Matando a Poesia – 6

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

O poema acima pertence a Fernando Pessoa, ou melhor, Alberto Caeiro uma de suas personas. Escrito e lançado na revista “Athena” de Lisboa, em fevereiro de 1925, posteriormente foi publicado no livro Poemas Inconjuntos.
Dentro dos heterônimos de Pessoa, Alberto Caeiro é conhecido por ser o mestre de todos os outros, dono de personalidade ímpar tem fortes traços e ideias marcantes. Em suas ideologias, destaca-se que o pensar é submetido aos sentimentos, de forma que sua repreensão a pensamentos filosóficos e a subjetividade de forma geral, o leva a um viver sem dor, agustias ou desespero, este é também objetivo em sua visão de mundo. Não busca um sentido para a vida e tende a aceitar a realidade tal qual ela é. É um poeta ligado a natureza e de muita simplicidade, coisa que transborda em seus versos, a conexão com a realidade através dos sentidos e a necessidade de simplificar a vida.
Devidamente apresentados, falemos dos versos.
Fiquei encantada com esse poema desde a primeira leitura, por ser tão simples e verdeiro, apresentando a realidade com tamanha leveza que prende do primeiro ao último verso. Porém, quando li pouco sabia da personalidade a quem pertence essas estrofes, de forma que creio eu, esta interpretação não seria bem vista. Talvez, se Alberto estivesse aqui achasse esse texto um pé no saco, bem como todos os outros dessa série. Mas qualé, não podemos evitar pensamentos, quiça deixar de pensar sobre uma obra desse nível. Então espero ser perdoada.
Gosto particularmente de como a vida é simplificada aqui:

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Acredito que em algum momento da vida todos já tenham se deparado com esse tipo de pensamento, aquele mesmo que chega para mostrar que o mundo funciona plenamente além de todas as dores de cabeças e problemas que estejam ligados ao seu ser, além da morte, a natureza continuará trabalhando da mesma forma. A realidade colocada aqui, como o mundo de maneira objetiva que não precisaria de uma mera partícula de subjetividade, tomo isso como alerta de como tendemos a nos colocar no centro de todas as coisas, de fato, a realidade pouco precisa disso. As folhas continuam sendo verdes e as flores continuam florindo além de qualquer crise existencial. A realidade não precisa desse texto, nem desse blog, mas sem neuras, continuemos.
A segunda estrofe traz a ideia de alegria em saber que mesmo morrendo o mundo continuará funcionando a seu modo, a primavera virá em seu próprio tempo independente do que ocorra no intervalo de sua chegada, pois tudo tem o seu próprio momento sem que possamos apressar ou retardar esse processo, eis uma das belezas da vida. Ela existe além de nós.
Agora cabe falar um pouco sobre a objetividade em encarar o mundo “Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo/ E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.” A vida possui sua própria estrutura e mesmo que possamos modificar boa parte de seu funcionamento, existe aquela porção que não pode ser modificada, existe a porção que é real e certa. Quer queira, quer não. Todos possuem suas realidades.
Por fim, os últimos versos já trazem em si uma certa tranquilidade ante a todo o quadro pintado, sendo os dois versos abaixo os que mais me marcaram dessa leitura:

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.  
O que for, quando for, é que será o que é.

Dessa forma, esta ai derramada toda a subjetividade que nosso amigo tanto repudia dançando entre seus versos, isso apenas para avivar-lhe e partilhar dessa outra forma de encarar a vida. A genialidade dos autores que conseguem fazer retratos do mundo dessa maneira sempre me cativam, pois além do brilhantismo para tecer histórias tão ricas e realmente criar personas além de si mesmo, existe também a praticidade de ver o mundo por outros olhos. Esse exercício ao qual deveríamos nos lançar cotidianamente, mesmo que a realidade não precise. Que é realidade afinal? Assunto pra outras conversas.

PS: A obra que contém esse poema está disponível no domínio público e pode ser acessada clicando aqui.

Por fim, deixo um vídeo que gosto muito e algumas curiosidades a quem interessar.

Para aqueles que gostam das obras de Fernando Pessoa, recomendo esse site que ajudou-me na escrita desse texto e é um dos mais completos que encontrei sobre o autor: http://purl.pt/1000/1/alberto-caeiro/index.html

No mesmo site também pode-se ver o poema dactilografado com anotações e modificações na estrutura original, transformando-se na versão que encontra-se na epígrafe, para quem gosta é um deleite, se for o seu caso clique aqui.

Só queria dizer que se morresse hoje, também morria feliz, mesmo nunca sabendo em qual estação estamos, e qual será próxima, sei que a primavera virá e isso já é um ótimo motivo para sentir-se contente.

Até o próximo texto.

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