“As flores de plástico não morrem”

quando cheguei ao seu jardim, tudo era belo e florido
verde, amarelo, azul e rosa
mas não só rosa, como tulipas
todo tipo de planta havia ali.
tentei sentir o cheiro de qualquer uma delas,
mas não havia nenhum.
suas flores eram tão falsas quanto seu amor,
criastes para si, um belo jardim de plástico.
 
A garoa caia fina e tímida, mas em quantidade o bastante para deixar tudo molhado. Faltavam dois quarteirões.
-A vida é um grande jardim… O jardim não morre de uma vez, assim como a vida não acaba na lápide definitivamente – disse ele.
-Desenvolva.
-A vida vai morrendo aos poucos, nas desistências, nos descasos, sendo que para dá-la como encerrada por concreto, existe longa caminhada. Você consegue imaginar um jardim morrendo aos poucos? Primeiro algumas flores que ninguém nota depois arbustos, árvores e por fim o cenário todo fica desprovido de vida. Arraste isso por anos e temos o ciclo de um ser humano.
-Não costumo pensar dessa forma, mas seguindo seu pensamento, quem mata o jardim dessa maneira?
-Acho que nós matamos… Ao longo do tempo sabe?
-Nós plantamos e matamos nosso próprio jardim então? – indaguei.
-Isso.
-É uma possibilidade, pois o sustento do jardim depende de mais coisas do que apenas um agricultor. Mas nem todos cultivam plantas, você bem sabe…
-Sim! Alguns preferem o belo do artificial, desde quando aprendemos a fabrica-lo. Esses, talvez já estejam mortos.
-Mortos eu não sei. Mas talvez ao menos entorpecidos. Plantas de verdade dão trabalho, são tão frágeis quanto nós. Algumas pessoas gostam da ausência de responsabilidades, sem compromissos de qualquer espécie e para isso, as flores artificiais lhe servem bem.
-Talvez, exista outra possibilidade da morte dos jardins – ponderava ele.
-Diga.
-Pode ser que alguém envenene as plantas e nada mais ouse crescer naquele solo, nessa questão não seria tão ruim comprar algumas rosas baratas e decorar a terra infértil.
Não havia carros na rua, mas paramos no farol fechado para ganhar alguns segundos a mais de conversa. Os passos fluíam como as palavras e mais da metade do caminho já havia se passado.
-Isso seria prova da nossa maior incapacidade, ou você se esqueceu que o Matt Damon plantou batatas em Marte? Meu amigo – ele ria das minhas comparações – o resto é desculpa. Flores são uma bela metáfora de como somos egoístas.
-Por que diz isso? – questionou.
-Ora, frequentemente damos buquês de flores e vasos adornados com plantas sem raiz, para demonstrar carinho por alguém. Quando o fazemos, além de amor, oferecemos um punhado de morte. Ou você nunca reparou que quando compra rosas numa floricultura elas simplesmente não criam raízes do vento e se firmam em qualquer terra. É egoísmo matar pensando apenas em nós mesmos. Jardins ou rosas, quem nos dá o direito de definir o que deve ou não morrer?
Ele pediu licença e se agachou no canteiro da calçada revirando o mato baixo em busca de algo. Levantou-se alguns instantes depois.
-Se for pecado que Deus me perdoe – dizia ele olhando para o céu – mas, penso que você merece. Merece algo vivo.
Tirou a mão das costas ofertando-me uma pequena flor branca, com raiz. Encarava o sorriso bobo que se formava em seu rosto. Estendi a mão para pega-la e deixei por alguns instantes que ficássemos ali parados.
-Não existe presente maior e que traga mais vida do que saber que você está aqui. – disse por fim.
Havíamos chegado.

Imagem:gratisography.com
Bônus: Flores

2 thoughts on ““As flores de plástico não morrem”

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