Matando a poesia – 5

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

William Shakespeare
Já estava na hora de trazer para esse humilde site um dos maiores escritores que já passaram por este planeta: Shakespeare. Que por seus próprios versos assinou um decreto de eternidade e atravessa séculos sem perder a beleza que possui.
Esse é um de seus sonetos mais famosos e de longe meu favorito, falamos aqui do soneto 18, que faz parte de uma obra com 154 poemas publicados em 1609. Sobre a sua história apenas algumas curiosidades posso citar… Existem duas traduções aceitas para esse soneto, isso se deve ao fato de uma considerar o destinatário do eu lírico como feminino e a outra como masculino. Na epígrafe encontra-se a segunda, para os curiosos deixarei a outra tradução ao final do texto. Essa diferença e cuidado ao se falar do destinatário(a) se dá também por conta dos questionamentos levantados sobre a sexualidade de Shakespeare, visto que ao mesmo passo que muitos dizem que o soneto foi dedicado a outro homem, alguns defendem a possibilidade de que o mesmo tenha sido dedicado a uma mulher. Seja como for e para quem for é um dos mais bonitos que já li e sinto que pode ser um pouquinho de todos nós.

De forma sutil e bela o amor é retratado do primeiro ao último verso, o amor é aqui maior que o verão, diferente das coisas que declinam e se tornam finitas no dia a dia até se esgotarem… O amor se torna eterno, tanto pelo verão internalizado que resplandece, como pelos versos que mais de 400 anos depois, continuam emanando amor em viva poesia.
Existe tanto para se falar de cada estrofe, mas por gostar tanto não consigo organizar os pensamentos corretamente para exprimi-losO verão vem e vai, as estações mudam, os dias acabam e poderia o amor declinar e morrer? Seria capaz o inverno de congelar corações levando-lhes a beleza? Espero eu que o sol de amor continue brilhando dentro de cada um, seja em demasia ou não, que possam escrever versos tão belos quanto esses, só para trazer a vida um pouco mais da boa poesia. Um pouco mais de amor duradouro, mesmo que seja infinito apenas enquanto dure.
Os dois últimos versos tocam certeiro no meu coração, desculpe ser piegas, mas é a verdade.

E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

Dizem que um homem só morre quando deixa de existir na memória de alguém, por isso essas linhas me tocam tão fundo. Porque me lembram que todos nós podemos eternizar algo, seja com lembranças, versos ou atos.
Essa é uma poesia da qual não posso falar muito, porque bom mesmo é que cada um possa senti-la a seu modo, por isso encerro minha participação por aqui e abaixo deixo mais um material para ajudar a superar – ou não – a maravilha dessas linhas.
Como prometido segue abaixo a segunda tradução que considera o destinatário do soneto como feminino:
Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.
~particularmente gosto menos dessa versão.
Bônus:
Não poderia deixar de anexar esses vídeos:
Abaixo o queridíssimo David Tennant, eterno Doctor, recitando o soneto:
No segundo vídeo, popularmente conhecido como Loki, o ator Tom Hiddleston também gravou sua versão:
Ambos são maravilhosos e recomendo fortemente que assistam. O áudio está em inglês então eis a oportunidade de reforçar os conhecimentos de uma língua estrangeira. De tanto dar play nesses vídeos já aprendi a recitar o soneto em inglês haha
Então vou deixar aqui a versão original pra quem quiser acompanhar com os vídeos.
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate;
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date;
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature’s changing course untrimm’d;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st;
Nor shall Death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee

Para os que o preferem nossa língua mãe, deixo aqui uma versão do canal Toda Poesia, cujo trabalho é maravilhoso e também vale ser conferido.

Até o próximo texto.

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