Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso

Consideremos que o cansaço implica e muito no raciocínio e capacidade de argumentação das pessoas, bem como o “saco cheio”, contribui em larga escala para que a paciência – mantenedora da concórdia e do diálogo respeitoso – se dissipe rapidamente, levando com ela a empatia. Continue reading “Sim e não, muito pelo contrário, o oposto daquilo que dizes, é o que afirmarei com uma negativa que deve ser lida do avesso”

Universo em gotas

Faltavam sete estações. O garoto ao meu lado movia lentamente sua caneta sobre o papel canson. A tinta manchava a superfície amarelada traçando o perfil de um homem numa escala cinza. Aos poucos ganhava forma o rosto flutuante. Ele ajeitava cuidadosamente as fronteiras entre a forma existente e o vazio, ora com o dedo, ora com a caneta, fazia um jogo de luz e sombras, escurecendo e clareando a silhueta.
Cinco estações. Agora o sujeito tinha olhos, estavam fixos na borda lateral da folha, o que para ele era a frente, era também limite e de certa forma, o fim. Cravou o borrão negro que aos poucos tornou-se expressivo. Era um olhar caído e triste, talvez outrora fosse os tais olhos de ressaca que queriam tragar o mundo, mas que agora eram cansados e sérios. Tragados pelo próprio universo. Os olhos dizem muito, mesmo sem qualquer palavra.
Três estações. Mesmo com todas as paradas e alterações de velocidade os traços permaneciam no lugar e a mão não vacilava em cada risco, estavam exatamente onde deveriam estar. Pacientemente ele encarava o desenho, e ajustava os traços que deveriam ser mais fortes… demarcava o queixo, a gola da blusa… A cabeça era metade sombra, metade traço. Fez e retocou todos detalhes.
Duas estações. Suspirou satisfeito, tornou a escurecer a lateral demarcando o queixo e finalizou os traços da cabeça. Estava pronto.
Criador e criatura se entreolharam por uma fração de segundos, como quem pergunta: falta algo? Definitivamente faltava algo, mas não ali. Naquele lugar tudo estava preenchido, apesar do enorme espaço em branco.
O traço do desenho era bonito e leve, daqueles de quem já risca há muito. Ele olhou por mais alguns segundos e fechou o caderno preto jogando-o na escuridão da mochila. Foi enclausurado pelo zíper junto das canetas, para não se perder no meio do caminho e esperou a próxima estação.
Desceu no paraíso, com a figura do homem na bolsa. Contraditoriamente levou os olhos tristes com ele, que soltam lágrimas de aquarela.

Passageiros

Sentei no banco do prédio encarando as luzes que brilhavam nos carros e apartamentos. Lá de cima, tudo parecia pequeno. As pessoas que andavam apressadas eram menores que a ponta de meus dedos, que tentavam mensurar o tamanho fora de escala. Os carros pareciam meros pontos que corriam de um local a outro, inofensivos. A vida parecia ridiculamente simples, observada daquele ponto, como se nada parecesse afetar quem está no alto. Continue reading “Passageiros”

Pensar a resiliência

Perco a conta de quantos são os momentos em que outras pessoas contribuem para as visões e conceitos que eu nutria em meu âmago. Por vezes o contato com o outro alimenta essas ideias, por vezes as destrói completamente. Mas na maioria dos casos esse contato possibilita a compreensão de um mesmo objeto sobre prismas dos quais jamais lançaria olhar sozinha. São esses os estalos mentais que surgem dizendo que existem facetas das quais nos esquecemos, por ignorância ou desdém.

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Estranhos

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar.
Carlos Drummond de Andrade

Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções.
Francis Bacon

A capacidade de adaptação presente nos seres vivos permite que possamos sair de um local conhecido e desafiar nossos alcances e limites em ambientes ainda inexplorados, até que nos adaptemos a ele e se necessário podemos recomeçar o ciclo. Incrível é perceber como podemos ser estranhos em um ambiente que ainda não conhecemos bem.

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As estrelas não são para o homem

“-Só conhecemos a baixa gravidade e uma atmosfera que não conseguimos respirar. Terráqueos podem caminhar do lado de fora em direção à luz respirar ar puro, olhar para um céu azul e ver algo que lhes da esperança… e o que eles fazem? Eles olham adiante daquela luz, adiante daquele céu azul vêem as estrelas e pensam: São minhas.”
The Expanse ep.5
“-É uma ideia terrível, mas precisam encara-la. Pode ser que um dia vocês possuam os planetas. Mas as estrelas não são para o homem (…) Sim, eles não gostariam nada de dar com a cara nos portais celestes fechados. Contudo, precisavam aprender a enfrentar a verdade… Ou tanto da verdade quanto, piedosamente, podia ser lhes dada.”
O fim da infância – Arthur C. Clarke 

Insert coins

O baque ressonante chegou aos tímpanos alertando o sistema nervoso de que os níveis de endorfina deveriam baixar imediatamente. Alerta! A substância danosa já se infiltrava em todos os sistemas percorrendo o corpo com uma rapidez alucinante. O som voltava a ecoar fazendo com que o miocardio por um momento não bombeasse o sangue, os neurônios desnorteados espalhavam a noticia por toda extensão corporal: os órgãos internos, os músculos, os tecidos, todos já sabiam e sentiam. O baque desencadeador de todo o caos foi simples, como o som de uma ficha caindo.

 

Racionalidade

O que seria do homem sem o pensamento? A definição de homem geralmente vem acompanhada do termo “ser racional” e é essa característica que o difere de todos os outros seres vivos existentes no planeta¹. A capacidade de pensar, criar argumentos e reflexões para se basear nelas e então viver da melhor maneira possível.
A busca por conhecimento e aprimoramento de conceitos que já carregamos faz parte da atividade de “ser pensante”, e é ela que nos move em muitos momentos da vida.
A racionalidade em si é algo incrível, ao mesmo tempo em que pode servir de acelerador também é capaz de nos frear. Eu me pergunto muitas vezes até que ponto ela é realmente nossa aliada.
Entendo que essa é uma questão subjetiva e que outros diversos argumentos entram nessa discussão, mas de fato, dentro da visão que tenho hoje, a frase em itálico define o que penso sobre a racionalidade.
Exemplificando a ideia, podemos pegar uma situação em que você pensa tanto nas consequências dos seus atos, quanto nos acontecimentos posteriores a ele, e acaba por não executar a ação, por acreditar que ela não seja satisfatória ou que não corresponda plenamente com aquilo que você procura. Não existe mal algum nisso. Existe mal quando esse quadro passa a repetir diversas vezes em um ciclo infinito. Pensar demais pode atrapalhar, bem como pensar de menos pode atrapalhar mais ainda.
Somos reflexos de nossos próprios pensamentos e ideias e sempre é tempo de revisar conceitos para conviver em harmonia com os mesmos e com o meio em que estamos inseridos. Também é importante dizer que ser racional não significa estar certo, mas sim ponderar e tentar ser sensato diante de diversas situações. Fato é que muitas vezes tomam a racionalidade como sinônimo de verdade inabalável e esse é um problema bem grande.
Outro problema é até que ponto a razão basta por si só. Mas esse é assunto para outro devaneio.

¹Nota: Existem diversas pesquisas que dizem que o homem não é o único ser racional (leia aqui), mas o argumento apresentado continua sendo utilizado em muitos debates por isso foi ilustrado aqui.
Uma frase interessante sobre esse assunto vem de Blaise Pascal “O Homem não é o único animal que pensa. Entretanto é o único que pensa que não é animal.”