Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto. Continue reading “Passageiros”

Pensar a resiliência

Perco a conta de quantos são os momentos em que outras pessoas contribuem para as visões e conceitos que eu nutria em meu âmago. Por vezes o contato com o outro alimenta essas ideias, por vezes as destrói completamente. Mas na maioria dos casos esse contato possibilita a compreensão de um mesmo objeto sobre prismas dos quais jamais lançaria olhar sozinha. São esses os estalos mentais que surgem dizendo que existem facetas das quais nos esquecemos, por ignorância ou desdém.

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Estranhos

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.
Carlos Drummond de Andrade

Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções.
Francis Bacon

A capacidade de adaptação presente nos seres vivos permite que possamos sair de um local conhecido e desafiar nossos alcances e limites em ambientes ainda inexplorados, até que nos adaptemos a ele e se necessário podemos recomeçar o ciclo. Incrível é perceber como podemos ser estranhos em um ambiente que ainda não conhecemos bem.

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As estrelas não são para o homem

“-Só conhecemos a baixa gravidade e uma atmosfera que não conseguimos respirar. Terráqueos podem caminhar do lado de fora em direção à luz respirar ar puro, olhar para um céu azul e ver algo que lhes da esperança… e o que eles fazem? Eles olham adiante daquela luz, adiante daquele céu azul vêem as estrelas e pensam: São minhas.”
The Expanse ep.5
“-É uma ideia terrível, mas precisam encara-la. Pode ser que um dia vocês possuam os planetas. Mas as estrelas não são para o homem (…) Sim, eles não gostariam nada de dar com a cara nos portais celestes fechados. Contudo, precisavam aprender a enfrentar a verdade… Ou tanto da verdade quanto, piedosamente, podia ser lhes dada.”
O fim da infância – Arthur C. Clarke 

Insert coins

O baque ressonante chegou aos tímpanos alertando o sistema nervoso de que os níveis de endorfina deveriam baixar imediatamente. Alerta! A substância danosa já se infiltrava em todos os sistemas percorrendo o corpo com uma rapidez alucinante. O som voltava a ecoar fazendo com que o miocardio por um momento não bombeasse o sangue, os neurônios desnorteados espalhavam a noticia por toda extensão corporal: os órgãos internos, os músculos, os tecidos, todos já sabiam e sentiam. O baque desencadeador de todo o caos foi simples, como o som de uma ficha caindo.

 

Racionalidade

O que seria do homem sem o pensamento? A definição de homem geralmente vem acompanhada do termo “ser racional” e é essa característica que o difere de todos os outros seres vivos existentes no planeta¹. A capacidade de pensar, criar argumentos e reflexões para se basear nelas e então viver da melhor maneira possível.
A busca por conhecimento e aprimoramento de conceitos que já carregamos faz parte da atividade de “ser pensante”, e é ela que nos move em muitos momentos da vida.
A racionalidade em si é algo incrível, ao mesmo tempo em que pode servir de acelerador também é capaz de nos frear. Eu me pergunto muitas vezes até que ponto ela é realmente nossa aliada.
Entendo que essa é uma questão subjetiva e que outros diversos argumentos entram nessa discussão, mas de fato, dentro da visão que tenho hoje, a frase em itálico define o que penso sobre a racionalidade.
Exemplificando a ideia, podemos pegar uma situação em que você pensa tanto nas consequências dos seus atos, quanto nos acontecimentos posteriores a ele, e acaba por não executar a ação, por acreditar que ela não seja satisfatória ou que não corresponda plenamente com aquilo que você procura. Não existe mal algum nisso. Existe mal quando esse quadro passa a repetir diversas vezes em um ciclo infinito. Pensar demais pode atrapalhar, bem como pensar de menos pode atrapalhar mais ainda.
Somos reflexos de nossos próprios pensamentos e ideias e sempre é tempo de revisar conceitos para conviver em harmonia com os mesmos e com o meio em que estamos inseridos. Também é importante dizer que ser racional não significa estar certo, mas sim ponderar e tentar ser sensato diante de diversas situações. Fato é que muitas vezes tomam a racionalidade como sinônimo de verdade inabalável e esse é um problema bem grande.
Outro problema é até que ponto a razão basta por si só. Mas esse é assunto para outro devaneio.

¹Nota: Existem diversas pesquisas que dizem que o homem não é o único ser racional (leia aqui), mas o argumento apresentado continua sendo utilizado em muitos debates por isso foi ilustrado aqui.
Uma frase interessante sobre esse assunto vem de Blaise Pascal “O Homem não é o único animal que pensa. Entretanto é o único que pensa que não é animal.”

 

Da complexidade da vida

A vida sempre me encanta, por tantos motivos que é até difícil enumera-los. Quando olhamos para outra pessoa, dificilmente lembramos que ela é mais do que aparenta e nem digo sobre sua personalidade… não vemos que ela é um amontoado de células, órgãos, sinapses e sangue. Dificilmente lembramos que nós também somos assim, e que o nosso coração esta constantemente batendo, precisamente cerca de 70 vezes por minuto, para garantir que tudo funcione dentro de nós. O cérebro da os comandos de tudo que ocorre no corpo, principalmente de nossas ações. Tome cuidado com elas.
Nossas ações determinam as consequências, afinal, como diria Newton: Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário, ou podemos utilizar o popular dito, aqui se faz, aqui se paga, se colhe aquilo que é plantado, etc etc como preferir.
No geral nos prendemos a situações e momentos, enquanto os pequenos detalhes nos escapam. O show da vida acontece com você a todo instante (clichê mas é verdade). Células nascem e morrem. E você continua vivo.
E se olhar pra fora do corpo ainda vai encontrar uma rede ainda maior de complexidade. Temos outras pessoas, objetos, animais, a natureza, tudo… tudo isso possui sua composição e seu impacto na sua vida e na de outros, no ambiente, no tempo, na história. E ainda, se olhar de maneira mais ampla, talvez de um nível estelar vai notar que esse é só mais um planeta no meio de outros milhões e milhões…
Realmente não lembramos desses pequenos detalhes e da complexidade da vida enquanto o tempo corre. Porém, se tiver um tempo reflita. Vale a pena. E enquanto refletir se lembre da imensa quantidade de processos internos e externos que contribuem para que você continue vivendo. Você irá encarar a vida de outra maneira e certamente perceberá que não existe motivo para que não seja grato ou até mesmo para que não sinta nenhuma pontada de alegria, só isso já é o bastante para tornar sua vida cada dia mais encantadora.

Entre Papéis

Essa semana tive o prazer de encontrar uma nota antiga, escondida em meio a papéis, mas tão singela e verdadeira que resolvi traze-la pra cá. Eu tenho o péssimo hábito de por vezes esquecer de colocar data nas coisas, e adivinhem só, não coloquei nesse. O texto que segue abaixo foi escrito há alguns anos, num passado distante, direto do túnel do tempo. Transcrevo da forma que encontrei, porque acho que essa é a graça de mergulhar nas memórias, não tentar muda-las, mas aprender com elas. E essa – em especial – foi um grande lembrete:

“Certa vez, em uma noite de muita chuva a luz havia acabado e o vento batia as janelas e portas, os trovões soavam ensurdecedoramente, fora tudo isso, com intervalo de poucos segundos o céu era iluminado por clarões. O que tornava a coisa toda ainda mais caótica.
Eu sempre tive medo de chuvas desse porte, e com essa não foi diferente. Enquanto me forçava a ficar calma vi que seria em vão se não serenasse a mente como me ensinaram. Então coloquei-me a pensar em coisas boas e acabei fazendo uma reflexão interessante. 
Vocês sabiam que se no meio dessa chuva, alguém subisse acima do nível das nuvens tudo estaria tranquilo? Afinal só chove pra baixo. Parece simples, e é. A água evapora, se condensa forma nuvens e então chove. E só chove na terra porque nós precisamos de água. Se nós vivêssemos acima das nuvens, talvez não necessitássemos de chuva, ou então iria chover para cima.
O ponto é, no mesmo instante me veio a cabeça que o mesmo ocorre com o medo. Enquanto vivemos aqui na terra, quando em vez nos deparamos com ele porque é necessário, mas no momento que transcendemos acima das nuvens ele não existirá mais. 
Já que só chove pra baixo, o medo assim como a chuva só ira te atingir se você estiver embaixo, portanto, se levante e procure subir cada vez mais!

Devo confessar que dei boas risadas com essa ideia de chover pra cima, seria realmente curioso e louco. O mais engraçado foi que me transportei exatamente para o dia em que escrevi isso e uma pontinha de orgulho surgiu, por ter entendido que o medo só nos controla se permitirmos. Essa foi uma importante lição.

PS:Devo dizer que temporais não foram mais um problema depois desse episódio.

Epifania

O trem já estava na plataforma quando eu ainda estava descendo as escadas, corri para o ultimo vagão e consegui um cantinho perto da porta. Faltavam algumas estações pra chegar em casa, então me permiti respirar em paz por alguns instantes.Um casal estava ao meu lado debatendo em uma língua que eu tentava identificar.
Alemão. Talvez fosse alemão. Mas não tenho certeza, não falo alemão. Podia ser russo, mas definitivamente parecia alemão. Mas talvez não fosse. Inglês não era, disso eu tinha certeza.
Quatro estações depois decidi aceitar o possível alemão e fiquei rindo de mim por tentar descobrir a tal língua. Que falta me faz um livro no trajeto até em casa.
Finalmente chegamos no terminal, o casal apaixonado desceu de mãos dadas e atrás de mim, um rapaz e uma senhora comentavam:
“-Você viu que língua estranha eles estavam falando?
-Sim – ele respondeu – parecia alemão.
-Não era francês – disse ela pensativa– pode ser alemão mesmo.
-Talvez seja, porque inglês não era –conclui o rapaz.”
Passei rindo por eles, e a conversa foi sumindo conforme avançava a passos largos. Fiquei aliviada em saber que não era a única tentando adivinhar o dialeto estranho no metrô.
Percebi depois de algum tempo, que não fazia ideia do significado de nenhuma palavra que tinha escutado daqueles dois. Acho que deve ser assim que os bebês se sentem com várias pessoas balbuciando ao seu redor,tentando entender do que aquelas pessoas falam e dão risada. Só pude concluir que somos letrados para algumas coisas, mas sempre seremos analfabetos em outras.