A Última Festa

Todos chegaram cedo, eu ainda estava deitado. Não entendi o motivo de tanto alvoroço: “Hoje vai ter festa grande lá em cima!” alguém disse em meio ao barulho.
Só consegui levantar ainda meio dormindo, poxa, era motivo pra me acordar? Uma festa? Eu nem sou tão festeiro assim.
Todos me olhavam atônitos. Aparentemente sim, era um motivo para se acordar em pleno feriado. Era uma festa importante. Diante da minha incredulidade disseram que precisavam me arrumar e dar banho.
Epaa, banho?
Quando dei por mim já estava vestido. Um lindo terno aliás, eu nunca uso terno. Ri comigo mesmo, essa festa vai ser boa.
Não me lembro do trajeto mas só de já estar no local. Estava florido, muito florido. Deveria ser uma festa cheia de pompas, e por sinal parecia Black Tie, a maioria usava preto. Ainda bem que me arrumaram porque eu teria vindo com a minha camiseta batida do Pink Floyd.
Todos vinham falar comigo, eu respondia mas ninguém parecia me escutar. As pessoas estavam ficando tristes. As mensagens tomaram formas de despedidas.
De repente percebi que o motivo era eu. Eu era o culpado do sofrimento. Eu tentava avisar que estava bem, mas minha voz não era escutada.
Eu estava ali, vivo. Por que choravam?
“Nunca mais te verei” “Foi tão cedo”
Caramba, acho que tinha morrido. Só podia ser isso… Ou então algum tipo de brincadeira de muito mal gosto.
Mas era completamente inaceitável. Quer dizer, como isso iria acontecer? Eu estava ali bem e de repente, estou morto?
Suspirei.
“Vai ficar tudo bem. Tem um lugar bom te esperando”
Ah, que ótimo.
Minha visão começou a ficar turva. Acho que vou passar muito mal se continuar aqui. Os choros aumentaram, de repente alguém apagou a luz.
Chega. Que brincadeira de mal gosto. Escutei o choro da minha mãe. Eu gritei por ela mas estava tão escuro.
De repente o barulho cessou. Me senti sozinho. Eu queria muito voltar pra casa. Por que tinham me levado até ali? A escuridão me cegava, pra onde quer que virasse.
Me acostumei ao ambiente ainda ouvia a família me sussurrando palavras baixinho, sem poder encontra-los.
Não sei em que instante vi uma luz no lado oposto ao barulho.
Eles clamavam por mim mas a luz me chamava também, e eu sabia que era pra lá que devia andar. Mas não queria deixa-los ali chorando.
Eu podia voltar pra casa não podia?
A resposta vinda em meio ao clarão era não.
Demorei muito tempo para decidir entre ir e ficar. Mas os sussurros já eram quase inaudíveis aquela altura.
Resolvi explorar o outro lado, talvez a luz fosse minha passagem para casa.
Quando adentrei na claridade estando tanto tempo envolto em trevas só pude sentir paz e plenitude em cada parte do meu ser. Era ali mesmo que deveria estar.
Aos poucos fui digerindo a ideia e tudo foi ficando bem, tudo foi se serenando.
Eu vi que não tinha morrido. Estava mais vivo do que nunca. Estava, finalmente, em casa.

3 thoughts on “A Última Festa

  1. Muito massa o seu texto, me lembrou um fato que aconteceu há poucos dias com a amiga da minha mãe e me deixou bem assustada. Ela foi para o hospital porque estava passando mal, sofreu dois AVC’s. O médico a deu como morta. Foi levada para a capital porque é doadora de orgãos, e lá o hospital constatou que ela estava viva!! (não é o caso do seu personagem), mas… imagina que loucura! Se ela tivesse sido enterrada! Só que depois ela morreu mesmo… meio bizarro né.

    O seu conto me remeteu muito a Memórias Póstumas! 🙂 Bacana demais! Beijos!

    1. Caramba, loucura mesmo! Fiquei imaginando o desespero pra família, ainda mais num caso como esse, em que a pessoa volta e morre de novo, complicado.
      Pensando bem lembra Memórias Póstumas mesmo, bem observado haha
      Engraçado que eu também escrevi esse texto quando um amigo do meu tio faleceu e ficamos nos perguntando o que aconteceria com a alma dessa pessoa, claro que acima está escrito de uma maneira bem pobre kkk mais pra exercício da imaginação. Fico feliz que tenha gostado 😀
      Muito obrigada pelo comentário, bjsss

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