Eternidade I

Postagem atualizada. 

O tema ‘morte‘ já foi exposto por aqui em alguns textos como  Vida e Morte (nesse texto você encontrará diversos argumentos de filósofos e a visão de algumas religiões sobre o assunto) e A Última Festa (crônica que ilustra uma situação pós-morte). Mas hoje o assunto vai na direção contrária  mas nem tanto dos mesmos, visto que se volta justamente a eternidade.
E se o homem não precisasse morrer? Se você tivesse a oportunidade de viver para sempre aceitaria a eternidade sem reclamações?

“Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata.”

Carlos Drummond de Andrade

A eternidade é um conceito que se refere ao infinito, algo que não pode ser medido pelo tempo e que não se restringe a ele. Eterno portanto, é algo que não tem início nem fim.
Esse assunto (que é mais uma reflexão do que qualquer outra coisa) será divido em dois posts. Nesse primeiro texto iremos tratar da ideia de eternidade do homem quanto corpo.

Dito isso, vamos colocar em questão o fato de que o homem pudesse viver eternamente exatamente na forma que possui hoje, ou então, se tratando de uma suposição, você caro leitor, teria o poder de decidir em qual idade estaria seu corpo para que vivesse para sempre sem envelhecer, mas apenas você teria a eternidade. Você aceitaria?

A eternidade do homem quanto corpo

Viver eternamente pode soar tentador em um primeiro momento, pense na incrível quantidade de coisas que pode-se fazer com um tempo infinito… sem preocupações com prazos e dias que passam voando e podendo atender a todos os sonhos e ideias malucas que martelam em sua mente, como conhecer tudo aquilo que almeja conhecer, viver em diversas épocas diferentes se adaptando as mudanças, conhecendo todas as invenções ao longo tempo e acompanhando a evolução do mundo.
Em contrapartida, também veria todos aqueles que ama morrendo, repetidas vezes pois sempre que estabelecesse laços eles acabariam pois só você seria eterno. Esse é considerado por alguns como um alto preço para ser pago.
O homem, quanto corpo carnal, tem um início bem como também tem um fim. Porém mesmo a carne possui sua parcela de eternidade, afinal nosso corpo é constituído de diversos elementos como: carbono, enxofre, cálcio, fósforo, magnésio, água etc etc. Quando você morre esses elementos apenas se reorganizam na natureza (se decompondo junto com seu corpo) e parte de você, ou de quem foi assume outra forma se é que podemos dizer assim, dando continuidade a natureza, o que me remete a Lavoisier ao afirmar que:

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

Viajei demais? Talvez… Voltando a eternidade porém, até que ponto conseguimos imaginar a mesma? Por mais longe que sua mente possa ir em suposições existirá algo além daquilo que foi pensado, e quando atingi-lo existirá outra coisa além e assim sucessivamente. Acredito que quando pensamos na eternidade mesmo com todas as ressalvas colocadas, não chegamos nem perto do que ela seria realmente, só conseguimos ver uma parte desse conceito sem abarca-lo em sua totalidade, por motivos de sermos seres finitos quanto carne.

Fiz a pergunta do início desse texto para alguns amigos e disse a eles coisas semelhantes as que escrevi aqui, apontando os prós e contras da eternidade e pedindo-lhes que escolhessem entre o ciclo natural ou viver para sempre.As respostas foram maravilhosas, é realmente interessante ver as pessoas formulando justificativas e condições para que vivessem eternamente, colocando na mesa todos os possíveis problemas que isso poderia causar, e para minha surpresa ocorreu um empate nas respostas, muita gente optou pela eternidade, mesmo com todos os malefícios da mesma, já outros disseram que por mais tentador que seja, a vida deve seguir seu ciclo e que talvez em algum momento a coisa simplesmente perderia o sentido.

A pergunta final para completar essa reflexão vem do Nietzsche:

Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?

Imagem em destaque: Fênix  fonte: factivel.com
(A fênix é a considerada como uma representação de uma das formas da eternidade por renascer de suas próprias das cinzas, é tida pelos egípcios como pássaro que representa a imortalidade)

Considerações Finais 
Esse não é um texto aprofundado sobre o assunto, mal saímos da superficialidade de qualquer conceito, porém o objetivo aqui é causar algum tipo de reflexão, se você em algum instante parou para pensar em alguma das perguntas ou sentenças desse texto, o mesmo já alcançou seu objetivo. Na próxima parte desse assunto, abordaremos a imortalidade da alma com apresentação de diversos pensamentos ao longo da história sobre a eternidade do homem quanto alma. Agradeço a você caro leitor, que chegou ao final desse texto e deixo aberto o espaço para que você compartilhe sua visão sobre o assunto aqui nos comentários.
Por último e não menos importante deixo aqui meus agradecimentos a todos que auxiliaram na construção desse texto, amigos de longa data que estão sempre em prontidão para ajudar, dentre eles especialmente para Maria Clara, Marco, Thaianny, Camila e André que ficaram até altas horas conversando sobre a eternidade e levantando questões para serem abordadas aqui, obrigada. 

Até a próximo texto.

Aviso – 16/08/16: A segunda parte desse texto já foi postada, porém, quando realizei a leitura da mesma achei que estava superficial e não abordava um terço daquilo que era necessário, então retirei do site. Esses textos ocupam muito do meu tempo, pois tenho que realizar diversas leituras e pesquisas. Por esse motivo, quero dedicar mais tempo a essas questões que são muito interessantes e não postar apenas para não deixar uma lacuna de tempo muito grande entre os textos, até porque ela já existe. De qualquer forma, me desculpo com aqueles que esperavam o segundo texto, ele vai sair, só não tenho previsão de quando. Obrigada pela compreensão.

 

 

 

4 thoughts on “Eternidade I

  1. Olá, Gabriella.

    Antes de mais nada, parabéns pela reflexão e pela escolha do tema. Dito isso, permita-me compartilhar com você o que penso sobre o conceito de eternidade aplicado ao infinito (que foi o que você abordou) e, para isso, peço-lhe licença para utilizar um excerto de seu texto: “Acredito que quando pensamos na eternidade mesmo com todas as ressalvas colocadas, não chegamos nem perto do que ela seria realmente, só conseguimos ver uma parte desse conceito sem abarca-lo em sua totalidade”.
    Imaginar a eternidade como infinito, a meu ver, é imaginar algo que foge (como você bem menciona) totalmente de nossa compreensão, uma vez que nossa condição humana é ridiculamente efêmera. Acredito que esse conceito de eternidade que temos é um atavismo construído por nossos ancestrais para suportar a angústia da existência, que os invadira (assim como nos invade) através da perspectiva da morte, da velhice e suas limitações, da injustiça etc.
    Nossas incertezas nos corroem e, a meu ver, a construção de certos conceitos, como, no caso específico, a eternidade como algo infinito, ajuda certas pessoas a suportarem a própria angústia existencial, a remediar o vazio que habita suas almas.
    Kant nos diz que a inteligência de uma pessoa pode ser medida pela quantidade de incertezas que ela é capaz de suportar e, embora ele se autodenominasse cristão e, portanto, acreditava nesse conceito de eternidade como infinito, acho que, no fundo, ao se aprofundar em suas próprias reflexões, ele não chegou a lugar nenhum, isto é, deparou-se com o fato de que por trás de tudo há o nada, isto é, deparou-se com a própria angústia e, justamente por isso, ele sentiu a necessidade de erigir sua hermética filosofia moral, retirando a validade da moral dos ombros de Deus e fazendo-a andar com as próprias pernas, isto é, fazendo com que esta valesse por si mesma, independentemente de Deus existir ou não, uma vez que ele reconhecia a existência de Deus como algo improvável (no sentido de não ser possível de provar). Portanto, ao edificar sua filosofia, Kant entende que a moral deixa de ter sua validade imanente à existência de Deus, porque independentemente de Deus existir ou não, a moral precisa ser válida, pois só assim é possível conviver em sociedade, uma vez que se o homem não tiver nenhum mecanismo que o reprima, ele tenderá a agir de acordo com seus instintos e a se mostrar como verdadeiramente é, e aí basicamente viveríamos o que Hobbes chama de “guerra de todos contra todos”.
    Mas, retornando de minha digressão, a perspectiva da eternidade nunca me encantou, pelo contrário, me assusta. Sob uma perspectiva cristã, acho que, ao degustar o fruto proibido, Adão nos fez um grande favor, pode até ter nos condenado a conviver com o pecado hereditário (prefiro a nomenclatura de Kierkegaard em detrimento da comumente conhecida “pecado original”, uma vez que foi Adão quem o cometera e nós somos apenas herdeiros dele), mas, ao mesmo tempo, contemplou-nos com a finitude, uma vez que a eternidade aliada à felicidade permanente seria extremamente enfadonho e seríamos apenas bobos sorridentes e desprovidos de desejo – logo, não seríamos humanos.
    Só valorizamos aquilo que desejamos e só desejamos aquilo que não temos. O que torna a felicidade desejável é a ausência e, portanto, a felicidade nada mais é, a meu ver, do que um presente vivenciado sempre no tempo presente, isto é, ela é o momento em que o desejo cede lugar ao prazer e, portanto, deixar de existir, cedendo lugar a um novo desejo (e esse momento em que o desejo cede lugar ao prazer é o momento em que encontramos a felicidade, que é o que gostaríamos que não acabasse quando vivenciamos, mas se, de fato, a felicidade perdurasse, ela deixaria de existir, porque ela existe como é por ser como é).
    Uma vida sem desejos não valeria a pena ser vivida. Sendo assim, a felicidade não existe para ser alcançada, mas sim para ser buscada. Talvez eu seja apenas um herdeiro de Adão, um humano demasiado humano, que mesmo convivendo com minhas mazelas não trocaria minha vida efêmera e angustiada pela felicidade eterna. A consciência de que morrerei faz com que eu consiga suportar melhor a vida.
    Se você teve paciência para ler até aqui, agradeço-lhe e, claro, peço-lhe desculpas. Quase sempre acabo me delongando muito. Ansioso pela próxima parte.

    Abraço.

  2. Olá, Juliano!
    Devo dizer que é sempre uma honra te encontrar por aqui e que não existe razão para pedir desculpas, você escreve tão bem que mesmo se tivesse o dobro de linhas, ou a metade delas, iria ler por completo haha
    Agradeço-lhe por ter disposto do seu tempo para ler e comentar de maneira tão consistente. Acredite se quiser, mas peguei-me sorrindo em algumas partes de seu comentário não só por ter encontrado pontos em comum com o conceito que você apresentou, mas porque tirei dele ideias para complementar a segunda parte do texto que estou terminando.
    Mais uma vez obrigada por ter compartilhado seu parecer sobre o assunto e fique à vontade para voltar sempre que quiser!

    Abraços.

  3. Nossa, já pensei tanto sobre isso! Seu texto até me animou.

    “Se você tivesse a oportunidade de viver para sempre aceitaria a eternidade sem reclamações?”

    Sim, eu aceitaria! Por mais que eu concorde com você, quanto a dizer que: mesmo que pensemos muito sobre eternidade, provavelmente não chegaríamos a compreender sua totalidade.
    Vejo na vida efêmera uma total ausência de sentido. Por que se esforça, por que se levar a exaustão? Por que construir algo? Por que sofrer por algo se inevitavelmente vou morrer? Na vida efêmera, qualquer sofrimento, para mim, não faz sentido. Ela é extremamente curta, tão curta que temos que escolher com muita cautela o que iremos fazer dela, para que em seu fim não olhemos para trás e digamos “Devia ter feito mais, devia ter feito isso, devia ter trabalhado menos, aproveitado mais”. Tais coisas são, para alguns, impossíveis. Pois, algumas pessoas já nascem no limite da sobrevivência, na pobreza, na violência, no descaso. A vida é uma luta cruel pela sobrevivência, sempre foi. Hoje, mesmo com civilizações modernas e tecnológicas, ainda vivemos a batalha da sobrevivência, menos sangrenta, talvez, mas mais psicológica, superficial e fútil do que já fora.
    Agora com as possibilidades da vida eterna, finalmente um sentido me aparece, visto que não me limitaria às brevidades da carne, às superficialidades do status quo social. Teria de fato, tempo para construir a vida que eu realmente quisesse viver e não “a melhor que der”. Ou melhor, teria tempo para descobrir que tipo de vida eu realmente gostaria de viver. Já que não me limitaria às regras da sociedade de meu tempo, pois seria somente mais uma variável em minha vida. Minha existência, minha vida não seriam medidas e nem pautadas pela sociedade de meu tempo.
    Quanto as pessoas que amo morrerem, mesmo em vida efêmera, não estou livre de vê-las morrer e tenho a convicção que muitas delas iram morrer antes de mim, ou talvez eu tenha sorte e vá antes, daí eles é que vão ter o azar, reforçando o problema da mortalidade. A eternidade me daria folego para querer construir alguma coisa, para me esforça por algo, para procurar por algo que me alegre. Acho que é isso!! A eternidade me daria motivos para procurar a felicidade!
    E faço minha conclusão respondendo ao eterno retorno de Nietzsche: Não, não vivo algo nem parecido com a vida que viveria por toda a eternidade!. E sei que o tempo que tenho não é suficiente para construir a vida que gostaria de viver, justificando assim, o meu “sim” à eternidade.

    Provavelmente foi leviano em minha reflexão, mas por texto, assim rapidamente foi o que deu para falar haha. Gostei muito do seu texto, de sua reflexão. Muito bom mesmo!!!

  4. Eii, bom te ver por aqui!
    Devo dizer que concordo contigo, a vida efêmera não faz sentido algum para mim. E fosse para optar pela eternidade, seria pelo mesmo motivo que você apontou: mais tempo. Mais tempo para realizar coisas que sei que por mais que tente, não conseguirei completar em um vida só, se assim posso dizer como exemplo.
    Não achei sua reflexão nem um pouco leviana haha você criou um quadro completo para responder a questão e achei fantástica a sua linha de raciocínio!
    Obrigada por ter compartilhado sua escolha, e por ter disposto do seu tempo para escreve-la aqui.

    Abraços.

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