Da complexidade da vida

A vida sempre me encanta, por tantos motivos que é até difícil enumera-los. Quando olhamos para outra pessoa, dificilmente lembramos que ela é mais do que aparenta e nem digo sobre sua personalidade… não vemos que ela é um amontoado de células, órgãos, sinapses e sangue. Dificilmente lembramos que nós também somos assim, e que o nosso coração esta constantemente batendo, precisamente cerca de 70 vezes por minuto, para garantir que tudo funcione dentro de nós. O cérebro da os comandos de tudo que ocorre no corpo, principalmente de nossas ações. Tome cuidado com elas.
Nossas ações determinam as consequências, afinal, como diria Newton: Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário, ou podemos utilizar o popular dito, aqui se faz, aqui se paga, se colhe aquilo que é plantado, etc etc como preferir.
No geral nos prendemos a situações e momentos, enquanto os pequenos detalhes nos escapam. O show da vida acontece com você a todo instante (clichê mas é verdade). Células nascem e morrem. E você continua vivo.
E se olhar pra fora do corpo ainda vai encontrar uma rede ainda maior de complexidade. Temos outras pessoas, objetos, animais, a natureza, tudo… tudo isso possui sua composição e seu impacto na sua vida e na de outros, no ambiente, no tempo, na história. E ainda, se olhar de maneira mais ampla, talvez de um nível estelar vai notar que esse é só mais um planeta no meio de outros milhões e milhões…
Realmente não lembramos desses pequenos detalhes e da complexidade da vida enquanto o tempo corre. Porém, se tiver um tempo reflita. Vale a pena. E enquanto refletir se lembre da imensa quantidade de processos internos e externos que contribuem para que você continue vivendo. Você irá encarar a vida de outra maneira e certamente perceberá que não existe motivo para que não seja grato ou até mesmo para que não sinta nenhuma pontada de alegria, só isso já é o bastante para tornar sua vida cada dia mais encantadora.

Entre Papéis

Essa semana tive o prazer de encontrar uma nota antiga, escondida em meio a papéis, mas tão singela e verdadeira que resolvi traze-la pra cá. Eu tenho o péssimo hábito de por vezes esquecer de colocar data nas coisas, e adivinhem só, não coloquei nesse. O texto que segue abaixo foi escrito há alguns anos, num passado distante, direto do túnel do tempo. Transcrevo da forma que encontrei, porque acho que essa é a graça de mergulhar nas memórias, não tentar muda-las, mas aprender com elas. E essa – em especial – foi um grande lembrete:

“Certa vez, em uma noite de muita chuva a luz havia acabado e o vento batia as janelas e portas, os trovões soavam ensurdecedoramente, fora tudo isso, com intervalo de poucos segundos o céu era iluminado por clarões. O que tornava a coisa toda ainda mais caótica.
Eu sempre tive medo de chuvas desse porte, e com essa não foi diferente. Enquanto me forçava a ficar calma vi que seria em vão se não serenasse a mente como me ensinaram. Então coloquei-me a pensar em coisas boas e acabei fazendo uma reflexão interessante. 
Vocês sabiam que se no meio dessa chuva, alguém subisse acima do nível das nuvens tudo estaria tranquilo? Afinal só chove pra baixo. Parece simples, e é. A água evapora, se condensa forma nuvens e então chove. E só chove na terra porque nós precisamos de água. Se nós vivêssemos acima das nuvens, talvez não necessitássemos de chuva, ou então iria chover para cima.
O ponto é, no mesmo instante me veio a cabeça que o mesmo ocorre com o medo. Enquanto vivemos aqui na terra, quando em vez nos deparamos com ele porque é necessário, mas no momento que transcendemos acima das nuvens ele não existirá mais. 
Já que só chove pra baixo, o medo assim como a chuva só ira te atingir se você estiver embaixo, portanto, se levante e procure subir cada vez mais!

Devo confessar que dei boas risadas com essa ideia de chover pra cima, seria realmente curioso e louco. O mais engraçado foi que me transportei exatamente para o dia em que escrevi isso e uma pontinha de orgulho surgiu, por ter entendido que o medo só nos controla se permitirmos. Essa foi uma importante lição.

PS:Devo dizer que temporais não foram mais um problema depois desse episódio.

Epifania

O trem já estava na plataforma quando eu ainda estava descendo as escadas, corri para o ultimo vagão e consegui um cantinho perto da porta. Faltavam algumas estações pra chegar em casa, então me permiti respirar em paz por alguns instantes.Um casal estava ao meu lado debatendo em uma língua que eu tentava identificar.
Alemão. Talvez fosse alemão. Mas não tenho certeza, não falo alemão. Podia ser russo, mas definitivamente parecia alemão. Mas talvez não fosse. Inglês não era, disso eu tinha certeza.
Quatro estações depois decidi aceitar o possível alemão e fiquei rindo de mim por tentar descobrir a tal língua. Que falta me faz um livro no trajeto até em casa.
Finalmente chegamos no terminal, o casal apaixonado desceu de mãos dadas e atrás de mim, um rapaz e uma senhora comentavam:
“-Você viu que língua estranha eles estavam falando?
-Sim – ele respondeu – parecia alemão.
-Não era francês – disse ela pensativa– pode ser alemão mesmo.
-Talvez seja, porque inglês não era –conclui o rapaz.”
Passei rindo por eles, e a conversa foi sumindo conforme avançava a passos largos. Fiquei aliviada em saber que não era a única tentando adivinhar o dialeto estranho no metrô.
Percebi depois de algum tempo, que não fazia ideia do significado de nenhuma palavra que tinha escutado daqueles dois. Acho que deve ser assim que os bebês se sentem com várias pessoas balbuciando ao seu redor,tentando entender do que aquelas pessoas falam e dão risada. Só pude concluir que somos letrados para algumas coisas, mas sempre seremos analfabetos em outras.

Infância

Quando olhei nos olhos daquelas crianças me perguntei se elas imaginavam o que as aguardariam no futuro. Um emprego, família, talvez casamento e filhos, não direi sobre o cansaço – dispenso as dores da maturidade. Mas enquanto elas sorriam e corriam livres pela rua, sinceramente não esperava que fossem seres oniscientes, apenas que soubessem pelo reflexo dos adultos o mundo que as aguardavam.
Uma menina sorriu, e eu percebi que isso pouco importava a eles; Sim, eles que estavam certos. Reconheço que o futuro depende de hoje para existir, mas hoje não depende de amanhã – esquecemos disso com frequência-  e por isso eles vivem como se fosse o último dia, e a única preocupação é aproveita-lo. Talvez a infância seja a fase de maior liberdade de nossas vidas.
Muitas vezes pensamos tanto que quando terminamos de decifrar nossos dilemas o momento da ação já passou. Se não tiver discernimento, a razão não será sua amiga, mas sua trava. Ainda tento entender qual dos dois papéis ela desempenha em minha vida.