Matando a Poesia – 4

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Mais uma vez ele, nosso caro Drummond. O poema da vez é “Os ombros suportam o mundo” e foi indicado para fazer parte dessa série de textos pelo Willian do blog libertastn (Mais uma vez obrigada, demorei pra postar, mas está aqui <3)

Quando li esse poema pela primeira vez ao termina-lo tinha um único pensamento na cabeça: angústia. O peso de cada palavra pode deixar o leitor com os ombros ainda mais pesados dependendo da reflexão realizada. Um pouco da história da época em que o poema foi publicado, é válida de ser citada. Ele faz parte da obra Sentimento do mundo que foi lançada em 1940. Considerando os desdobramentos históricos desse período teríamos dali a pouco um dos maiores horrores já presenciados, a segunda guerra mundial. Diante disso, o poema surge em meio à inquietação que antecede um período de sofrimento para humanidade¹, que ainda se recuperava da primeira guerra. Sem contar que de modo geral, muitos historiadores consideram o século XX como um grande cemitério da história.
Partindo dessa ideia, não consigo deixar de lançar um olhar com um toque fúnebre para esse poema, pois nele é relatado um mundo em que a desesperança reina e não parece haver nenhuma outra escapatória se não encara-la. Pode-se observar que as mãos que outrora tentavam abraçar o mundo agora apenas fazem seu rude trabalho, mecanicamente. Os corações estão secos, me pergunto se por que provavelmente o sangue que os banhava foi derramado ao chão? Ou simplesmente porque deixamos de lutar? Motivo também que faz com que os olhos não chorem, pois estão fartos de tantas lágrimas. Já os olhos enormes retratos na segunda estrofe, teus olhos (nossos olhos) me parecem um alerta do temor que faz com que os olhos cresçam tentando enxergar ao escuro, nas sombras.
“És todo certeza, já não sabes sofrer.” Tento conceber a ideia de alguém dotado de todas as certezas, não me espanta que essa pessoa não tenha nenhum medo da velhice, da morte, ou que não alimente nenhuma esperança, pois qual o sentido da vida para alguém que não tem perguntas a serem respondidas? Ou melhor, para alguém que está cansado das respostas sempre iguais e escritas em sangue, que está cansado das perguntas dada todas as circunstâncias. A dialética para. Não existe sentido em continuar, pois nada mais resta quando ficamos sem perspectivas diante de um cenário caótico em que não parece haver espaço para esperança.
Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.”  Eis aqui dois versos que me fizeram voltar a leitura diversas vezesnão fazia sentido na minha cabeça algo como o mundo pesar semelhante a mão de uma criança. Mas nosso mundo também é uma criança perto da idade estimada de todo universo. Somos crianças vagando no espaço tentando aprender a caminhar sem tantos tropeços, já demos os primeiros passos, mas a estrada ainda é longa. A mão de uma criança vem repleta de todas as responsabilidades e a somatória de toda complexidade que a envolve não parece leve.
Nesse caso, como diria a música “Don’t carry the world upon your shoulders” o mundo é muito pesado para carregarmos sozinhos, mesmo assim carregamos cotidianamente. Assim como Atlas carregava o mundo em seus ombros, nós também lidamos com o peso do nosso mundo, cada um carrega o seu próprio mundo particular e além dele, pode-se agregar o peso de outros fatores que nem sempre estão ligados diretamente a esse mundo “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue”. Muitas vezes ficamos alheios a tudo isso apenas para não aumentar a carga de coisas com as quais lidamos, mas a vida prossegue. Pra onde? Não posso lhe responder.
Talvez a única saída para tanto pesar seja a morte, mas o poema nos aponta “Chegou um tempo em que não adianta morrer.”  A morte não coloca fim naquilo que nem mesmo o amor conseguiu salvar, viver se torna uma ordem.
A tentativa de entender O sentimento do mundo frente a todo sofrimento exposto, onde até o amor resulta inútil é algo que vai além do eu lírico, algo que nós partilhamos no íntimo. Uma desesperança, uma angústia coletiva.
De tudo só posso dizer que ainda existem os tempos de absoluta depuração, os ombros todos continuam pesados… Mas o mundo se torna mais leve quando temos poesia.

Até o próximo texto

Referência: 

¹ http://www.filoczar.com.br/drummond.pdf

10 thoughts on “Matando a Poesia – 4

  1. Lindo, lindo, lindo! É isso que busco quando, estafado depois de um dia de trabalho, ligo o pc e insisto nessa eterna nostalgia que tem se tornado a internet: uma contínua busca por sentimentos do passado.
    Parabéns a vc e ao autor!
    Forte abraço!

  2. Como o esperado você fez uma ótima reflexão sobre esse poema, observando aspectos que eu mesmo não havia parado para pensar (como a segunda guerra mundial, que ocorria naquela época).

    Já li e reli esse poema diversas vezes, ele me intriga. Pois sinto uma espécie de “conexão” com ele. É como se eu soubesse exatamente o que essas linhas querem dizer, o que é um absurdo completo, mas eu sinto isso haha.
    Quando esse poema foi publicado, Drummond tinha cerca de 37 ou 38 anos. Não era jovem demais nem velho demais, o que me faz reforçar o sentimento que mencionei anteriormente, pois, porque ele diria essas coisas tão impactantes e até mesmo definitivas sobre a vida estando praticamente no meio dela? “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus”, aqui vejo que, para algumas pessoas, chega um momento na vida em que não se acredita mais em “final feliz”. Tempo em que as fatalidades, injurias e tristezas naturais de nossa existência não nos chocam mais. “Tempo em que não se diz mais: meu amor”, pois da mesma forma que não se roga mais aos céus, não se confia mais a felicidade a fragilidade da índole humana, “Porque o amor resultou inútil”. “E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco”, porque a esperança finalmente foi vista como somente uma ilusão de que “nunca mais irá sangrar”. As mulheres batem à porta, mas de nada adianta, já que o coração está seco, não tendo nada mais a oferecer. A luz que outrora te guiava apagou-se, então não vê mais nada, perde a perspectiva e sozinho fica na escuridão, de olhos esbugalhados e sem esperar nada de bom de ninguém. “Pouco importa a velhice, que é a velhice?” perto dos horrores que assolam a existência? “Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança”. O “mundo”, aqui também vejo como “o nosso mundo”, a nossa visão de mundo, como o enxergamos, como achamos que ele é e o quão inóspito ele pode ser. Porém, “ele não pesa mais que a mão de uma criança”. Confesso que essa parte também me intriga. Como um mundo tão pesado como o poema dá a entender pode pesar menos que a mão de uma criança? Aqui me volto para, talvez, o único sentimento que resista a destruição que esse mundo nos causa por dentro, o amor de um pai ou mãe por seu filho (a). Ou mesmo a ideia de carregar um filho no colo ou uma simples criança e sentir seus pequeninos braços se apoiarem em meus ombros, e sentir angustia em pensar que aquela inocente criatura terá que crescer e encarar esse mundo, que provavelmente destruirá sua inocência assim como destruiu a minha. Mas de que adianta se abalar tanto? Se chocar tanto? Sofrer tanto? Sentir tanto? Nada! Pois por mais que se chore oceanos, o ciclo continua: as guerras, as fomes, as discussões, provam que tudo prossegue indiferente a nós. Alguns até se cansam, perdem de vez o que perceberam que nunca tiveram e preferem morrer, desistindo de tentar viver e passando apenas a observar o mundo girar e seu tempo se esvair, ou mesmo acabando com o próprio tempo de vez. Mas também chega um tempo em que não adianta morrer, pois nem sofrer sabes mais. A vida se torna apenas uma ordem, uma sequência obvia, sem destino, sorte ou azar nem ninguém olhando por nós. Somente a vida e mais nada.
    Enfim, é um poema meio “pesado” pelo menos para mim haha. Mas fico muito feliz que você tenha feito e compartilhado sua reflexão sobre ele. Muitíssimo obrigado!

    1. Fico muitíssimo feliz que você tenha gostado! Devo dizer que no seu comentário também encontrei elementos que não havia notado como a idade do autor, por exemplo, me passou completamente batida nesse caso. Obrigada pelo complemento!
      Quanto a conexão é sempre bom nos sentirmos conectados com algo e existem versos que parecem terem sido escritos para nós! Não é absurdo não hahaha também sinto isso com alguns poemas e textos. Porém, acredito que isso torna a tarefa de escrever sobre eles ainda mais difícil. Como você apontou esse é um poema “pesado” e tive que conviver com ele um pouquinho para entendê-lo melhor e mesmo assim acho que minha conexão com ele foi falha, por isso achei difícil escrever sobre e provavelmente deixe alguns pontos sem nós. Se você aprovou a leitura vou acreditar que está bom! Você fez uma bela reflexão, eu realmente gostei e de resto dispensa qualquer outro acréscimo. Fico grata por tê-la compartilhado aqui!
      Mais uma vez obrigada pela visita e pela sugestão! Abraços.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *