Missiva

“Olhei uma ultima vez aquela carta antes que as chamas levassem da minha memória as suas palavras. Virei as costas antes mesmo de ver o fim trágico de nosso amor. Reduzido as cinzas.
Preferi olhar para o outro lado, onde antes havia um porta retrato. A mesa é bem mais espaçosa sem o seu rosto nela.
Tenho em mim, os mesmos sonhos, anseios e convicções, a mesma aliança e os mesmos amigos. Mesmo assim, você afirma que eu mudei, com tanta propriedade como se fosse eu. Nem mesmo eu tenho tanto domínio sobre minha personalidade.
Relevo, como sempre relevei suas crises. Eu sou o mesmo, você que mudou. Amadurecemos com o tempo, e talvez você precise de um pouco dele.
Enquanto as labaredas consomem o que um dia existiu, penso comigo onde chegamos e onde acabamos. Talvez nos devaneios consiga entender o que você chamou de erro. O erro talvez seja o fim, ou o começo. Apenas um dos dois pode ser responsável pelo fim fatídico de um amor em amadurecimento.
Sabemos que existem certezas na vida, mas nunca pensei que uma delas fosse a sua partida. Mas deveria ter imaginado, afinal essa é a mesma vida que é feita de encontros e desencontros. Dessa vez o desencontro fez o ponto. Final, devo acrescentar.
Não vejo como usar a retórica agora, pois sei que se enviar uma carta, ela terá o mesmo fim que a sua levou. Minhas palavras talvez não surtam efeitos e provavelmente não irão amenizar o seu espírito. Mas em vão, mesmo assim, envie-lhe uma carta. Se você lera ou não, fica a seu critério. Fiz mais por desencargo de consciência do que por qualquer outro motivo. Gostaria de falar-lhe que entendo seus motivos e refleti nos meus erros, que reconheço minhas falhas.
Não admiro que possa ter agido de modo tao errôneo, peço-lhe perdão, como já pedi outrora.
Sinto em meu âmago, a dor de que lhe magoei, mas o passado já passou, como você mesmo costuma dizer. Sinto mais uma vez por lhe ter ofendido, mas ressalto-lhe que, o que você me diz é recíproco. Posso até ter tido papel de vilão, mas antes fui vitima. Vitima do seu ego, da sua prisão, do seu amor.
Dizem que tudo que passamos na vida, nos traz uma lição. Você me ensinou que as coisas podem mudar. Que eu posso ser outro, estar com outra e você também pode seguir seu caminho com outro que lhe faça feliz, ou então que podemos ser felizes sozinhos, que os sonhos não desmoronam mesmo que parte deles pareçam ruir. Mesmo que a pessoa ideal, deseje partir.
Te liberto de mim, e de todo meu ser. Seja feliz, e só volte se não for a mesma, pois eu mudei, e já não me enquadro com quem você era. Não temos mais nada em comum. Até a aliança foi derretida, e comprei um belo adereço com o dinheiro.
Você me rendeu bons momentos mesmo depois do fim. E por isso, lhe sou grato.
Essa é uma carta que nunca lhe entregarei. Demorei a termina-la e no final optei por apenas guarda-la. E por esse motivo ela possivelmente nunca sera lida novamente. Mas precisava aliviar minha mente dessas amarras ilusórias de uma paixão que já foi superada.
Espero que o vento leve essas palavras até você, e que ele possa confortar seu coração. Assim como confortou o meu, levando você da minha memória.”

Fechei o envelope ainda atordoada. De acordo com os meus cálculos, e pelo papel amarelado, essa carta ficou guardada por mais de  vinte anos dentro de uma das gavetas daquelas que nós simplesmente esquecemos que temos. Quando encontrei, não pude fazer outra coisa que não correr para entregar para meu avô, que se encontrava na varanda, a letra só podia ser dele.
Quando trouxe o envelope aberto ele logo reconheceu, e em seguida, franziu o cenho e eu já sabia que uma bronca se aproximava:
-É feio bisbilhotar as coisas dos outros Sofia! – ele estendeu a mão para pegar de volta a carta.
-Me desculpe – sussurrei entregando o envelope rasgado.
-Esse velho sempre te engana não é? Ora, deixe disso. É só uma carta.
Mas sua expressão era rígida e um tanto amarga pelo gosto da lembrança.
-Você leu não foi? – ele me encarava.
Apenas afirmei com a cabeça.
-Pois bem – disse ele sentando-se em uma cadeira e sinalizando a cadeira vazia ao lado para que fizesse o mesmo – essa é uma longa história e tenho certeza que você não vai querer ouvir.
Ele olhava de soslaio como se já soubesse a resposta. Eu permaneci imóvel, esperando que ele prosseguisse.
-Jura? – disse ele tentando se livrar da situação.
-Se o senhor contar serei toda ouvidos, porém, se não contar podemos ficar aqui com o silêncio constrangedor até a hora do jantar.
-São duas da tarde Sofia…
-Então teremos bastante tempo.
Me recostei na cadeira e ele riu.
-Como se você já não soubesse que eu iria lhe contar mesmo que você não tivesse interesse.
Eu ria porque era verdade. Vovô é um ótimo contador de histórias, o melhor de todos que já conheci. Ele apertou a carta entre as mãos e sorriu.
-Essa é uma ótima história minha filha. Já havia quase me esquecido mas fico feliz que tenha me lembrado. Então vamos a história que interessa. A carta foi escrita quando eu tinha 22 anos, ou seja em 1956 naquele tempo eu…..

continua…

 

Fonte da imagem: tumblr

 

6 thoughts on “Missiva

      1. Ah sim, mudei o/. Estava pensando se mudava de plataforma e talz. Mas ai vi que essa têm muitos recursos e que seria mais prático, então resolvi mudar. O chato é que são muitos texto para repassar :o. Agora passarei por aqui periodicamente haha

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