Monólogo da loucura

Todos nós temos em nós, nós que não sabemos desatar sozinhos.


O gênio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio.
Fernando Pessoa

Essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.
Charles Bukowski


Dizem ser tênue a linha que separa a loucura da razão. Eu já não sei distingui-la. Ando flertando com o delírio e aguardando o sinal apontar o nítido abismo de ilusão. Caminhar, por anos e éons e só. Pó é o que resta quando os corpos queimam, só é o que resta quando a chama da vida acaba.
Todos os lugares para os quais eu gostaria de voltar, já não existem. As luzes estão acesas, mas não há ninguém em casa. Quando chegarem perguntarão onde estive, mas como posso explicar se nem mesmo sei? Estive em todos os cantos menos lá, onde gostaria. Pois não existem mais tickets ou passagens. Minha mente não pousa em nenhum porto, corre pelas cidades em vagões lotados e passeia em olhares vazios.

A angústia, me aproxima de tudo que quero destruir. Forte sou para outros, não para mim. Só comigo posso ruir no silêncio, e a escuridão me abraça. Toda essa angústia, me destrói um pouco. Sei que cada pedaço caído ao chão tem uma causa, um nome.
Vejo a fumaça sair do cigarro empestando o ar. Essa é minha morte lenta, que anda devagar nas ruas cheias de gente. Já não fujo dos olhares, sustento todos eles, por isso encarei o espelho que reflete os sons do mundo, enquanto pensava em como tudo funciona. Pensava na forma em que as coisas ocorrem de um jeito que não esperamos jamais. Pensei nas palavras ásperas proferidas por ignorantes, pensei na hipocrisia tamanha de escritores quaisquer, pensei nas desarmonias, nos sofrimentos, e um chicote enlaçou minha alma. Apertava tão forte o peito. Mas a lágrima não saia. Talvez porque já não tivesse nenhuma. Com ou sem elas, os passos seguem nas ruas grandes.
Gosto tanto do silêncio…. Mas faz muito barulho aqui dentro. Jamais fica quieto e as ideias se debatem para voar. Não se pode curar feridas internas com coisas externas. Sabemos a receita da cura, mas sangramos ainda assim.
Eu sou ninguém, sou todo mundo. Sou só e em um segundo companhia. Posso ser tudo e nada. Uma eterna conta não decifrada e tenho raiva como tudo isso rima, fazendo com que pareça planejado. Mas talvez a vida inteira seja, e ninguém nem desconfie de que os passos já tinham direção certa pra parar; De que os poemas seriam criados e que tudo viraria eterno, mesmo que insistam em dizer que seremos engolidos por buracos negros.
Mal sabem eles que a escuridão quase tomou conta da Terra e que as pessoas quase foram engolidas, pelos buracos que elas mesmo cavaram. No fim, tudo se ajeita, dizia alguém na multidão. Ainda estamos tentando ajeitar, mas a bagunça é tamanha que desde que mundo é mundo existe desordem. Talvez nada fique nunca no lugar, pelas constantes mudanças e pelo individualismo, que vem consumindo a alma do coletivo.
Ainda assim, existem momentos de paz entre os picos de êxtase, são nesses momentos que se pode pensar com lucidez. São nesses pequenos instantes, em que a única pergunta é por que, não quando ou onde. Por que… Por que? Flertarmos com o delírio tendo em vista que a única coisa que o separa da realidade é uma tênue linha invisível. Nem todos caminhos são claros ou retos e a placa diz “desconfie”.
Eu desconfio….. muito.
Lembra-te que quando resolvi acreditar, proferiram o golpe final, que fez cair o último pedaço que se prendia ao peito, e meus olhos se fecharam numa ação dolorosa, derramando todas as lágrimas quentes. Uma morte de samurai, lembro que foi quando meus olhos se fecharam para todas as cores do mundo. A luz se despiu e vestiu negro. Ficou de luto por meses.
Mas o brilho volta. Sempre há de voltar. O caminho segue natural, mesmo que queiram inflar o peito de asco e fazer com que o mundo ingira suas palavras falsas. Não aceite doses de mentiras em suas veias, apenas por não acreditar que são as drogas que lhe fazem mal. São as pessoas tóxicas que nos tolhem de nós. As poesias são melhores que os poetas muitas vezes pois, os homens fingem, mas a verdade é una. Um brinde, um brinde a loucura que nos permite pensar na sanidade. Que sejam felizes então, os loucos que conhecem a verdade!
Sabes a essa altura, que de mais coisas são feitas as vidas todas. Não apenas de desconfiança. Lembramos de não confiar quando algo dá muito errado. Mas enquanto da certo, acreditamos. Dessa feita, a descrença talvez seja fruto da infelicidade, que vem como consequência dos enganos. Mas o jogo da vida continua rolando e não podemos deixa-lo. Temos essa e não outra opção porque o custo do jogo é a vida, e o jogo é dela também. Jogar nos lixos as fichas porque os jogadores não agradam? Não… somos mais fortes que isso. As coisas mudam, os cenários viram.
É exaustivo andar por aí com essa indiferença toda pairando entre as ruas, quando tudo que esperamos é humanidade no meio desse mar de seres.
Ceres tem sorte ao longe com seus asteroides, mas nós temos bilhões de rochas também. Elas não flutuam no espaço, mas andam entre gente, sentam em seus escritórios e olham para o mundo como se não fosse nada além de um negócio muito caro e precioso. Esquecem frequentemente, que de nosso não temos nada, e ao mesmo tempo temos tudo.
São nesses dias que me mato, me enterro, me dispo, e penso, que mesmo depois de tudo, ainda existem razões para agradecer, amar, ainda existem razões para viver.
O vento frio ainda corta a pele, mas já não apaga a chama. Sento no chão frio e vejo a linha do horizonte, aquela mesma que separa a loucura da razão e rio comigo. Fumaça não apaga o sol. Uma nuvem não desfaz o céu. Ilusão não destrói a verdade, quanta paz cabe nisso. Encaro o penhasco que atormenta o filósofo e ele me olha de volta.

Agradecimentos

Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida. –Eugénio Andrade

Co-autoria de Rafael S. Santos, jornalista, amigo e viajante nas loucuras alheias.

4 thoughts on “Monólogo da loucura

  1. Minha nossa!!! Obrigado!
    Bem escrito e formulado!
    Acabo de ser (novamente) chamado de louco – porque estou falando sozinho demais – venho ler em voz alta na sacada; abro vosso texto e quase surto! Choro feliz-triste enquanto leio! É! A linha é tênue, e fui “pra lá e pra cá” por um momento.

    1. Que comentário bom de ser lido. Fico feliz que tenha gostado da leitura! O intuito era justamente esse, de nos balançar nessa linha tão sutil, abraços

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