1.064 °C

Eram três da tarde quando o telefone tocou no escritório. Outra reclamação do serviço do ourives. Com aquela, já havia outras cinco na fila para serem solucionadas, sem que ele se quer botasse os pés na empresa para repensarmos a estratégia dos produtos.
“O que o cliente disse, Sr.Borges, é que não levaria o pingente justamente pela fragilidade. Ele estava com o dinheiro na mão para comprar o de ouro, mas acabou pegando um dez vezes mais barato pela resistência!! É direito do cliente e veja bem, eu faria o mesmo. O senhor conhece os clientes assim como eu, eles querem algo resistente, mas que ao mesmo tempo, não tire a delicadeza de uma peça requintada.” Reclamava o vendedor de uma das filiais. Apenas concordei e anotava cada frase. Ele estava certo.
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Crônica final

Os últimos dias nunca parecem últimos até que acabam. Segunda-feira não foi um dia diferente. Era meu último dia, de fato disso já tinha consciência meses antes, mas não sentia que aquilo era real, até que tudo se apagou.
Nunca queremos reconhecer que o tempo pode esvair-se sem que tenhamos capacidade de interromper esse ciclo. Eu não podia para-lo, só não queria preencher meus últimos momentos pensando no fim. Então não o fiz.
No último dia eu dei risada como nunca havia dado, do que tinha graça e do que não tinha. Festejei as conquistas e realmente vibrei com as realizações. Foi um dia feliz. No último dia não reclamei dos comportamentos alheios, da política e nem mesmo da chuva que fazia. Eu pensei que as gotas eram uma mostra de como o céu se sensibilizava da situação.
No último dia eu vivi.

Televisão fechada

O dia de trabalho havia sido exaustivo: Acordar cedo, andar em um transporte público lotado, chegar ao trabalho e ser enterrado por pilhas de documentos que precisavam ser finalizados,  fazer uma pausa de poucos minutos, diminuir a pilha atual e receber uma nova pilha que somada a meia pilha de hoje, deixa muito trabalho para amanhã, andar em um transporte público lotado, chegar em casa e desabar no sofá.
Pode parecer rápido, mas estender esse cronograma em doze horas e multiplicar por seis, que eram os dias de trabalho, pode causar certa quantidade de estafa. Continue reading “Televisão fechada”

A Última Festa

Todos chegaram cedo, eu ainda estava deitado. Não entendi o motivo de tanto alvoroço: “Hoje vai ter festa grande lá em cima!” alguém disse em meio ao barulho.
Só consegui levantar ainda meio dormindo, poxa, era motivo pra me acordar? Uma festa? Eu nem sou tão festeiro assim.
Todos me olhavam atônitos. Aparentemente sim, era um motivo para se acordar em pleno feriado. Era uma festa importante. Diante da minha incredulidade disseram que precisavam me arrumar e dar banho. Continue reading “A Última Festa”

A Pergunta

Seus olhos resplandeciam e fitavam a tela brilhante. Aquilo não podia ser verdade.
Ele estava estático e a única que coisa que piscava era seu ponto de inserção que esperava pela resposta da pergunta capciosa.
Saiu do transe e levou a mão até a cabeça, deixou que os dedos dançassem por entre os fios despenteados se perguntando o que responder sobre aquilo.
Fechou a tela do notebook, a resposta teria que esperar. Como uma boa pessoa que sofre de ansiedade andava pela casa de um lado para outro, pensando no assunto “como se isso fosse resolver algo” dizia mentalmente.
Certas perguntas não deveriam ser feitas, ele concluiu. Nem tudo precisa de uma resposta definida: sim sim, não não; onde fica o talvez? o meio termo? Continue reading “A Pergunta”

Terra

O planeta que visitaríamos hoje fazia parte de um conjunto de planetas conhecido como sistema solar. O terceiro deles era o nosso destino, Terra. Já havíamos assistido todo o treinamento e sabíamos de toda a história da humanidade desde o inicio da formação daquele sistema, até o fim e era uma história realmente admirável.
A nave descia nos destroços do que outrora parecia ter sido habitado. Sim, havia sido habitado, um dia, num passado longínquo. Hoje só existe entulho e lixo tóxico. Tudo esta morto, e se não morreu lhe garanto que não é humano.
O que torna um ser humano? Quando questionei disseram-me que a humanidade é a responsável, além de ser considerada o conjunto de características pertinentes à natureza humana, também é associada a bons sentimentos como: benevolência, compaixão, piedade, etc.
Considerando as afirmações acima, eram catalogados por um grande sistema, mais de sete bilhões de seres da espécie humana no planeta Terra. Essa por sinal era a espécie dominante – mas não era a única. E esses dados foram contabilizados antes do fim. Hoje não existe nenhum exemplar dessa espécie nesse local, nem de nenhuma outra.
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Metáforas

-Você realmente esperava que um urso polar sobrevivesse no deserto?
-Não comece com essas metáforas! Eu te imploro.
-Você pediu minha ajuda.
-Eu sei, eu sei… me desculpe. Pode falar –disse a contragosto.
-Você sabia que isso não ia dar certo desde o inicio. Insistiu por pura teimosia, ou curiosidade, agora está ai, sofrendo. Porque quer, devo acrescentar, afinal como você mesma disse, já sabia que fim levaria essa história. Continue reading “Metáforas”