Matando a Poesia – 3

(…) Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.(…)

-Carlos Drummond de Andrade

Os versos acima foram extraídos do poema Procura da Poesia, que como reflexo de uma só estrofe já mostra quão belo é todo o poema, mas para esse texto, atentarei apenas a parte que coloquei em epígrafe. Recomendo para aqueles que gostam de Drummond, a leitura do poema na íntegra, que analisa o modo de se fazer poesia e possam sentir e ter as próprias reflexões.

Não tinha conhecimento de que esse era um poema de Drummond, pra mim, era apenas uma frase muito bem escrita “Penetra surdamente no reino das palavras”.  Esse verso que não é o primeiro, mas até ontem parecia único, me foi apresentado no museu da língua portuguesa alguns anos atrás e a inquietação que causou foi o suficiente para me fazer pensar durante muito tempo em qual seria o tal reino das palavras.
A resposta veio anos após a dúvida, que não era recorrente mas havia ficado guardada em algum canto do cérebro, por ser intrigante o suficiente para permanecer lá, mesmo que adormecida. Especificamente há uns quinze dias atrás quando estava estudando em uma biblioteca fiquei admirada em ver tantas pessoas fazendo o mesmo em uma quinta-feira a noite com temperatura agradável o suficiente para realizar qualquer outra atividade. Estavam todos ali, compenetrados em seus livros e cadernos, rodeados por prateleiras e mais prateleiras de livros, o local… silencioso. Quando dei por mim estava observando a cena e rindo, pois o verso voltou à tona em um lampejo “Penetra surdamente no reino das palavras” então como quem realiza uma grande descoberta, pensei: Era disso que ele estava falando! Finalmente pensei que havia entendido os versos desse velho amigo. Estavam todos ali em um reino de palavras, cercados por poesias e histórias inaudíveis, a maioria intatas esperando um primeiro contato. Surdamente alguns mergulhavam nas mais diversas possibilidades de histórias e davam vida e davam-lhes também a morte quando os deixavam estáticos e empoeirados nas prateleiras da velha biblioteca. Um livro é um reino de palavras, uma biblioteca um reino ainda maior, mas pensei nas limitações de dizer que apenas ali poderia ser um reino de palavras.
Existem muitas histórias sós e mudas por ai, esperando para serem “surdamente escutadas” ou “surdamente lidas”, estão ali, apenas esperando que alguém lhes traga vida, guardando em si poesias ainda não escritas paralisadas e estáticas, esse pra mim é o estado do dicionário, parado, quadrado demais, perfeito em suas definições mas ao mesmo tempo vago, pois falta algo. Permanece estático e poucas vezes são tocados. O que é uma pena, mas mesmo assim, o autor nos traz um consolo, diz que não há desespero, afinal existe calma e frescura nas coisas ainda não tocadas.
Espero que este lugar da internet também possa ser um reino de palavras e abrigar em si poesias não contadas e histórias silenciosas, que apenas os mais atentos, com um olhar de quem procura tais coisas possa encontrar aqui um refúgio de ideias expressas e também das não ditas, as últimas só encontradas por aqueles que sabem ler as entrelinhas e mesmo assim, passíveis aos enganos da interpretação, que talvez eu mesma esteja cometendo.

Queria me encontrar com Drummond e perguntar de onde vem toda magnitude de seus escritos porque pareço não ter reposta pra isso… quem sabe daqui mais alguns anos.

Até o próximo texto.

5 thoughts on “Matando a Poesia – 3

  1. Essa sua série está muito legal. Gostaria, caso tenha interesse, que você fizesse uma análise de um outro poema de Drummond: Os Ombros Suportam o Mundo. Não sou nenhum grande leitor de poemas, mas simplesmente gosto muito desse.

    1. Fico imensamente feliz que você esteja gostando. Adorei a sugestão, também não sou nenhuma grande leitora de poemas e meus conhecimentos sobre eles estão bem abaixo do desejado, mas gosto de conhecer sempre mais. Drummond é um de meus autores favoritos, considere feito! Obrigada pela sugestão, abraços

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