Das últimas labaredas

Nosso castelo de fogo consumiu as palavras falsas,
sem desculpas ou menção.
A ruína não predirás,
nada além da mais pura decepção.

O castelo de fogo crepita,
a chama arde em letargo
até que nenhuma memória emita,
as palavras de gosto amargo.

Devora até a própria cinza
e não ressurge da morte,
apaga, como quem resmunga ranzinza

Não espera que nem o tempo o reconforte.
Dessa vez, não ergueremos outro castelo do chão
mas o reino não se preocupa com o castelo, pois as chamas já levaram toda ilusão.

colarinho branco

Liberta-te do colarinho que sufoca.
Da gola apertada que surrupia palavras,
Desata os botões e a gravata de lado coloca

Liberta-te da amarra imposta
que limita a alma e prende o corpo,
e que só por ti pode por fim ser deposta.

Liberta-te dos insanos horários
Se olhares bem é sua hora que passa – e o relógio tem pressa.
Mas a vida anda devagar, pois sabe que não existe tempo restitutivo

Liberta-te desses versos afinal.
Pois na realidade já é livre de tudo isso,
só não seja mais um
que prefere ser imparcial.

Dinheiro nenhum compra o tempo que corre resoluto nos relógios. Não te enganes, nenhum de nós é servo dos ponteiros… 

 

Espectro

A espada rouba a vida

e lhe tira o juramento
abrindo então ferida
que sempre tarda o recobramento

Só não tira o desejo
esse se agarra ao aço
fazendo seu esconderijo
por gerações cheias de asco

Os frutos daquela morte
são movidos por fantasmas passados
ancorados nos desejos que não puderam realizar
e não entendem o motivo do que fazem
mas fazem mecanicamente
sem titubear

Tentam reproduzir os anseios
e enaltecem os caídos
enterrando os vivos
com seus golpes de vingança
mataram em si mesmo a esperança
e nem se deram conta
de que já estão todos mortos

Espectro

A espada rouba a vida
e lhe tira o juramento
abrindo então ferida
que sempre tarda o recobramento

Só não tira o desejo
esse agarra ao aço
fazendo seu esconderijo
por gerações cheias de asco

Os frutos daquela morte
são movidos por fantasmas passados
que não conseguem seguir com sorte
e nos desejos não realizados ficam ancorados

Não entendem o motivo do que fazem
mas mecanicamente
e sem titubear agem
inconscientemente

Tentam reproduzir as ânsias
e enaltecem os caídos
enterrando os vivos em campas
e nem conta tinham tido
de que haviam todos
com seus golpes finais de vingança
mataram em si mesmo a esperança

Kai

I

A cada despedida,

despedaço-me.

As parcas que observam ao longe

tecem com a linha de esperança,

um epílogo tardio em redenção.

II

Em cada partida,

uma luz se apaga diante do rosto e acende

por trás dos olhos; o brilho, de quem aguarda

mesmo na escuridão.

III

A ida

anuncia que ainda não verei seus olhos hoje,

talvez nem amanhã.

Mas o que nem as parcas sabem

é que nunca estivemos distantes.

 

Versos Interrompidos

Hóspedes de cascas amorfias
vagam na sinfonia que ecoa
do estranho ao longe,
que abrange tudo que passou e que se passará.
As palavras proferidas ditavam o ritmo da melodia
que obedecia as ordens silenciosas
e dançavam na sinfonia daquele recôndito lugar.
Os verbos ricocheteavam por todos os cantos
para espanto geral eles não paravam de surgir,
em todos os lados em que se olhava, lá estavam;
e os adjetivos por vezes tão criativos que tomavam
o papel do substantivo em nomear.
Mas a sinfonia continuava tocando ao fundo
da caótica cena
e o estranho agora dança e acena,
como se nada daquilo pudesse lhe afetar
o vazio das palavras preenchia o vazio do lugar.
Só não preenchia o vazio do rapaz estranho
que na música escondia-se
sem se preocupar.

Remanso

O silêncio não é quieto.
Ele grita com incontáveis vozes,
E mesmo que seja certo,
Podem também ser disformes.
Quando falam tudo se escuta,
pois no silêncio se pregam muitas palavras
e mesmo que diminutas
tendo um fio de percepção, não são mais vagas.
São belas as palavras despendidas no vazio,
mais bonitas do que quaisquer outras ditas.
Homens em seus poemas tentam reproduzir
aquilo que nenhum ser humano jamais vai ouvir.

Epopeia de um vendedor de sonhos

O vendedor de sonhos procura
atender todos que estão na fila
Já esta beirando a loucura
enquanto de sua boca a resposta destila

As pessoas na busca insistem
e o coitado já nem dorme
Pois há aqueles que persistem
e creem que só a resposta os transforme

Mas quando o vendedor
Passou a ser oráculo?
Diz o admirador que o aguarda: “Foi quando ele viu a dor
do povo e não permitiu tal espetáculo”

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Psiquegrafia

No papel são dispostos,
sem ordem ou métrica
as falas da alma,
que o corpo cala mas que
não tarda a lembrar.
Por vezes com rima
(talvez seja sina)
As vezes opostos,
in:versos,
mas que na prosa se igualam
tentando exprimir as sentenças
que permeiam o inconsciente
e modo descontente se frustram,
por não encontrarem palavras
que possam traduzir o tal linguajar.
Se a alma pudesse ser descrita
em uma só palavra, se resumiria a esta:
Inefável.

Espinhos

Quando pensar na primavera,
Lembre das flores e não dos espinhos.
As flores nascem para serem amadas
os espinhos nascem para protege-las,
de quem deseja usurpa-las.
Acabam ferindo por defesa,
ferir quem merece ferida.
Não ferem por acaso.
E mesmo que o acaso nos fira,
nós já nos ferimos tanto sem sua ajuda,
que alguns espinhos são desafios capazes
de se enfrentar