Matando a Poesia – 8

Um amor feliz. Isso é normal,
isso é sério, isso é útil?
O que o mundo ganha com dois seres
que não veem o mundo?

Enaltecidos um para o outro sem nenhum mérito,
os primeiros quaisquer de milhões, mas convencidos
que assim devia ser – como prêmio de quê? De nada;
a luz cai de lugar nenhum –
por que justo nesses e não noutros?
Isso ofende a justiça? Sim.
Isso infringe os princípios cuidadosamente acumulados?
Derruba do cume a moral? Infringe e derruba, sim.

Observem estes felizardos:
se ao menos disfarçassem um pouco,
fingissem depressão, confortando assim os amigos!
Escutem como riem – é um insulto.
Em que língua falam – só entendi na aparência.
E esses seus rituais, cerimônias,
elaborados deveres recíprocos –
parece um complô contra a humanidade!

É difícil até imaginar onde se iria parar,
se seu exemplo fosse imitado.
Com que poderiam contar a religião, a poesia,
o que seria lembrado, o que, abandonado,
quem quereria ficar dentro do círculo?

Um amor feliz. Isso é necessário?
O tato e a razão nos mandam silenciar sobre ele
como sobre um escândalo das altas esferas da Vida.
Crianças perfeitas nascem sem sua ajuda.
Nunca conseguiria povoar a terra,
pois raramente acontece.

Os que não conhecem o amor feliz que afirmem
não existir em lugar nenhum um amor feliz.

Com essa crença lhes será mais fácil viver e morrer.

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska escritora polaca, poetisa, crítica literária e tradutora teve diversas obras publicadas em português e é aclamada pelo público brasileiro. Porém, nada conhecia de sua obra antes da indicação feita pela Letícia do blog Compilados. O poema da vez é Um amor feliz.
Os artigos que li sobre Wisława diziam que sua escrita era clara como a água, mas sem esquecer o lembrete de que a água também pode espantar.
Amor e felicidade, ambos conceitos piamente subjetivos e que abrem margem para muita interpretação, permeiam os versos do poema com uma crítica explicita e necessária.
Um amor feliz. Por trás da palavra amor, existe uma longa construção histórica banhada de ideologias e que desde de Tristão e Isolda, nos brinda também com a ideia de felicidade agregada ao amor. Afinal, se reparar bem “felizes para sempre” só existe nas histórias de amor.
Quando o romantismo desponta em sua segunda geração, apelidada de mal do século, com todo o sentimentalismo exacerbado e repleto de egocentrismo, é possível criar uma ponte para entender os primeiros questionamentos do poema. É justo ou necessário que duas pessoas enxerguem apenas a si mesmas, intocáveis pelo mundo, ou que ainda mais cegas ignorem a existência do mesmo? Quem já se apaixonou profundamente algum dia, sabe como é andar numa rua repleta de pessoas e só sentir, e ter olhos, para quem caminha do seu lado. Não sei ao certo o que mundo ganha com duas pessoas assim, mas sei itens que ele perde.
Toda essa construção ideológica, faz com que parte da ideia do amor seja oculta da realidade. Algumas pessoas só veem a superfície dos relacionamentos, ainda mais com o engajamento das redes sociais nos últimos tempos, onde todos são felizes vinte e quatro horas por dia, parece deveras contraditório que exista tristeza e dificuldade para aqueles que amam, ou tentam amar a sua própria maneira. Chega a ser um insulto que tais máscaras perfeitas sejam levantadas por anos, e que nós continuemos alimentando essas fantasias, que só fazem destruir. “(…)Em que língua falam – só entendi na aparência.” alguns relacionamentos não possuem amor, seja ele feliz ou triste, alguns existem por status. Daí, não se escutam palavras sinceras nem se pode ler o amor, apenas observar as aparências e as personas que ali são criadas.
“(…)E esses seus rituais, cerimônias, / elaborados deveres recíprocos -/ parece um complô contra a humanidade!” Em nossos tempos já se sabe que o para sempre pode acabar a qualquer momento. Existe um crescente número de divórcios, que não sinaliza qualquer diminuição, e podemos dizer que uma parte das gerações já é cria de lares refeitos. Coisa que alguns séculos atrás não poderia ser ao menos cogitado. A liquidez permeia boa parte das relações modernas, é difícil ser sólido e encontrar qualquer porto que dure mais de meses antes de desmanchar e te desmanchar com ele.
Mas essas ideias não nos foram impostas, foram construídas e alimentadas por nós mesmos. A convite da vida, ou a imposição de outros, aprendemos que nem tudo são flores, hora ou outra, vemos que as coisas são diferentes do que contam os livros e filmes. Toda a expectativa depositada no amor por séculos o coloca como surreal, então é nesse momento, quando os pés já não tocam o chão que precisamos voltar a nós e sair do castelo imaginário.
“Um amor feliz. Isso é necessário?” Aqui cabem dois pontos importantes: O que é amor e o que é feliz. Filósofos já se ocuparam dessa questão por séculos, sem chegar em um consenso único. Deixo então, que cada um busque a própria resposta e justificativa. É necessário?
“Crianças perfeitas nascem sem sua ajuda./ Nunca conseguiria povoar a terra, / pois raramente acontece.” É interessante lembrar, que todos os dias nascem cerca de 211.000 pessoas, e eu não duvido de forma alguma, que boa parte dessas vidas que vem ao mundo, sejam oriundas de histórias de amor, mas sei que parte delas vem de histórias complicadas, o que não as torna menos perfeitas do que as outras, ou signifique que em nenhum momento houve o tal amor feliz. O mito do nascimento de Eros conta que esse seria filho de Pênia (Penúria) e Poros (Abundância) uma união excêntrica de riqueza e pobreza que pode levantar algumas fagulhas de pensamento sobre esses versos.
“(…)Os que não conhecem o amor feliz que afirmem / não existir em lugar nenhum um amor feliz” Negar o fato de que o amor feliz possa existir, apenas por nunca o ter conhecido, parece de certo modo uma proteção contra a própria angústia que pode ser gerada a partir daí. Conhecer o amor feliz e o perder, sem admitir que houve tempo em que existiu também é da mesma forma aparato contra a tristeza. Mas será que isso é necessário? “(…)Com essa crença lhes será mais fácil viver e morrer.” Por vezes parece mais fácil viver com uma visão pessimista e carregada de ódio, do que com a realidade de que aquilo que negas existe com outros e não contigo. Essa talvez seja uma perda maior ainda para o mundo, do que os dois seres que só vem a si. Um ser que não sabe ver e aceitar os outros.
Também não podemos esquecer que, o amor gosta do mercado e o mercado gosta do amor. Graças a todos os pormenores que foram citados e por todos aqueles que nem entraram nesse texto, o amor é um dos temas mais buscados e talvez o que as pessoas menos entendam realmente. Confundem amor com paixão, eu te amo com oi e o mundo segue nessa salada de cacos.
Quando pintava quadros, sempre escutava que na arte não havia erros. Se puxasse o pincel e forçasse um traço que não deveria estar ali, este era incluído no cenário e passava a automaticamente fazer parte da trama. Ninguém que olhasse de fora saberia distinguir o que era erro do que não era; Talvez o amor, feliz ou não, seja um pouco disso. Um quadro em branco e nós decidimos o que fazer com os erros que se consertam, ou melhor, com as aprendizagens que se completam. É vão tentar dizer o que é amor, se cada um o entende de uma forma, posso escrever qualquer abobrinha e concluir que isso é amor para mim. Mas para mim, o amor é muito maior que duas pessoas. Mesmo com todas as facadas que já levei esse ano, continuo achando que existe amor por aí, e por que ele não haveria de ser feliz? Se isso é bom eu já não sei. Mas aproveitei para escrever esse final enquanto ainda existe otimismo em algum canto. Talvez esse seja o romantismo que lanço ao mundo, que insiste em acreditar que as histórias que nos fazem sofrer, não são bem histórias de amor.

~Dois anos atrás eu jamais leria o poema dessa forma, mas matei (ou mataram em mim) parte da poética do amor, isso me permitiu conectar-se de forma mais pessoal para falar sobre os versos. O que talvez me tenha feito viajar bastante, espero ter mantido o raciocínio.

No Youtube encontra-se um vídeo da própria Wislawa (lembre-se que ela é polonesa) recitando esse poema. Apesar de só reconhecer algumas palavras é interessante notar sua expressão aos versos:

Até o próximo texto.

Referências:
A poesia como uma ferramenta de investigação do mundo
O POETA E O MUNDO
Nascimento de Eros:
O banquete – Platão

9 thoughts on “Matando a Poesia – 8

  1. Gostei da reflexão e da forma “pé no chão” como você conduziu o pensamento. Muito bom.
    “o amor é um dos temas mais buscados e talvez o que as pessoas menos entendam realmente.” Essa é uma tecla que bato há alguns anos já. Penso que um dos motivos que leva a isso é que as pessoas tendem a agir de forma muito infantil em relação ao amor… Calma, acho que infantil ficou pesado. Talvez, idealista ou pessimista fique melhor. Enfim, o ponto é que ou dizem que amor é uma coisa ultra maravilhosa do campo das ideias, do mundo ideal, da perfeição sei lá das quantas, ou dizem que não existe, que é tudo ilusão, coisa de gente iludida, boba etc. Acredito que se fosse uma das duas, seria uma coisa muito fácil, simples demais “para ser verdade”, visto que nossa realidade não hesita em mostrar a aqueles que tentam compreende-la o quanto essa é uma tarefa é difícil.
    Até mais o/.

    1. Realmente, cada vez mais me parece que essa é uma tecla que podemos bater até quebrar. Se você achar alguma outra resposta sensata, me conte por favor. Eu entendi o que quis dizer com infantil, dentro do que tenho pensado em minhas reflexões, acho que está correto, afinal é um grande problema encarar os sentimentos com esses olhos, especialmente o amor. As vezes me pergunto, se as coisas são complicadas por natureza, ou se somos nós que complicamos quando tentamos reduzi-las a algo. “(…)nossa realidade não hesita em mostrar a aqueles que tentam compreende-la o quanto essa é uma tarefa é difícil.” Não poderia ter dito melhor. Satisfação em encontra-lo por aqui, obrigada por agregar ao post.
      Até o/

  2. Nossa, não recebi notificação da sua resposta o.o… Que estranho.

    “As vezes me pergunto, se as coisas são complicadas por natureza, ou se somos nós que complicamos quando tentamos reduzi-las a algo. ” Olha… Agora pegou pesado com essa pergunta haha Aqui vão horas e horas de reflexão, pois acho que podemos concluir as duas coisas (ou não haha).

  3. Esse poema da Wislawa é incrível, um dos meus favoritos. Acho que esse post do matando a poesia é o meu favorito até agora hahah. O amor, por mais que o estudem, façam teses, teorias e o expliquem se baseando na modernidade ou antiguidade, é uma questão em aberto. Gosto bastante do poema Annabel Lee do Poe, apesar dele ser bem diferente desse da Wislawa, mais fanático, digamos. Adorei o post, Gabriella 😀

    1. “O amor, por mais que o estudem, façam teses, teorias e o expliquem se baseando na modernidade ou antiguidade, é uma questão em aberto.” Realmente! E a tendencia é que permaneça assim por muito tempo hahaha Esse poema do Poe é muito bom. Fico feliz que tenha gostado!! Abraçoss

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