar a queixa do desaparecimento após quarenta e oito horas. Infelizmente teremos que esperar. Tenho certeza de que ele voltará para casa.

-Você sabe que não podemos ficar sem fazer nada. Ele é nosso filho – a voz embargada da mãe tentava finalizar a frase – ele… ele não faria isso. Não fugiria de casa. Por Deus Heitor você sabe disso! Ele é só uma criança!

Ele suspirou. Era verdade. Davi era o menino mais educado e reverente que já conhecera.

-Algo aconteceu. Precisamos descobrir o que – ele levantou-se.

-Vamos continuar procurando, em todos os lugares mesmo que vocês desistam. Só queremos que nosso menino volte pra casa – dessa vez o pai tomou a voz guiando Heitor para fora da casa, ele sabia que não conseguiria nada além da patrulha. Não adiantava perder tempo.

Minutos depois ambos estavam sentados com o olhar vazio encarando a mesa. O mapa da cidade se destacava na madeira escura.

-Eu não sei pra onde ele pode ter ido – confessou o pai em um sussurro, dirigindo-se a janela.

-Vamos encontra-lo, eu tenho certeza! – disse a mãe o seguindo.

Perdidos ambos olhavam da janela as grandes árvores que cercavam a casa, a floresta se estendia por quilômetros e não denunciava nenhum sinal da presença de Davi, o mapa sobre a mesa traçava a rota que seguiriam para procura-lo. Acima do cenário tenso o céu azul denunciava um dia tranquilo de muito sol, mas não para os dois.

Já havia andado por várias horas e nada. Apenas a mata e alguns animais davam vida a floresta que parecia abandonada. Nenhum sinal humano.

O sol brilhava e aquecia sua pele e quanto mais andava menor era a vontade de ficar parado. Ele precisava encontrar aquele cachorro. Onde já se viu abandonar um filhotinho no meio do nada, pobre cachorro, pensava Davi. Sentou-se em uma pedra e aproveitou para respirar com calma. Olhou para trás e não teve certeza se havia andado em linha reta. O cachorro correu logo que percebeu sua aproximação isso fez com que ele tivesse que correr tão apressadamente que não teve noção do caminho. Essa dúvida o fez titubear. Pensando bem, ele corria grande risco se aventurando no meio da floresta, lembrou-se da história de João e Maria. Definitivamente não queria ser raptado por uma bruxa.

Motivado por todos os contos em que crianças perdidas no meio do nada passam por maus bocados decidiu voltar para casa. O cachorro provavelmente teria um lar na floresta. Ele tinha que aceitar isso. Deu meia volta e seguiu o caminho oposto do que vinha trilhando. Quanto mais andava, mais parecia entrar na floresta, não havia nada ali que sinalizasse seu retorno para casa. Olhou para cima, o topo das árvores pareciam tocar o céu, mesclando azul e verde em um só quadro. Se não estivesse perdido teria admirado a vista. Tudo o que via no momento eram galhos e folhagens que pareciam querer o sufocar aos poucos. Já havia perdido a conta de quanto tempo se passara quando finalmente percebeu que estava perdido. Ele queria chorar, chamar pelos pais, mas sabia que nada disso iria adiantar. Sentou em uma pedra e fechando os olhos fez uma prece silenciosa. Se saísse dali em segurança iria escovar os dentes todos os dias antes de dormir. Quando finalizou a oração percebeu que essa era uma péssima barganha, mas ele já não sabia o que fazer.

Quando pensou que nunca mais escaparia daquele lugar foi surpreendido por uma voz:

-Está com medo?

Virou a cabeça para todos os lados e não via ninguém, perguntou desesperado:

-Quem é? Onde você está?

-Sou eu. Estou aqui.

-Isso não tem graça – se levantou rapidamente, ainda observando todos os lados sem ver ninguém, então se preparou para o pior – você é uma bruxa?

Ouviu uma risada e um barulho de folhas a suas costas. Quando se virou o cachorro estava sentado na pedra. Davi levou a mão até o coração soltando todo o ar armazenado no pulmão.

-Você me assustou cachorro! Estava procurando você!

-Você também me assustou humano. Não esperava que você me seguisse. Mas não sou um cachorro.

-Você fala? – disse maravilhado se dando conta do que tinha diante de si.

-Sim. Todos falam. Não me parece motivo para festejar. E deixando claro, sou um lobo.

-Um lobo?

-Exato. Ainda estou crescendo, mas ficarei bem maior que um cachorro.

-Eu também vou ficar maior que um cachorro – dizia Davi orgulhoso.

O lobo parecia sorrir.

-Por que me seguiu?

-Pensei que você estivesse sozinho e com medo. Queria te levar para casa e cuidar de você.

O lobo suspirou.

-Vocês sempre acham que sabem o que é melhor pra todo mundo. Estou bem, se era isso já pode ir embora.

Davi não gostou da resposta recebida, ficou até mesmo chateado, porém o cansaço lhe dizia que não poderia fazer mais nada. O lobo não queria sua ajuda. Era um ingrato, pensou ele. Ficou em silêncio encarando o chão.

-Você ficou chateado? – indagou o lobo vendo a postura do menino – nem sempre temos tudo que queremos na vida. Algumas coisas são como são e não podemos muda-las. Eu sou uma delas, você é outra. Não posso ficar preso dentro de uma casa, não sou um ser humano.

-Eu entendo – ele chutava as folhas no chão – foi idiotice te seguir. Agora não consigo nem mesmo voltar pra casa. Estou perdido.

O lobo riu saltando da pedra e andando em sua direção.

-Isso acontece, pois você está andando com os pés, para encontrar o caminho precisa andar com a mente.

O menino encarava os pelos marrons do lobo que resplandeciam com os raios solares.

-Eu não entendi.

-Andar com a mente é andar com a sabedoria. – completou o lobo – Se tentar andar sem pensar não chegará a lugar nenhum. Tão pouco encontrará o que precisa.

-Eu preciso da minha casa – disse – meus pais ficarão preocupados se eu demorar muito. Nem quero imaginar a bronca que vou levar.

-É só se lembrar de onde veio -disse o lobo fitando o garoto.

Os olhos amarelos ficaram cravados no menino por instantes.

-Estou tentando. Você já encontrou o que busca?

-Ainda não.

-Por que?

-Porque busco em todos os lugares e por isso não encontrei em canto algum.

-Então o que você procura não existe? – Davi estava cada vez mais confuso.

-Existe – ponderou o lobo – só não sei onde está.

-E o que você busca? Talvez eu possa te ajudar.

-Não – ele sorria mostrando os dentes brancos e afiados – mal consegue encontrar seu próprio caminho quem dirá o meu.

-Ei, eu sei o meu caminho  ele fica por… – dizia indignado enquanto seu dedo apontava para várias direções. Franziu o cenho – por ali, ele fica por ali.

-Então vamos.

O lobo seguia na direção apontada.

-Pensei que você não me quisesse por perto.

-Não quero. Por isso me certificarei de que você ira direto pra casa.

O menino abriu a boca espantado com tamanha grosseria.

-Pois então não preciso da sua companhia também! Me deixe em paz.

O lobo balançava a cabeça negativamente. E não desviou do caminho liderando a trilha.

-Só disse isso, pois floresta não é lugar para crianças. É perigoso para você – virando a cabeça para encara-lo completou – nada pessoal.

-“Vocês sempre acham que sabem o que é melhor pra todo mundo. Estou bem, se era isso já pode ir embora.” – dizia com voz jocosa.

-Você tem boa memória menino.

-Meu nome é Davi.

-Que seja. Você não quer voltar pra casa então? – o lobo parou no caminho.

-Quero.

-Ora, então pare de nos atrasar.

Davi bufou virando os olhos, sem o lobo estaria perdido. Ruim com ele, pior sem ele. Enquanto seguia o animal só conseguia pensar que ninguém nunca acreditaria nessa história.

Onde estaria? Procuram-no por toda a parte, mas na cabeça de Heitor apenas essa pergunta ficara guardada. O garoto não faria algo desse tipo, desaparecer do nada. Mas ele estava fazendo tudo aquilo por conta de sua amizade de anos com Mauro e Alice. Eles estavam arrasados com o sumiço do filho e não era pra menos. O garoto iria aparecer, mas seria ideal que isso acontecesse antes das quarenta e oito horas. Heitor fazia tudo que estava ao seu alcance e tamanha foi sua alegria quando tarde da noite sua lanterna encontrou o garoto cambaleando em meio às árvores.

-Você tem certeza que é esse o caminho?

-Foi você quem o escolheu caminho garoto, por que a dúvida?

-Porque estamos rodando há várias horas e até agora nada…

-Tem razão. Nem todos os caminhos são rápidos. Tenha paciência.

O menino bufava tirando o cabelo do rosto.

-O sol já está sumindo lobo. Vou ficar encrencado se não chegar logo.

O lobo parou no caminho e farejou o ar. Encarou a mata fechada por alguns instantes e fez uma leve mudança na direção da caminhada.

-Por aqui é mais seguro –disse ele- Você já está quase em casa.

Davi estava com uma coceira que crescia cada vez mais.

-Acho que aquelas frutas que você me mostrou não me fizeram bem…

-Você precisava comer. Não iria imaginar que te faria mal. Afinal você sabe agradecer ou humanos só vem com a capacidade de reclamar?

-Estou cansado demais para brigar com você lobo. Obrigado por seja lá o que você tenha feito.

-De nada – ele disse parando – Você já chegou. Foi um prazer ter sua presença humano.

-O que? Mas… – ele olhava ao redor perdido – eu ainda não sei onde estou!

-Está exatamente onde deveria estar. Não tente correr atrás de mim novamente, prometo que sei me cuidar. Você também, se cuide. Preciso ir.

Sem delongas o lobo correu floresta adentro. O menino ficou desnorteado por alguns instantes, seus olhos já tinham se acostumado a luz da noite, mas o frio parecia aumentar e sua camiseta não era o bastante para barrar o frio cortante. O ar começou a faltar em seu peito quando não via nenhum sinal de vida ao redor. Tudo parecia assustador e as árvores maiores e sombrias até que um feixe de luz foi colocado em seu rosto. Naquele momento ele suspirou aliviado, Heitor sorria do outro lado da lanterna e corria de encontro ao garoto.

     …

Uma semana depois todos estavam felizes e bem, Heitor recebeu uma medalha de honra por seu trabalho prestado e diversos abraços da família. Durante o interrogatório realizado com Davi como o menino pensara anteriormente, ninguém acreditou na história, disseram tudo era culpa de uma fruta que causa efeitos delirantes e confunde a noção de realidade que ele havia comido, causando uma reação no corpo.
Ninguém acreditou na história, mas de vez em quando Davi ainda olha pra floresta esperando encontrar o lobo, deixa até alguns biscoitos no pé da mata e fica feliz quando vai buscar o pote e o encontra vazio. Nem todas histórias são passíveis de crença, mas a maioria faz um sentido maior do que se imagina.

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