Analise do filme In time (O preço do amanhã) sob a ótica da psicologia social

Tudo se compra,
menos a vida.
A vida se gasta.

José Mujica

INTRODUÇÃO

De acordo com descobertas arqueológicas e registros na história, a civilização humana tem por volta de 50 mil anos de comportamento moderno¹. Lançando um olhar para a narrativa atual pode-se observar que ainda assim, a sociedade como hoje é estruturada demorou séculos para atingir o estado em que encontra-se. Nesse ínterim deve-se considerar também o fato de que os comportamentos, bem como as sociedades sofreram transformações diversas, de acordo com cada zeitgeist que atuava sobre elas.
Em meio a mudanças e quebra de estigmas o tempo decorrido trouxe modificações de valores e pensamentos, disponibilizando várias maneiras de ser ao longo da história humana. Chega-se em uma parte da história em que ser e ter são temas tão semelhantes, que mesclam-se, pois os valores permitem que o façam.
O filme In Time (O preço do amanhã) traz consigo uma reflexão profunda, de desigualdade de classes, justiça e sobre a inversão de valores quando a sociedade torna-se tão indiferente aos acontecimentos, em parte pois já estão habituados a serem dessa forma, e também porque não encontram outra forma de agir, que não virar para o lado e fechar os olhos para as atrocidades que ocorrem.
Na trama, em um mundo distópico os seres humanos foram geneticamente modificados para pararem de envelhecer aos vinte e cinco anos de idade, porém só vivem mais um ano, a menos que consigam mais tempo. Tempo é agora uma moeda de troca. Os relógios correm nos braços e todos perseguem os minutos esperando não zerar antes do próximo dia. A maioria das pessoas recebe o suficiente para viver dia após dia, se aproximando por segundos da morte. Em contrapartida, existem aqueles que não precisam correr, pois possuem tempo suficiente não apenas para viver, como para obter luxos. Os ricos vivem mais do que os pobres, que precisam negociar sua existência. Quando Will Sallas (personagem principal) recebe uma doação de cem anos após salvar a vida de Henry Hamilton, este lhe informa como o sistema realmente funciona e inicia-se então uma busca por respostas em uma trama repleta de ação e passível de um olhar aprofundado.

1.O INDIVÍDUO E O MEIO

Em linhas gerais é sabido pela psicologia social que o indivíduo interfere no meio bem como por ele também é influenciado. Dessa forma, o comportamento social permite o desenvolvimento dos seres, ressaltando que são comportamentos pautados ou ao menos margeados por valores e dependentes da cultura presente em determinada sociedade.
No mundo distópico apresentado em In time, pode-se traçar padrões de comportamentos que variam de acordo com os valores e com a cultura carregada pela massa. De forma sucinta é apresentado durante o filme dois pólos sociais opostos e ao mesmo tempo complementares, pois se retroalimentam: O gueto e New Greenwith. Cada um com seus valores e comportamentos peculiares.
As pessoas que vivem no gueto, possuem condições precárias de vida, onde o preço dos impostos e taxas crescem a cada dia sendo difícil manter a quantidade de horas necessárias para viver sem pressa. Correm para aproveitar cada segundo que possuem, pois para eles tempo além de uma moeda, representa a vida. Também é comum andar por entre ruas e encontrar pessoas mortas ao chão, pois seus relógios zeraram antes de receberem mais tempo. Ainda assim, ninguém para ou se impressiona, pois é uma coisa comum ao cotidiano desses transeuntes.
No diálogo entre Will e Henry, o segundo lhe diz :

-(..)Por que temos fuso horários? Por que os impostos e preços sobem dia após dia no gueto? O custo de vida sobe para que as pessoas continuem morrendo. Assim, alguns tem milhões de anos e a maioria tem apenas um dia. Mas a verdade é que existe mais do que o suficiente. Ninguém tem de morrer antes do tempo.

Por outro lado, tempo é algo que não falta em New Greenwith, os relógios de cada habitante marcam dezenas, centenas e milhares de anos. Nenhum deles tem pressa com os afazeres da vida, pois sabem que possuem a eternidade pela frente. O tempo é ostentado: aposta-se, compra-se e descarta-se com uma facilidade tremenda. A morte não assola em cada esquina, só chega por descuido. Mas para que tal mundo possa existir um preço a ser pago. Ainda nas palavras de Henry: “Para que alguns sejam imortais muitos precisam morrer.”

 Desigualdade social e divisão de classes

Transportando esses dados para a realidade, percebe-se que a ficção não devaneia ao tratar de uma divisão severa de classes. Ao longo da história humana, muitas mudanças nas estruturas sociais foram realizadas e ainda sim, o mundo permanece polarizado por dinheiro, crenças e rotulações sociais.
O capitalismo que hoje predomina, prega que a economia precisa crescer, para tanto, as pessoas trabalham e mantém o sistema funcionando. Mas o mesmo sistema também permite que uma pequena parcela da população mantenha consigo grande parte das riquezas e tenha uma vida de luxos, tal como mostrado no filme.
Já foi demonstrado em pesquisas realizadas em 2016 e divulgadas no jornal BBC que 1% da população detém acumulada toda riqueza equivalente aos 99% restante². Dessa forma não precisa-se ir muito longe para entender que a desigualdade social, tem forte prevalência e no Brasil o quadro não se faz diferente. Estatísticas feitas no ano passado mostram que apesar de ano a ano a desigualdade diminuir no Brasil, a concentração de renda continua altíssima: os 10% mais ricos do país capturam 40,5% de todos os rendimentos do país. Há dez anos, proporção era de 45,3%³.
Existe grande disparidade de condições de vida em diversos estados do Brasil, e dentro de cada estado existem ainda mais divisões sociais, culturais e salariais. Um dos fatores ao qual se pode atribuir parcela de responsabilidade vem da corrupção sistêmica em larga escala que viola os direitos humanos, impedindo o desenvolvimento do país. Mas, não apenas a corrupção e a desigualdade assolam a população brasileira. Um dos maiores problemas vem da indiferença.
Os números alarmantes de mortes, assaltos, os desvios de cofres públicos, a queda nos pilares de educação, saúde e segurança tem se tornado notícia dia após dia e já é comum aos ouvidos da população. É visto que a indiferença surge como paliativo, uma forma de adaptação para que a vida não pereça ante o caos.
Nesse meio existem os grupos que tentam realizar mudanças dentro da própria sociedade, sendo executados às margens daquilo que ocorre em primeiro plano, tentando atingi-lo de alguma forma. Ainda nesse campo pode-se realizar uma subdivisão em dois grupos principais:
a) Os que combatem o sistema e tentam torna-lo mais justo. (Ex: Will Sallas tentando reorganizar o banco de horas entre os pólos apresentados no filme.)
b) Os que contribuem para manutenção do sistema abafando o inconformismo com o crime (Ex:Minute Man que roubam “da própria gente” para não abalar o sistema e ainda assim, contribuem para sua manutenção.)
Porém, antes dos desdobramentos que a divisão de classes pode trazer é interessante resgatar que essas ideias já foram anteriormente muito debatidas e aprofundadas, tendo como um dos autores de referência Karl Marx (1818-1883) que afirmou: “A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes.”
Na realidade social apresentada hoje, pode-se aprender que esses grupos e classes permanecem existindo exercendo os papéis de dominante e dominado, sendo que o mais forte exerce poder influenciando os demais com suas ideologias. As desigualdades nas condições de vida nas cidades passam pelas esferas do social, material e cultural.
A dialética entre os grupos opostos permite que haja também entre os povos a evolução partindo da premissa de que os conhecimentos diversos criam caminhos para que se fuja de conceitos absolutos. De certa forma a própria cultura é formada pela pluralidade e incentivada pelo diferente.

Mecanismos de controle, preservação social e processo grupal

O ser humano é um ser social, de forma que constrói sua vida e a marca com as diversas relações através do contato com outras pessoas. O conceito de processo grupal se torna necessário quando se reconhece essa sentença. Logo após o nascimento realiza-se o contato com o primeiro grupo: a família. A partir deste, outros grupos surgem como: grupo da escola, grupo do trabalho, entre outros.
Gustav Le Bom autor de Psicologia das massas, defende que o individuo que se agrupa a uma multidão fica maleável, sendo extremamente influenciado pelo coletivo.
O controle social atua principalmente sobre as massas e surge para fazer com que as mesmas cumpram as normas estabelecidas em sociedade. Essa forma de controle é normalmente utilizada pelo estado e vinculado pelas mídias e posteriormente pelos próprios individuo.
No filme, os agentes do tempo são os responsáveis por manter a ordem e garantir que ninguém descumpra as regras. Também em nossa sociedade existem “reguladores” que tentam manter o maior estado de equilíbrio que conseguem dentro dos grupos e até mesmo fora deles, existem normas e valores que permeiam os comportamentos. Para tanto, o estado e as mídias colaboram para que as massas estejam dentro de seu alcance. Mantendo a ordem entre elas e fazendo com que fiquem de acordo com o previsto pelas regras sociais.

2.SER E TER

O capitalismo crescente e o consumismo trouxeram a modernidade um problema que impacta a sociedade e o meio: a necessidade de ter.
O status lançado em objetos e cargos faz com que os indivíduos almejem sempre mais, numa busca incessante pelo que não se tem: Carros melhores, cargos superiores, roupas e objetos de marcas famosas, entre tantos outros itens. Existe atualmente uma supervalorização do ter. Sendo necessária a pergunta, o que realmente se tem? O que realmente se compra?

-(..)Na sociedade de consumo a economia precisa crescer ou acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumo supérfluo. Compra-se, descarta-se. Mas o que se gasta é tempo de vida. Porque quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. (José Mujica – Entrevista para Humans Project)       
 

O preço do amanhã ilustra bem o gasto da vida em troca do recebimento de coisas diversas. No mundo distópico o tempo é valorizado, pois o relógio visível serve como lembrete de que o tempo se esvai. Apontando para a correlação (tempo=dinheiro) mostrada no filme, percebe-se a forte similaridade com a realidade, uma vez que o tempo (empregado em esforço físico e mental) é trocado por dinheiro ainda nos tempos de hoje. Tempo é uma moeda invisível que jamais se compra novamente. Se soubéssemos quanto tempo ainda temos, viveríamos hoje da mesma forma? Talvez o amanhã não existisse e a única coisa palpável fosse o agora. Esquece-se frequentemente de que o único tempo realmente pertencente ao ser é o agora. O filósofo Friedrich Nietzsche já questionou no passado com a frase “Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?”
Ser em meio a essa pressão torna-se tarefa difícil. Pode-se ser algo sem possuir coisas que ditam quem se é? A construção do eu na sociedade, está ligada principalmente a suas condições subjetivas e relacionamentos interpessoais, do que necessariamente aquilo que possui. O ser humano nasce desagregado de bens materiais e quando morre também parte sem eles, mesmo sendo-os necessários durante a vida não são definidores de caráter e moral. Por mais que diversos grupos – principalmente os de classe elevada dentro das divisões sociais – defendam o contrário em suas leituras, ser e ter são coisas distintas e desassociáveis.
Ao longo da história, ter posses sempre foi ligado ao poder e grandiosidade que agrega-se a essa condição, que se ergue de forma a construir uma boa imagem social. Não para o ser em si, mas para os outros. Fartura é dentro de muitas culturas e em nossa própria, sinônimo de riqueza. De forma que ainda em tempos como o em que vivemos hoje, nossa sociedade acredita que quanto mais se tem melhor se pode ser. Ser intrinsecamente diz respeito e liga-se a características da personalidade, é uma construção que se dá ao longo da vida. Ter é uma condição mutável que precisa da vida e por vezes a consome.
Mas a sociedade de consumo, doutrina para que se persiga o ter e faça com que ele vire o ser. Reflexo disso é observado na própria população brasileira, nos desperdícios de materiais e nas dificuldades alarmantes que pouco se mostram quando são abafadas por dinheiro ou bens de interesse dos envolvidos.

 3.TEMPORALIDADE E MORTE

Quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver.
Montaigne (1533-1592)

Durante o processo de desenvolvimento o ser humano possui pouquíssimas certezas e dentre elas, apenas uma lhe basta: a morte. Não só como ideia, mas como parte palpável da realidade, a morte acompanha os homens desde os primeiros passos na escada de evolução. Os seres humanos nascem e morrem, até o presente momento, esse é um fato que não pode ser negado. Sabe-se que ela demarca o fim, além disto, filosofias e religiões apontam possíveis respostas para o questionamento feito há milênios, ou então traz ainda mais dúvidas.
Na trama citada, a ideia de eternidade é elucidada em diversos momentos e uma das grandes perguntas levantadas pela crítica do filme é se alguém deveria realmente ser eterno.
Viver para sempre faz parte de uma ideia coletiva, um sonho partilhado e explorado pela literatura e tantas outras formas de arte: A fonte da juventude, a poção de vida, a vontade de conquistar o tempo faz com que torne-se real a ideia do vir-a-ser eterno. Tanto pelo medo de morrer como pela necessidade de ter mais tempo, pensando que a vida se esvai. Todos os dias pessoas morrem e nascem ao longo do globo. Cada ser humano entende esses fenômenos de acordo com suas crenças e também com a cultura a qual pertence.
Diversas culturas trazem consigo o tema da morte através de pensadores e religiões, sendo essas partes de um grande grupo em meio a sociedade e no passado com maior força a religião também era utilizada como método de controle.
São importantes “influenciadores” no meio social pois permitem uma transformação em meio aos grupos e tem importante relevância na sociedade.
Ainda sobre a vida, a morte e gastos expansivos de tempo e dinheiro cabem à reflexão proposta por Sêneca, na obra A brevidade da vida:

Não é que temos tempo exíguo. O problema é que perdemos muito dele. Bastante longa é a vida e suficiente pra levar a termos os maiores empreendimentos, desde que bem utilizada. Quando desperdiçada em luxo ou em futilidades ou quando não é empatada em algo bom, então sob o impacto da derradeira e inevitável hora, vamos entender ter-se esvaída a vida sem que tivéssemos percebido.

CONCLUSÃO

As problemáticas do tempo e das transformações ocorridas nas sociedades se alastram pelos séculos. O mundo está em constante mudança e seria errôneo afirmar que a sociedade jamais se transforma e vive estagnada desde o inicio, impedir mudanças é o primeiro passo na estrada do retrocesso. Negar transformações é vestir a camisa da ignorância e esperar que o tempo aponte a resposta que ninguém soube ler. Pois a dialética cotidiana, que permite a evolução não só da sociedade em contexto geral, mas também dos seres que a constroem, é feita de contradições e desfragmentações, erros e tentativas. O conflito proporciona a evolução.
O choque de ideias e culturas faz com que, se expanda a visão, e assim o preconceito perca palco para o conhecimento.
No cenário atual de desenvolvimento, a sociedade muda no âmbito coletivo, motivada não apenas por cunhos sociais, mas também pelo interior de cada individuo pelo processo de construção subjetivo, que se insere no meio social. Eis a importância de uma área na ciência que se atente para tal fenômeno, que olhe para os comportamentos sociais e individuais e os questione. Como a psicologia social que contribui largamente nessa área.
Na sociedade moderna, o maior bem e também o mais procurado é o tempo. Tempo é o intervalo que proporciona a vida. O filme apresentado traz uma crítica social intensa sobre as maneiras de se viver e o funcionamento da sociedade. Mesclando-se com a própria realidade brasileira que reconstrói-se dia a dia e apresenta quadro semelhante ao ilustrado na história.

REFERÊNCIAS

¹«Human Evolution by The Smithsonian Institution’s Human Origins Program». Human Origins Initiative. Smithsonian Institution.

²REUBEN, A. 1% da população global detém mesma riqueza dos 99% restantes, diz estudo. BBC, 18 de janeiro de 2016. Disponível em  <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn> acessado 28/03/2017

³CALEIRO, J.P. O tamanho da desigualdade racial no Brasil em um gráfico. EXAME, 03 de dezembro de 2016. Disponível em <http://exame.abril.com.br/economia/o-tamanho-da-desigualdade-racial-no-brasil-em-um-grafico/> acessado em 28/03/17

LANE, S.T.M. O que é Psicologia Social. São Paulo: Brasiliense, 1981.

CAMARGO, O. Desigualdade social. Disponível em: <http://www.brasilescola.com>. Acesso em 25/03/17

Entrevista com José – URUGUAI – #HUMAN disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FpfsXQKG8vY> acesso em 22/03/17

CAMPESTRINI, D.C., PIETSCH, J.C Desigualdade Social. Disponível em < https://psicologado.com/atuacao/psicologia-social/desigualdade-social> acesso em 28/03/17

SENECA. A brevidade da vida. São Paulo: L&PM, 2006.

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