O amor é uma falácia

Max Shulman

Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha – imaginem só – dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Continue reading “O amor é uma falácia”

Utopia do tempo certo

Pois só quem perde tempo
É quem acha que não tem mais tempo a perder

5 a seco – Vou mandar pastar

Na mitologia grega, Kairós, era descrito como um belo jovem de agilidades exímias. Possuía duas asas nos ombros e estava sempre correndo. Só era possível pará-lo agarrando-o de modo firme no topete que havia em sua testa.
Kairós representa o momento oportuno para fazer o que precisa ser feito. Se você deixar a oportunidade passar sem agarra-la, será bem difícil persegui-la depois. Continue reading “Utopia do tempo certo”

O estripador de laranjeiras

Carlos Eduardo Novaes

As pessoas estão com medo. Expressões tensas, gestos nervosos, olhares desconfiados, todos à beira do pânico. Uma simples faísca pode provocar a explosão.
Constatei esse clima uma tarde quando saí de casa para comprar pão. Parado na porta da padaria, já com os dois pãezinhos debaixo do braço, num momento de bobeira, acendi um cigarro, olhei o tempo e procurei pelas horas. Não havia relógio à minha volta. Vi uma senhora caminhando apressada pela calçada, bolsa apertada contra o peito. Aproximei-me, sem ser visto, e toquei de leve no seu ombro. A mulher virou-se e deu um berro monumental:
– UAAAAAIIIIII – E saiu correndo. Continue reading “O estripador de laranjeiras”

Éons

Os traços outrora tão conhecidos
Fragmentaram-se absorvidos pela vastidão da existência
Até em essência aos poucos são esquecidos
Varridos da memória com veemência

Não existe inocência, ou sorriso por trás do véu cheio de furos
No retrato impuro o corpo se liquefez,
Afogado em embriaguez, liquida fica a mente que tateia no escuro
Em vão, procuro as memórias que se distorceram, pelos anos sem sensatez

Vês, não existe presença diante do vazio que habita o peito
Aceito, pois existe você em cada partícula
Na mais fina película, restará você, quando tudo diminuir-se a justiça do leito
Sem efeito, você também se desfará diante do infinito… Então, desde já, calcula

Articula quando lhe pergunto, onde estaremos quando tudo acabar?
Se findar, existirá algo além do tempo?
No vento, os éons responderão para ti

Curta: Validation

O ritmo apressado do dia a dia, nos impede muitas vezes de notar quão grande e significante são nossas ações para outras pessoas, e como elas interferem no rumo das horas seguintes ou mesmo em vidas inteiras. Seja um sorriso, palavra ou gesto, temos o poder de transformar situações e modificar aquilo que se encontra ao nosso redor, mesmo que muitas vezes nem nos lembremos disso. Continue reading “Curta: Validation”

O pálido ponto azul

Carl Sagan

A essa distância, a Terra pode não parecer muito interessante. Mas para nós é diferente. Considere novamente esse ponto. É aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele estão todos aqueles que você ama, todos aqueles que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, todos que já viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e cada pai, cada criança esperançosa, cada inventor e cada explorador, cada professor de moralidade, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol. Continue reading “O pálido ponto azul”