Dispositivo

3549. O dispositivo fez um clique baixo antes de abrir, restavam poucos minutos até que os agentes invadissem o prédio. Nenhum alarme havia sido disparado, mas assim que saísse dali com o material em mãos, viraria um alvo ambulante.

Guardou o pequeno objeto metálico no bolso e fechou a porta do cofre. Restava por volta de dois minutos até que o prédio fosse cercado. Desceu as escadas correndo e saiu pela porta dos fundos enquanto os carros cantavam pneu em frente a entrada.

Ninguém olhou os fundos, e quando pensaram em faze-lo ele já estava longe demais.

***

Catell acendeu um cigarro quando o vasculhamento do prédio terminou. A fumaça branca mesclava-se com o céu negro espalhando mais CO2 na atmosfera. Os procedimentos burocráticos sempre o deixavam de mal humor, era óbvio que quem quer que fosse não estaria ali. Mas o regimento os obrigava a revistar toda área e ninguém estava autorizado a deixar o local até que isso fosse cumprido.

-E agora senhor? Não achamos nenhuma pista.

-Realmente esperavam achar algo aqui? Vocês não estão aprendendo direito comigo.

-São as regras…

-Regras! -bufou – Pra quem trabalha em meio ao caos isso soa muito contraditório. Mas você está certo, devo admitir. O que importa é que sei onde ele está – Catell tirou o cigarro da boca e jogou-o no chão ao mesmo passo que tirava um papel do bolso e entregava-o ao outro – ele avisou que faria isso, bem como onde estaria quando saísse daqui. Faz uma semana que isso chegou mas não conseguimos interceptar a tempo.

-É uma emboscada – sussurrou o Cooper.

-Vocês não me trouxeram nenhuma outra escolha ali de dentro. Então vou seguir minhas próprias pistas. Sozinho – os olhos de Catell estreitavam-se diante do conselho descartado e tornando a pegar o papel – posso cuidar disso. Afinal, levar qualquer um de vocês não seria um reforço e sim um atraso. Atenção – voltou-se aos oficiais em voz eloquente – todos dispensados. Cooper e Willians me apoiarão da Central.

O oficial assentiu ainda receoso dirigindo-se ao carro e dentro de poucos instantes Catell estava sozinho.

Desde que Carter havia morrido era difícil aceitar os treinamentos que lhe empurravam. Operações em campo exigiam profissionais treinados e ele possuía uma equipe de amadores. Sabia que provavelmente morreria na mão de um deles, e seu coração era duro demais para se lembrar de que um dia também foi assim. Os jovens eram impulsivos e inexperientes, uma dor de cabeça atrás da outra. Ávidos por olhar tudo enquanto deixavam o essencial escapar.

Encarou o céu e a lua encoberta por ralas nuvens. Se Carter estivesse aqui isso não teria acontecido. Na semana em que chegara o bilhete tudo já estaria resolvido, pois eles eram uma dupla. Agora ele era uma dupla de uma só pessoa, que pensava por um grupo de quinze. Brigou em pensamento com o amigo por ter lhe deixado com tamanho problema e riu entrecortado. Apertou a mão nas têmporas e deixou que escorregasse até o queixo suspirando. Ninguém poderia substituir o que ele havia perdido, ninguém iria roubar a paz que ele havia conquistado com tanto esforço. Fitou o bilhete mais uma vez, o código simples lhe dava dois endereços com a data de hoje e horários distintos, ele tinha menos de quarenta minutos até chegar à próxima parte do show obscuro no qual havia sido envolvido involuntariamente.

Entrou no carro se ligando a Central pelo viva voz.

-Eu preciso de um histórico detalhado de Kailan Piot.

A cidade ficava para trás enquanto o carro partia escuridão adentro rumo ao desconhecido.

***

O píer estava vazio, mas ele sabia que dentro em pouco sua presa chegaria. O detetive era muito esperto para seguir as migalhas que havia espalhado durante tanto tempo. Sentou na beirada, observando o mar bradar sua fúria contra as pedras da costa, enquanto a Lua e o Sol disputavam pela água assim como ele disputaria em alguns minutos por sua vida. Essa noite seria o começo do fim. Tudo havia sido planejado meses antes, era hora de enfrentar os demônios que transitavam na história. Mesmo que isso lhe tirasse a vida. Muitos já haviam morrido pela mesma causa, sem diferença alguma, mas ele conhecia seus erros, não os reproduziria. Dessa vez seriam atingidos sem saber por onde.

Tirou o metal do bolso, tantos morreram por aquilo. O minério intocado que guardava segredos de alta prioridade, indefeso em sua mão. Aquele mísero dispositivo com menos de dez centímetros devastara uma cidade inteira.

Não era justo. A brisa lhe tocava o rosto e o frio característico corria pela praia. Não sabia se a culpa era da mudança de tempo ou se esse era apenas um gracejo da morte. De qualquer forma, suspirou fundo e sentiu enquanto podia.

***

O rádio não estava pegando, desde que Carter havia derrubado Soda nos painéis durante uma perseguição: “Sem comidas no carro” havia virado mandamento número um. Até ser quebrado dias depois. Catell puxou o conhaque de dentro da jaqueta, uma forma de aguentar as doses diárias de problemas que a sobriedade já não mais resolvia. O silêncio deixava espaço suficiente para que seus pensamentos preenchessem o carro.

Ele sabia exatamente o que aquele garoto queria roubando o dispositivo. Ele ansiava por respostas que ainda não havia conseguido. Só existem dois tipos de futuro para pessoas desse tipo e um deles garante a morte certa antes de qualquer transformação. A realidade é esmagadoramente insensível. Lembrou-se dos tempos em que ele tentara fazer justiça com suas próprias mãos, apesar da dura repressão que passou. Agora, anos depois ele mantinha o sistema funcionando. Porque era assim que as coisas tinham que ser. Olhou pelo retrovisor, os cabelos brancos refletiam os anos que se passaram e a expressão em seu rosto denunciava o cansaço, mas seus olhos irradiavam sabedoria, aquela que ele já nem lembrava ter.

Deu longos suspiros até que o retorno da Central lhe deu o perfil característico que já lhe era conhecido.

Kailan Piot havia perdido os pais quando ainda era pequeno, foi enviado para uma instituição no centro, pois os parentes não tinham condições de cria-lo. O centro é um lugar com péssimo nível na qualidade de vida. Saúde, segurança e transporte são colocados abaixo do precário e é difícil sair de lá. Piot não conhecia outra realidade diferente da sua, tudo que conhecia era um mundo agressivo e hostil. Catell achava que ele era parte daquela raiva. O garoto  estava atingindo a idade de alistamento e as tropas do norte precisavam de voluntários para a nova ordem, no fundo talvez esse fosse o motivo da ira. Ele o havia procurado durante semanas, interessando-se pelo trabalho e questionando tudo quanto possível, Catell respondia o necessário podando as arestas da curiosidade. Questionadores não são bem vistos e aquele jovem lhe parecia bom demais para permitir que sujasse a imagem daquela forma. Tomou-o como afilhado e nos últimos meses haviam se tornado grandes amigos. Catell gostava das perguntas do rapaz, eram fortes e reflexivas, sabia que nenhum outro oficial lhe daria tal liberdade, mas sentia nele alguém para transmitir seus conhecimentos. Por isso tinha certeza de que encontraria Kailan naquele píer. Ele havia falado demais, confundira a cabeça do pobre garoto e agora deveria reaver a confusão.

O código utilizado para escrever o endereço no pedaço de papel era um dos mais simples, como uma afronta a inteligência dos oficiais, mas a letra era bem especifica.

Em muito tempo Catell se preocupou pela primeira vez, temia pela vida do menino.

-Estou a cinco minutos do local, já posso enxergar o alvo. Monitorem daí, estarei com o microfone ligado, o objetivo é que não tenham feridos. Desligo.

Chegou a ponta do cais e deixou a lanterna do carro baixa, desceu e bateu a porta. O vento gelado lhe despertava para a situação, no meio do píer estava Kailan parado fitando-o sem desviar o olhar.

***

-Imaginei que te encontraria aqui, na verdade tinha até receio disso – ele apertava as mãos no casaco pesado que não barrava completamente o frio.

-Suponho que não esteja surpreso – dizia Kailan.

-De fato estou admirando seu feito. Precisa ser corajoso o bastante para se enfiar em uma missão suicida como você fez.

Os olhos de Kailan viajavam pela extensão do mar, o dispositivo reluzia a luz da meia lua.

-Eu não tinha intenção no começo, mas não consigo comprar certas histórias sabe? Como quando você é criança e tentam explicar como funciona o mundo… Não que meus pais o tenham feito, mas todos passam em algum momento por essas pessoas que pensam que entendem tudo da vida. Todas  elas Catell, insistem em lembrar-me de que vivemos no melhor dos tempos. Estamos na era da paz… Me pergunto, pra quem. Você pode responder?

-Não me atreveria a tal – Catell andava lentamente em sua direção – mas você não viveu nos tempos antigos para saber o quanto evoluímos garoto. Ainda não estamos no ideal, mas definitivamente estamos próximos.

-Shutter-3 fica próximo da Terra e ainda assim demoramos duzentos anos após a descoberta para chegar até lá. Quantos anos você estima levar a humanidade até chegar ao ideal?

-Kailan, esse é o tipo de conversa que não lhe trará retorno algum. Você é melhor do que isso. Me devolva o que não lhe pertence.

-Você está dizendo isso? -Balançava o dispositivo acima do mar – Perdoe-me pensei que não havia problema pegar emprestado. Não queria causar nenhum inconveniente mas é que acho tão engraçado o poder destrutivo dessa coisa.

– Por favor Kai…

-Você já questionou algum dia, sabe-se lá, talvez o que são os avanços da nova ordem? Sabe o que as tropas fazem para pacificar os desordeiros?

“Os reforços estão próximos do local. Se ele não se render até lá temos ordem para atirar, senhor” dizia Cooper pelo ponto eletrônico.

-Não tenho muito tempo restante, me deixe ajudar-lhe – prosseguia Catell.

-Ajudar? – riu de maneira nervosa – por favor, deixe-me ajudar a manter a paz.

-Nós construímos uma era de paz! Por que você não consegue entender isso?

-Construíram a paz… Sim, com tijolos de sangue… – ele ria irônico – mas não se preocupe, até o maior prédio pode ruir. Acidentes acontecem. O que você chama de paz, eu nomeio caos, pessoas morrendo em cada esquina e vocês se preocupam com esse tipo de coisa – ele guardou o metal no bolso.

A mão de Catell se deslocou sorrateiramente até a arma, pois já podia prever o que aconteceria. O brilho nos olhos de Piot denunciava a completa falta de sanidade.

-A culpa não é toda sua, detetive. Você é só mais um agente. Eu sou o real problema aqui, sei disso, já escutei antes. O distúrbio em meio a calmaria certo? Sei que seus homens farão o necessário para manter a paz. Mesmo que isso signifique remover-me dela.

-Você ainda tem tempo – sua voz saiu em suplica.

Os carros de apoio haviam chegado e o barulho de armas carregadas fazia Catell sentir-se em um campo de guerra. Ele estendeu a mão para recolher o dispositivo.

-Eu já não o quero mais – respondeu Piot.

Quando ameaçou jogar o pequeno metal ao chão um tiro foi disparado em sua direção. Atingiu-o no ombro direito e ele cambaleou tropeçando para frente apoiando-se em Catell.

-Eu já não o quero mais – sussurrou em seu ouvido.

-É a última vez que irei lhe pedir. Me entregue o dispositivo.

-Venha buscar.

Piot correu para beirada do píer apoiando-se perigosamente na baixa grade que havia ali. Mais armas levantaram-se, Catell deu voz para que não atirassem. Quando estava se aproximando Kailan gritou:

-Diga-me ao final de tudo isso, se você ainda conseguirá defender o slogan que vem mastigando todos esses anos sem conseguir engolir detetive. Eu já não posso mais! E você melhor do que ninguém sabe que não tenho outra opção. Me desculpe, mas o dispositivo vai comigo.

Atirou-se em meio as águas turbulentas e nenhum rastro de seu corpo aparecia entre as águas. A paz foi escrita por sangue outra vez, a nova ordem seguia a risca os preceitos preconizados. A era da paz seria mantida. Não muito tempo depois, Catell solicitou uma licença honrosa. Não conseguia mais pisar no trabalho. A paz de tantos anos havia por fim desmoronado em sua frente. Contou por tanto tempo uma mentira que jamais se tornara verdade, mas que enganava a todos. Viviam nos tempos mais caóticos e chamavam a isso de evolução. A única coisa a evoluir era a entropia. Catell levava uma vida pacata, sem muita movimentação, o ponto alto era quando adormecia no sofá todas as noites despertando no meio delas e perdendo o sono antes do tempo. Era uma terça-feira nublada quando dormiu a noite toda e despertou no outro dia sozinho em sua casa, mas seu corpo não havia se levantado.

 

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