As esferas públicas e privadas

Nem sempre o mundo foi exatamente da maneira como o conhecemos hoje. Existe nesse meio tempo entre um passado longínquo e o presente, uma longa caminhada de ascese ou declínio – dependendo do tema – dos mais variados assuntos, conceitos e ciências. Por esse motivo o mundo é como é, por conta das inúmeras transformações, e também por esse motivo não é algo imutável e sim algo que está em constante mutação, mesmo que demore décadas para que possamos observar essas transformações de maneira clara.
A relação entre as esferas públicas e privadas da vida exemplificam essa situação, tendo em vista que vem sendo modificadas ao longo do tempo.
Santi, no livro A construção do eu na modernidade, que tem como tema central mostrar a construção da psicologia como ciência e bem como o título aponta, a construção do eu, da subjetividade e sua transformação ao longo da história. O autor nos atenta que no século XVII, o eu passou a ser tomado como centro do mundo, e já no século XVIII o eu deixará de ser tomado como totalidade e, cada vez mais, tomará aspecto de uma apresentação social, e é nessa época que podemos ver essas duas esferas separadas por suas características, como segue abaixo:

A esfera pública:
 Carrega consigo a ideia de que é preciso manter segredos e preservar sua privacidade/intimidade, além de ocultar a esfera privada, com boas maneiras e etiquetas que caso não sejam cumpridas podem acarretar consequências. Podemos ilustra-la como uma sociedade de máscaras, onde é necessário manter as aparências para que a própria esfera pública seja preservada.
A esfera privada: Seria o espaço da privacidade – como o nome já nos conta – onde tudo aquilo que no setor público não poderia ser realizado por fim, seria capaz de ganhar vida; onde as pessoas teriam liberdade para mostrar todos os seus lados. Não existe melhor forma de ilustra-la do que imaginar o “entre quatro paredes” onde reina a privacidade.

Prova maior de que as esferas existiam e eram devidamente respeitadas era a asouade, como Santi coloca:

(…) Há uma série de exemplos hilariantes de como, em todos os níveis sociais passa-se a distinguir essas esferas e o preço que se paga pelo desrespeito a esta delimitação. Conta-se por exemplo, sobre a asouade uma espécie de festa popular de execração pública destinada a punição daqueles que deixaram vazar sua privacidade em público: um certo homem que estava bebendo com amigos é repreendido em público e levado para casa aos tapas, por sua mulher; no dia seguinte ele é retirado de casa à força, é montado num asno com vários enfeites degradantes e desfila pela cidade como alvo da humilhação da comunidade.

Nesse tempo é facilmente observável que as esferas coexistiam e eram respeitadas dentro dos limites estipulados, salvo exceções como do exemplo acima. Até mesmo as vestimentas desse século tinham marcas de não revelar mais do que o necessário, cheias de adornos e armações de forma que dificilmente podia-se saber como seria o corpo que vestia tudo aquilo.
Porém, lançando um olhar para época em que estamos agora, parece-me que cada vez mais essas esferas se confrontam para ocupar um mesmo espaço. Público e privado causam a impressão de que deixaram de coexistir para se fundir, ficando cada vez mais mesclados, e tornando árdua a tarefa de separa-los novamente. Dados inimagináveis encontram-se na distância de um clique e temos mais informações por segundo do que se que sonharia o casal medieval que escondia as discussões da sociedade em que vivia.
Um exemplo em que “as quatro paredes da privacidade” vem caindo por terra é o facebook e tantas outras mídias sociais, que além das diversas funções que carregam, trazem consigo a característica de levar um pouco mais da sua vida para outras pessoas. Talvez se analisarmos superficialmente possamos concluir que não existe mal nenhum nisso, afinal, a maioria das pessoas que participam do seu círculo virtual são amigos e conhecidos. E por isso as pessoas postam tudo aquilo que sentem vontade, se alguém come do outro lado do mundo, você sabe o que ela está comendo, como, onde e com quem. Se brigam o mesmo, se namoram o mesmo, se tem alguma novidade não demora para que mais de vinte pessoas fiquem sabendo simultaneamente em questão de minutos. Se adoecem ou ficam aborrecidas, a maioria também não pensa duas vezes antes de lamentar e jogar indiretas pelas conexões que rapidamente tratam de replicar as lamúrias nos computadores ao redor do globo. Também isso que escrevo agora é uma espécie de crítica, que foi levada até você por meio da internet, e apesar de não expor muito de minha vida com essas palavras deixo aqui parte da minha opinião que pode ou não ser aceita.
Existe nessa dissolução das esferas, coisas boas e ruins, vemos por um lado que existe uma exposição exacerbada por parte de alguns e em outros casos uma exposição necessária de pensamentos e queixas, que podem melhorar a vida de diversas pessoas. Imaginemos o caso de uma pessoa que sofre fortes agressões físicas ou verbais e decide expor isso para a sociedade, hoje ela não será recriminada ou mal vista, pelo contrário será escutada e despertará naqueles que passam pela mesma situação a coragem de realizar o mesmo e transformar o quadro em que vivem. Talvez em outros tempos ela fosse julgada por estar lidando com problemas referentes a sua intimidade na esfera pública, mas com todo conhecimento que temos hoje, sabemos que apenas esse julgamento superficial não resolve as situações e pode até agrava-las.
É importantíssimo que consigamos tratar da esfera privada em público e vice e versa porém, me pergunto até que ponto devemos retirar os limites de ambas pois mesmo com essas diversas modificações as características iniciais de cada uma continua vagando silenciosamente, lançando uma sombra no novo modelo e fazendo com que as máscaras continuem de pé, continuem sendo forjadas. Continuamos vivendo em meio as máscaras sociais.
A facilidade em expor e modificar a vida socialmente faz com que muitas pessoas continuem no conto de que a grama do vizinho é mais verde, e enquanto sustentarmos tais ideias, ela realmente será. Antes de finalizar gostaria de dizer que nem todas as pessoas fazem as coisas citadas acima, muitas pessoas, mesmo na internet gostam de manter o anonimato, não querem expor sua vida muito menos quem são ou o que fazem, porém, dando um rápido tour por qualquer mídia social, você facilmente encontrará o quadro descrito nesse texto. E para as pessoas que realizam tais atos, não as julgo e se elas acreditarem que não existe nada demais em realizarem isso, quem sou eu para dizer o contrário? O importante mesmo é que cada um consiga viver bem consigo e feliz com as escolhas que realiza.

Referências: 

SANTI, P. Luis Ribeiro. A construção do eu na modernidade. São Paulo: Holos, 2005.
Fonte da imagem: Universal Chanel

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