Éons

Os traços outrora tão conhecidos
Fragmentaram-se absorvidos pela vastidão da existência
Até em essência aos poucos são esquecidos
Varridos da memória com veemência

Não existe inocência, ou sorriso por trás do véu cheio de furos
No retrato impuro o corpo se liquefez,
Afogado em embriaguez, liquida fica a mente que tateia no escuro
Em vão, procuro as memórias que se distorceram, pelos anos sem sensatez

Vês, não existe presença diante do vazio que habita o peito
Aceito, pois existe você em cada partícula
Na mais fina película, restará você, quando tudo diminuir-se a justiça do leito
Sem efeito, você também se desfará diante do infinito… Então, desde já, calcula

Articula quando lhe pergunto, onde estaremos quando tudo acabar?
Se findar, existirá algo além do tempo?
No vento, os éons responderão para ti

Oz

Não se sabe de onde vem o vento

E para onde o vento vai.
Nem se existe há quanto tempo,
Ou quando se esvai.

Se lhe toca a face a ameno,
Agradeça com fervor.
Se lhe empurra forte as vestes,
Mantenha em si o mesmo amor.

O sopro que visita
torna a avisar,
Mesmo que não insista
virá de longe soprar.

não mais que um querer

queria a boemia de vinicius
a maestria de drummond
os encantos dionisíacos de jim
eu queria pouco
um pouco da formosura de lígia
da força de clarice
queria o descaramento de bukowski
o não importismo de malu
e mais um tanto da malandragem de rita
queria as tramas de pedro e zé
e a voz de renato
as malícias de cam
e a imaginação de verne
os dedos rápidos de amadeus
queria ser mais como carl
ter a simpatia de vivi
queria ser summer, sou tom(to)
fazer piada dos problemas como joão
queria a leveza de ana
se pudesse escolher uma só coisa, queria não me apegar
ir embora sem olhar pra trás como você
queria mesmo é ser metade
mas sou inteiro
queria ser só
apenas queria ser
adivinha?
sou
não direi o que

p.s: você queria que eu colocasse as pontuações, mas isso não passa de um querer

Chumbo

A cortina de fumaça se estendia
em meio a praça.
A cinza dos prédios embebia
o pôr do sol em massa.

De concreto e ossos reerguiam-se os mortos
em anúncios e painéis,
exaltavam-se reflexos tortos.
Frutos de criações cruéis.

Marcado nos corpos e mentes,
as ideias
pouco contentes,
agora já eram aceitas.

Aos poucos o cinza imposto tomava espaço.
Combinando com as sujas lentes de contato,
que só enxergavam fiasco.
Nos corações de chumbo ocorrem os mais duros assassinatos.

#00008B

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então queres amar?

releitura. 

se precisa forçar sentimentos e palavras
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que sinta naturalmente
com o coração, com a mente, com o corpo,
se não sentir surgir do fundo de tua alma,
não o faças.
se tens que estar horas pensando
se vale ou não a pena
ou curvado demais
em si mesmo
procurando os sentimentos,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres ou homens na tua cama,
não o faças.

se tens que parar e
perdido não sabe como solucionar todas as dúvidas,
não o faças.
se dá desamino só de pensar em encontrar a pessoa,
não o faças.

se tentas amar como outros amaram,
não o faças.

se tens que esperar que o amor saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que se basear primeiro no relacionamento de seus amigos,
ou colegas ou parentes
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos apaixonados,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram amantes,
não sejas ansioso nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
os cartórios de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie (que amam sem amar).
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que estar sozinho
te leve à loucura, mas se levar
ao sentimento de posse ou ilusão,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime o coração,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Releitura do poema Então queres ser um escritor?  de Charles Bukowski, espero que ele não se revire no túmulo por isso.

Nota: Não alterei diversos versos por expressarem aquilo que queria dizer, e sinto que alguns pontos ficaram vagos, mas queria respeitar a estrutura original, por isso peço desculpas desde já.

Tráfego

Embalado pelo tráfego,
Da lentos e grandes suspiros.
Alheio ao barulho das máquinas,
que mantém a cidade girando.

Embalado pelo tráfego,
Sonha tranquilamente.
Enquanto a realidade escapa dos olhos,
que vê pelas pálpebras um mundo inconsciente.

Embalado pelo tráfego,
O cérebro dorme em sua caixa.
Nutrindo as idéias em que deseja acreditar,
eliminando as idéias que não quer aceitar.

Embalado pelo tráfego,
de idéias, de pessoas, de sentidos,
braços acalentam o corpo desacordado
o gracejo final antes do despertar.

Mas está tudo bem, mesmo que durma,
Sabe que a máquina continuará girando
enquanto alguém estiver de pé.

Desata

desliza na superfície nua
tua
explora o mundo que aflora ante teu olhar
em toda superfície crua
deixe-se buscar
enquanto a mão tateia no escuro
em busca do outro corpo nu
cru
deixe que se completem
encaixem
vê a beleza que ergue-se
retira os panos em excesso
liberta-te

A marte

O solo rochoso impérvio,
nada mais pode oferecer-te que não poeira ao vento.
Tornados e silêncio pintam a vida em atavio
que tenta se infiltrar em tempo.
Mas abaixo das camadas da superfície,
descobrem-se até rios subterrâneos, escondidos pelo solo duro
E nem mesmo o ápice
faria com aquele fosse um local seguro.
Poderíamos ir a marte,
numa última viagem tripulada
poderíamos encarar como parte
De um sonho adormecido…
poderia essa ser a arte,
fazendo parte da vida que havíamos esquecido. 
Marcianos de plantão saudariam com alegria,
a chegada de novos povos
onde antes não havia.

Inconstância

Se me solidifico, desmancho.
Se líquido viro, escorro.
Se sou gasoso, disperso.
Se sou orgânico, morro.
Se sou livre, prendo-me.
Se despedaço, junto-me outra vez.
Se morro, viro lembrança (continuo vivendo).
Se tenho alma, eterno sou.
Se sou vivo, torno-me naturalmente inconstante.
Se sou um amontoado de coisas,
sou tudo e nada em uma dialética não terminada.
No fim, só se pode ser aquilo que se é.