Inconstância

Se me solidifico, desmancho.
Se líquido viro, escorro.
Se sou gasoso, disperso.
Se sou orgânico, morro.
Se sou livre, prendo-me.
Se despedaço, junto-me outra vez.
Se morro, viro lembrança (continuo vivendo).
Se tenho alma, eterno sou.
Se sou vivo, torno-me naturalmente inconstante.
Se sou um amontoado de coisas,
sou tudo e nada em uma dialética não terminada.
No fim, só se pode ser aquilo que se é.

Etna

Eis me aqui,
diante de todas as cinzas
e das cidades caídas
continuei em pé.

Os pés firmes no solo,
que cheiram a carbono.
Assim como o ar outrora leve
hoje é cheio de fumaça negra.

Eis me aqui,
ante o caos.
Nesse mundo de dispersão,
em meio as ruínas da civilização.

Não ficarei muito,
o pulmão já não filtra bem.

Não ficarei muito,
o ar já não é respirado por ninguém.

07:30

Queria ter calma,
mas não tenho tempo.
Os pés rápidos deixam
para trás o sol que nasce.

Queria ter calma,
pois os minutos não são iguais
e os detalhes escapam,
transformando o diferente na mesmice
que os olhos cansados veem.

Queria ter calma,
mas a rua é tão grande.
Só não é maior que o mundo
e o mundo também não tem calma.

Queria ter calma,
para ver todas as pernas que passam
todos os sorrisos que levam.
Mas não tenho tempo.

Queria ter calma,
mas a realidade passa como canhão
destruindo tudo,
menos as estações.

Passa por mim uma pessoa com calma,
pois tem tempo de o ser.

Eu não tenho tempo…
Tenho pressa.
tic tac tic tac tic tac tic

Criptografia

QRV FRGLJRV HVFRQGH-VH FRYDUGH
HQTXDQWR D JXHUUD FRUUH VRUUDWHLUD
DODVWUDQGR SRUWDV H FLGDGHV
TXDQGR QDR VH UHYHODP DV FDUWDV LQWHLUDV

GREUDP-VH DV FKDQFHV GH JDQKDU
SRLV D FXULRVLGDGH PDWD H D ODQFD WDPEHP
VHP PHQFLRQDU
TXDQWDV GHVVDV PRUWHV UHDOPHQWH QRV FRQYHP

SRU HUURV FUDVVRV RX GHVFXLGRV YDLGRVRV
VHJXLPRV QD WULOKD

XP WDQWR RUJXOKRVRV

D OLQJXD SURSDJD DV FDQFRHV GH YLWRULD
SRU LVVR, TXHP WHP PDLV OLQJXD TXH RXYLGRV
YLYH XP HWHUQR PRPHQWR GH JORULD


Chave:
 Cifra de César rotação à esquerda três posições. Boa leitura. 

Das últimas labaredas

Nosso castelo de fogo consumiu as palavras falsas,
sem desculpas ou menção.
A ruína não predirás,
nada além da mais pura decepção.

O castelo de fogo crepita,
a chama arde em letargo
até que nenhuma memória emita,
as palavras de gosto amargo.

Devora até a própria cinza
e não ressurge da morte,
apaga, como quem resmunga ranzinza

Não espera que nem o tempo o reconforte.
Dessa vez, não ergueremos outro castelo do chão
mas o reino não se preocupa com o castelo, pois as chamas já levaram toda ilusão.

colarinho branco

Liberta-te do colarinho que sufoca.
Da gola apertada que surrupia palavras,
Desata os botões e a gravata de lado coloca

Liberta-te da amarra imposta
que limita a alma e prende o corpo,
e que só por ti pode por fim ser deposta.

Liberta-te dos insanos horários
Se olhares bem é sua hora que passa – e o relógio tem pressa.
Mas a vida anda devagar, pois sabe que não existe tempo restitutivo

Liberta-te desses versos afinal.
Pois na realidade já é livre de tudo isso,
só não seja mais um
que prefere ser imparcial.

Dinheiro nenhum compra o tempo que corre resoluto nos relógios. Não te enganes, nenhum de nós é servo dos ponteiros… 

 

Espectro

A espada rouba a vida

e lhe tira o juramento
abrindo então ferida
que sempre tarda o recobramento

Só não tira o desejo
esse se agarra ao aço
fazendo seu esconderijo
por gerações cheias de asco

Os frutos daquela morte
são movidos por fantasmas passados
ancorados nos desejos que não puderam realizar
e não entendem o motivo do que fazem
mas fazem mecanicamente
sem titubear

Tentam reproduzir os anseios
e enaltecem os caídos
enterrando os vivos
com seus golpes de vingança
mataram em si mesmo a esperança
e nem se deram conta
de que já estão todos mortos

Espectro

A espada rouba a vida
e lhe tira o juramento
abrindo então ferida
que sempre tarda o recobramento

Só não tira o desejo
esse agarra ao aço
fazendo seu esconderijo
por gerações cheias de asco

Os frutos daquela morte
são movidos por fantasmas passados
que não conseguem seguir com sorte
e nos desejos não realizados ficam ancorados

Não entendem o motivo do que fazem
mas mecanicamente
e sem titubear agem
inconscientemente

Tentam reproduzir as ânsias
e enaltecem os caídos
enterrando os vivos em campas
e nem conta tinham tido
de que haviam todos
com seus golpes finais de vingança
mataram em si mesmo a esperança

Kai

I

A cada despedida,

despedaço-me.

As parcas que observam ao longe

tecem com a linha de esperança,

um epílogo tardio em redenção.

II

Em cada partida,

uma luz se apaga diante do rosto e acende

por trás dos olhos; o brilho, de quem aguarda

mesmo na escuridão.

III

A ida

anuncia que ainda não verei seus olhos hoje,

talvez nem amanhã.

Mas o que nem as parcas sabem

é que nunca estivemos distantes.

 

Versos Interrompidos

Hóspedes de cascas amorfias
vagam na sinfonia que ecoa
do estranho ao longe,
que abrange tudo que passou e que se passará.
As palavras proferidas ditavam o ritmo da melodia
que obedecia as ordens silenciosas
e dançavam na sinfonia daquele recôndito lugar.
Os verbos ricocheteavam por todos os cantos
para espanto geral eles não paravam de surgir,
em todos os lados em que se olhava, lá estavam;
e os adjetivos por vezes tão criativos que tomavam
o papel do substantivo em nomear.
Mas a sinfonia continuava tocando ao fundo
da caótica cena
e o estranho agora dança e acena,
como se nada daquilo pudesse lhe afetar
o vazio das palavras preenchia o vazio do lugar.
Só não preenchia o vazio do rapaz estranho
que na música escondia-se
sem se preocupar.

Remanso

O silêncio não é quieto.
Ele grita com incontáveis vozes,
E mesmo que seja certo,
Podem também ser disformes.
Quando falam tudo se escuta,
pois no silêncio se pregam muitas palavras
e mesmo que diminutas
tendo um fio de percepção, não são mais vagas.
São belas as palavras despendidas no vazio,
mais bonitas do que quaisquer outras ditas.
Homens em seus poemas tentam reproduzir
aquilo que nenhum ser humano jamais vai ouvir.