Matando a poesia – 2

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

Charles Bukowski

pássaro azul é um daqueles poemas que te faz pensar sobre a vida, ou melhor, na maneira em que está vivendo. Confesso que não conheço profundamente o trabalho de Bukowski ou sua vida pessoal, apesar de gostar muito de todas as obras que já pude ler. O autor apresentado carrega títulos no mínimo curiosos e sua escrita é muitas vezes caracterizada por ser “suja e dilacerada”. Não acho que seja o caso do poema em questão.
Lembro exatamente da primeira vez em que me deparei com esse poema e o que passou na minha cabeça foi: Como estou cuidando do meu pássaro azul?
Que loucura. Na leitura realizada, todos nós carregamos pássaros azuis, uns cuidam melhor deles, outros nem tanto.
Mas o que raios quer dizer “há um pássaro azul em meu peito”; O pássaro como podemos lembrar é uma das figuras que melhor representa a liberdade, o fato de carregar um pássaro no peito, me leva interpretação de que esse representa todos os seus sonhos e anseios, suas buscas e vontades, que nem sempre irão condizer com aquilo que você manifesta no momento.Eis o motivo de calarmos o pássaro, ele quer ser maior do que aquilo que aparentamos, quer ir mais longe, voar mais alto. Parafraseando, somos duros demais com ele, dizemos fique ai! Quer acabar conosco?
Quantas vezes não calamos nossos sonhos, por puro e unicamente medo. Sei que nas entrelinhas o medo tem sua dualidade de bem e mal, mas aqui se leia aquele que faz mal, pois estamos enchendo a goela do pobre pássaro de medo enquanto desentupimos a pia com esperança. Não faz sentido, assim como a maioria das coisas também não o faz.
Gostaria de abrir um espaço nesse texto para falar de um livro escrito por Rubem Alves, chamado Pinóquio às Avessas. Nessa história escrita para crianças e lida por adultos, somos apresentados a Felipe, um menino curioso, interessado nas diversas questões que lhe apresentam e que tem uma enorme paixão por pássaros. Felipe queria descobrir o nome do pássaro azul, sempre perguntava aos pais e estes o diziam que as repostas seriam dadas na escola. Mas a escola nunca respondeu suas perguntas, pois o pássaro azul não fazia parte do programa, descobrir sobre ele não iria o fazer passar no vestibular e ser um bom trabalhador.Mas Felipe não desistiu do pássaro, continuava pensando nele às vezes, até que aos poucos, foi o calando com medo de decepcionar os pais. Só então, anos mais tarde, quando já tinha quase matado o pássaro em si, lhe devolveu a vida em sua velhice e lembrou-se de seu velho amigo de infância, deixou que o pássaro azul por fim voasse em seu peito.
O livro em questão constrói uma crítica – uma das melhores, digam-se de passagem – as abordagens de ensino aplicadas nas escolas, mas não é isso que gostaria de frisar nesse texto. Achei interessante o link com essa história, pois aqui é elucidado o mesmo pássaro azul que Bukowski despeja uísque para que não o atrapalhe. Nesse outro caso, o pássaro é calado pelo sistema vigente. Ele é calado pela necessidade de se tornar alguém, ganhar dinheiro e crescer na vida. Como se tudo aquilo que temos vontade de aprender diminuísse nossa capacidade de crescer em sociedade. Até hoje sustentamos tabus ridículos, de que determinadas coisas são maiores e mais importantes que outras e é aqui que começamos a cavar as covas dos azuis, e assim o direcionamos diretamente aos braços de Morfeu, justamente porque não temos coragem de mantê-los acordados e lidar com eles.
Mas em nossa intimidade, “(…)ele ainda canta um pouquinho/lá dentro, não deixo que morra” Porém também não lhe devolvemos a vida.
Imaginem a angústia desse pássaro em viver trancafiado, escondido. Detalhe é que ele vive em seu peito, portanto, quem carrega a angústia é você e não o pássaro em si. Por isso existem pessoas ranzinzas, aqueles que não tiveram coragem, ou em último caso, oportunidades para correr atrás de seus sonhos. Apesar de parecerem bem na frente das putas e dos atendentes de bar, são infelizes no âmago, e só eles conhecem a tristeza de manter preso aquilo que merece ser livre.
Portanto, ao meu pássaro minhas mais sinceras desculpas, também a ele”eu digo: sei que você está aí, então não fique triste.” Nos últimos versos é colocada uma questão, não sei se me definiria como homem bom, pois não sei em que preceitos estão embasados para chegar até ele, mas definitivamente, diante da morte de tantos sonhos por todos os lados é impossível que ao menos não nos coloquemos a pensar, realmente é passível do choro, não só meu, mas de todos. Diante de tantas mortes vivemos em uma silenciosa lamentação coletiva, da qual já estamos tão acostumados que mal a percebemos.
Mas esse também é meu pacto secreto não deixarei que vejam as lágrimas, mas sei que elas estão por todos os cantos em redenção as diversas perdas, de oportunidade, de vida, de libertação.
Retomando o primeiro parágrafo, não acho que esse seja um poema sujo, apesar de possuir uma linguagem mais vulgarizada para alguns e utilizar termos não muito usuais. O encaro por fim, como uma denúncia das negligências que temos com nós mesmos.
Escrevi até agora como se o leitor do texto fizesse o mesmo que o autor da poesia, mas foi um diálogo que fluiu de maneira tão boa que depois de perceber isso não tive coragem de mudar. Espero não ter causado um incomodo a quem esta do outro lado da tela, ou melhor, espero ter o feito, afinal talvez esse incômodo seja seu pássaro clamando por atenção.
Para finalizar, se posso lhe pedir algo, peço que não deixe que seu pássaro azul morra, e se você ainda o mantém preso por mais difícil que pareça tente não ter vergonha ou medo de solta-lo.

3 thoughts on “Matando a poesia – 2

  1. Pingback: Compilado de 2016

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