As estrelas não são para o homem

“-Só conhecemos a baixa gravidade e uma atmosfera que não conseguimos respirar. Terráqueos podem caminhar do lado de fora em direção à luz respirar ar puro, olhar para um céu azul e ver algo que lhes da esperança… e o que eles fazem? Eles olham adiante daquela luz, adiante daquele céu azul vêem as estrelas e pensam: São minhas.”
The Expanse ep.5
“-É uma ideia terrível, mas precisam encara-la. Pode ser que um dia vocês possuam os planetas. Mas as estrelas não são para o homem (…) Sim, eles não gostariam nada de dar com a cara nos portais celestes fechados. Contudo, precisavam aprender a enfrentar a verdade… Ou tanto da verdade quanto, piedosamente, podia ser lhes dada.”
O fim da infância – Arthur C. Clarke 
Esse texto pode conter spoiler. Leia com moderação. Consulte um médico ou farmacêutico. Leia a bula.
Particularmente, adoro quando as coisas começam a dialogar e passam a fazer um sentido absurdo, ao menos para mim. Acima encontram-se dois trechos de locais completamente distintos, mas que chegaram até mim quase no mesmo instante. Possibilitando assim a reflexão que escrevo, afinal nada é por acaso.
O primeiro fragmento vem de uma série do Syfy e o segundo de um livro que disseram ser clássico pra quem gosta do tema. De qualquer forma, vale recomendar os dois, para que as ideias conversem assim como agora. Pra quem gosta dessas coisas é um prato cheio.
Ambos com a temática de ficção cientifica falam sobre relações entre homens e o espaço, convivência com seres “não-humanos” e o comportamento dos homens perante o desconhecido (Seja ele um senhor supremo ou então uma arma bioquímica com vida própria que se alastra por ai. Aguardo a segunda temporada para uma melhor descrição do último).
Engraçado que esse diálogo tenha me marcado pela gana do ser humano em conquistar tudo que pode, temos por natureza um ímpeto de querer mais e acredito que isso não seja novidade para ninguém. Cotidianamente as pessoas são influenciadas para consumir, coisa propagada pela mídia e pela própria cultura. Então, sempre buscam algo que ainda não possuem, ou ainda algo novo que substitua algo velho que já não é mais tão satisfatório. Não vejo problema em querer algo melhor, é saudável que se aspire crescer na vida e melhorar a própria condição faz parte do processo. Mas não é tudo. A ambição muitas vezes cega está presente desde o nível micro até o macro. No cotidiano se ambiciona coisas de relevância não tão alta como um aparelho eletrônico melhor, um veículo mais potente, roupas mais bonitas, etc. Mas quando se aumenta a lente pela qual observa, por exemplo em nível macro, a coisa começa a complicar: Conflitos por fronteiras ou recursos naturais, soberania de alguns países e culturas sobre outros, detenção de tecnologias prejudiciais como fonte de poder. Tudo pelo desejo veemente de alcançar determinado objetivo.
O poder… também queria falar dele. Afinal ele iria acabar entrando no meio alguma hora. Lançando um olhar histórico sobre o mundo não é difícil notar que temos por excelência a necessidade do controle. Independente dá forma de governo ou dá época em que se vive é possível ler os traços de controle que deram rumo a nossa história, também aqueles que continuam ditando o caminho que se segue. A questão é que se existe um controle, alguém toma as rédeas e para que isso ocorra é preciso que quem esteja a frente tenha em mente metas ou mire objetivos para levar a sociedade adiante. Mas o poder tende a falar mais alto e nem todos sabem podar as arestas, então quando percebem ele já está gritando. Coisa que acontece com frequência e talvez seja reflexo disso o dito “O poder subiu a cabeça” Uma vez que quem devia controlar é controlado por aquilo que estava controlando. O desejo, a ambição, a vontade de possuir dadas de maneira exagerada causam muitos estrados. Tudo isso e ainda nem disse nada sobre o individualismo que também entra nesse meio, assunto para outro texto.
“Eles olham adiante daquela luz, adiante daquele céu azul vêem as estrelas e pensam: São minhas.” A sede do poder é bem descrita nesse trecho, pois na leitura que fiz e no contexto em que foi dita, não diz respeito a exploração e interesse no conhecimento e benefícios que poderia angariar, mas sim ao sentimento de posse, pura necessidade de ostentar querendo sempre mais e mais… Pra que? Quem souber me conte.
É por isso que destruímos florestas, poluímos o ar, sujamos oceanos, sem preocupação com os rastros de destruição que ficam no caminho. Parte por lucro, parte por interesses estritamente egoístas, pois o que não falta no mundo é briga de egos… mas parte também é pra bem, uma pena que os estragos se façam mais presentes. Afinal, somos conquistadores, desbravadores sedentos por novas terras, mas as estrelas não são para o homem. Ainda bem.
lamento-dizer
Crédito na imagem

 

9 thoughts on “As estrelas não são para o homem

  1. Será realmente que nada é por acaso? Será que não possível que, movidos por nossa obsessão por poder e controle (que você tão bem mencionou em sua reflexão), às vezes – digamos que apenas às vezes (creio que, sem cair no politicamente correto, termos como “tudo”, “nada”, “sempre” e “nunca” são bastante fortes e devem ser usados com cuidado) – criemos sentidos onde talvez simplesmente não exista nada?
    Bom texto! Abraço.

    1. Claro que sim! Eu mesma devo fazer isso com frequência – provavelmente o fiz novamente com esse texto – coisa em que um dia irei melhorar, particularmente o acaso não me passa confiança, mas deixemos a dúvida no ar.. Será? É plenamente aceitável que movidos por qualquer que seja a força criemos lógicas que só fazem sentido em nossa cabeça. Daí minha necessidade de jogar ideias para fora dela e ver quanto disso pode ser aproveitado. Quanto aos termos que generalizam, precisam de cautela mesmo. Ainda uso alguns sem perceber mas me policio sempre que possível, opa. haha Um dia chego lá! Abraços

      1. Pois é, será? No meu caso, acho que nada me passa muita confiança – talvez justamente daí venha o meu interesse pela filosofia -, o que ora é algo bastante ruim e outrora – ou mesmo concomitantemente – algo bastante bom – a contradição sempre me acompanha (rsrs…).
        Quanto a “chegar lá”, nem se preocupe, mais importante do que chegar é caminhar, e a beleza da caminhada está no trajeto, justamente em cair e ter a capacidade e resiliência para levantar, mesmo sabendo que um novo tombo é sempre inevitável – essas nossas imperfeições e diferenças são parte da beleza (eu detestaria uma realidade perfeita e sem divergências, pois seria tão cheia de certezas e monótona).

        1. Amei esse comentário, sinta-se abraçado haha Confiar tem sido uma tarefa cada vez mais difícil, não só pelos tombos e vacilos que vem daí, mas porque muitas coisas não resistem a simples questões e quanto mais se questiona, mais se desconfia. No fim, talvez Descartes esteja certo e só não podemos duvidar da dúvida – veja a contradição que se forma quando é dito que talvez a única certeza seja a dúvida, pelo visto não podemos fugir dela – afinal, de resto, não se pode esperar muito. A filosofia tem mesmo sua dualidade no geral creio que ela faça mais bem do que mal, mas esses são conceitos tão relativos que não posso afirmar com certeza. Confesso que também detestaria tal realidade, as diferenças são tão ricas e também penso que a beleza esteja na caminhada, no fim é ela que acaba nos fortalecendo. Novos abraços meu caro, sempre bom falar contigo.

  2. O universo da modernidade líquida literalmente liquida com o humano que existe em nós. É só isso que explica essa gana imensa de “conquistar”, “desbravar” como se não houvesse amanhã. Essa filosofia até fazia certo sentido no Império Romano cujo lema era “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”, mas era um outro contexto em um outro tempo. Conhecimento deveria ter nos trazido discernimento. Mas parece que uma coisa não necessariamente acompanha outra e assim vamos vivendo em um comédia de erros absurdos.

    1. Bauman muito encanta com sua leitura da modernidade, pois até onde li, ela faz um sentido terrível. Terrível porque verdadeiro. Devo confessar que a liquidez me incomoda. “Conhecimento deveria ter nos trazido discernimento” penso o mesmo… ou ele está vindo em parcelas, ou ainda não conhecemos o suficiente, ou ainda, como apontou, uma coisa não acompanha a outra. Fiquemos com a comédia de erros, antes rir do que chorar. Um dia tomamos jeito! Obrigada pelo acréscimo ao texto, abraços

        1. Vamos construindo o discernimento ao longo da jornada, porque o caminho é longo! haha força. Procurei no teu blog e não consegui encontrar seu nome em nenhum lugar, depois me diga! Sucesso na infovia, pois tem muita coisa boa por ai, bem como pessoas interessantes!

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