Matando a Poesia – 9

(…)

o azul é ouro?
o azul é pus

de barriga vazia

o verde é vivo?
o verde é vírus

de barriga vazia

o amarelo é belo?
o amarelo é bile

de barriga vazia

o vermelho é fúcsia?
o vermelho é fúria

de barriga vazia

a poesia é pura?
a poesia é para

de barriga vazia

 

Haroldo de Campos

Às vezes penso na grande quantidade de personalidades nacionais que deixamos de conhecer, simplesmente por nem sequer imaginar que existam. Esse não é o primeiro caso, nem o último em que isso acontece, mas até algumas semanas atrás nem sequer imaginava a existência de Haroldo de Campos.
Antes do poema, algumas palavras sobre o autor:

Fundou o grupo “Noigrandes” de poesia concreta. A poesia concreta propôs a abolição do verso tradicional em favor de novas formas de organizar as palavras, explorando seus aspectos gráfico-visuais.

Em meados de 1950 iniciou-se o movimento do Concretismo, sendo Haroldo de Campos um dos representantes dessa vertente. O que as vídeoaulas e livros contam sobre esse movimento artístico, é que ele valoriza a disposição gráfica das palavras e tinha em seu cerne a proposta de renovação da linguagem poética brasileira.
Não há para esse tipo de poesia, preocupação com a estética tradicional de começo, meio e fim. Sendo que os tão conhecidos versos, ganham novos corpos com ela, e nota-se a decomposição de palavras e múltiplas possibilidades de leitura, existe também grande exploração de aspectos sonoros, visuais e semânticos.
Aqueles que gostam de poesias repletas de métrica, com rimas ricas encadeadas ou intercaladas em seus decassílabos, podem ficar desconfortáveis com essa poesia que rompe com essa forma de escrita.
Para isso, deixo uma fala de Manuel Bandeira, quanto ao que é poesia:

“Compreendi que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”

Interessante saber que o Concretismo foi um movimento internacional, que ganhou força no Brasil, graças a Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, por meio da revista Noigrandes. Augusto de Campos, traduziu a palavra Noingrandes como sendo “Antídoto do tédio”.
Abaixo alguns exemplos de poesia concretista:

3
a goteira – Haroldo Campos
1
Epitárfio para um banqueiro – José Paulo
2
Lixo ou Luxo – Augusto de Campos

 

Design sem nome
Pós-tudo – Augusto de Campos

Mas o que raios isso tem a ver com o poema em epígrafe? Calma. Encontrei esse poema no chão, e no chão de concreto ele me dizia:

a poesia é pura?
a poesia é para

de barriga vazia

Ainda de frente para o concreto falante, olhei para esses versos por alguns momentos tentando entende-lo. Primeiro, porque achei que estava escrito errado, e só depois de ver no livro percebi que era para ser assim mesmo. Às vezes eu encrenco com as palavras, sem necessidade alguma. Quando li esse poema estava na casa das rosas (que também recebe o nome do autor) de onde as palavras despencam do lustre, do chão e das paredes. Rabisquei uma poesia saudosa na varanda vendo aquele jardim florido, andei em meio ao verde e ao cinza e depois fui embora, quase me esquecendo de que aquela era uma das ruas mais movimentadas da cidade, ou apenas ignorando mesmo. Lembrei bem dos versos porque tirei uma foto, para ler o poema inteiro depois.
Então pergunto, a poesia é o bastante para encher a barriga? Ela é responsável pelo ronco do estômago? Ou pelo ronco da alma? É ela que para no estômago e fica? A poesia para? A poesia é preposição ou verbo da barriga vazia, essas horas já não sei.
Sei que eu tenho fome de palavras, das que disse e daquelas que jamais direi. Tenho fome de ideias, de conceitos, tenho fome de saber… nomeio isso curiosidade. Nomear é dar nome¹, seria aí o inicio da poesia?

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?…

Titãs – Comida

O poema nos joga diversas questões, que acaba por responder nas entrelinhas ao longo da leitura, mas nos pergunta: O azul é ouro? Aquilo que parece é? Aquilo que engana os olhos engana também a barriga? Por fora, você é o mesmo que é por dentro?
De barriga vazia, podemos olhar para as coisas de forma diferente das quais olhamos com a barriga cheia. Quem está de barriga vazia, normalmente reclama, pois, tem fome, então, verde vira vírus, azul vira pus e vermelho vira fúria. Quem está de barriga vazia sente fome, quem está de barriga cheia sente saciação. Mas cabe questionar se a poesia para no estômago de quem está com a barriga vazia. Seria esse canto vazio em nós que instiga a busca de palavras que o preencha?
Como dar nome para poesia em tempo de fome?¹ Nomear é dar nome.
Com isso, podemos lembrar que durante o desenvolvimento humano, a criança nomeia e renomeia diversos objetos, enquanto realiza suas brincadeiras lúdicas: Chão vira lava, cartão telefônico vira identidade secreta, tic tac vira remédio, estojo vira nave espacial. E aí, aí de quem disser o contrário. A criança que não morre em nós, acompanha as outras fases do desenvolvimento e continua renomeando, ressignificando a vida, ensinando o adulto a lançar olhares diversos para ela. Porque se fosse dever só dos adultos olhar para o mundo, estaríamos mal. Podemos nomear e renomear diversas vezes uma mesma coisa, pois ela pode ter diversos papéis em nossa vida: homem pode ser homem, pode ser poesia e pode ser apenas fome. Pode ter barriga vazia ou cheia, e encarar as cores como bem entender. Pode ser aquilo que você quiser que seja, se você chamar pelo nome certo.

Que tenhamos fome de buscar poesias sem fim, alimentar a fome seja ela qualquer que grita no estômago e que essa dialética continue, até quando precise continuar.

Claro, não poderia deixar de dizer que vale muito a pena dar um passeio pela Casa das Rosas. Você pode conferir a programação  e obter mais informações sobre esse lugar acessando o site: http://www.casadasrosas.org.br/

Resultado de imagem para casa das rosas
Foto retirada do site Catraca Livre

Fontes consultadas:

França F., Sentidos no silêncio – o vazio em Galáxias, de Haroldo de Campos. disponível em <http://www.letras.ufrj.br/posverna/mestrado/FrancaFFN.pdf> acesso em 17/10/2017

Linguagens códigos e suas tecnologias – Português – Literatura Concretista disponível em <http://slideplayer.com.br/slide/3630962/> acesso em 17/10/2017

Vilarinho, S., Poesia Concretista
disponível em http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/poesia-concreta.htm acesso em 17/10/2017

Livro onde você encontrará esses poemas disponível em <https://moisesnascimentoblog.files.wordpress.com/2016/08/poesia-haroldo-de-campos.pdf> acesso em 17/10/2017

¹proemio

poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia

poesia em lugar do homem
pronome em lugar do nome

homem em lugar de poesia
nome em lugar do pronome

poesia de dar o nome

nomear é dar o nome

nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome

nomeio a fome

Haroldo de Campos

Até

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