A inevitável queda

Ele recobrou os sentidos antes de ser tarde demais. Seu corpo estava dolorido e o chão fez com que os membros ficassem frios. Tremia por dentro em parte pelo medo, em parte pela queda de temperatura.

O vazio das ruas fazia-o recobrar de que era proposital sua estada naqueles cantos do subúrbio, onde jamais pisava por vontade própria. A dor ao movimentar os membros fazia-o lembrar ainda, de que antes de estar inconsciente possivelmente poderia ter sofrido coisas das quais não passavam mais aos olhos. Ainda assim, estava inteiro, só não sabia dizer por quanto tempo.

Tempo… era por isso que estava ali. Não pelo tempo que tinha tido, mas pelo que tinha feito do tempo que teve. Todas as obras e não-obras estavam sendo cobradas, eventualmente seriam, mas ele imaginava poder desfrutar da velhice antes de tal acontecimento.

Sentou no concreto com os braços cercando o corpo como escudo protetor. Chega um tempo em que não se pode mais negar a realidade que se ergue frente ao rosto. Pode-se fechar os olhos. Virar de costas. Mas ela continua ali. Esperando. 

Demorou, demorou muito tempo. Até que um a um dos conceitos construídos pudessem finalmente ruir em sua frente. Eram fracos. Eram falsos. Mas doíam como perder algo verdadeiro. A dor era mistura do receio de ser pego e do luto pela perda.

Fazia anos que sustentava a maior mentira já comprada, remendando com desculpas sempre que algo falhava. E mantendo assim o cargo de maior poder dentro das escalas empregadas pelo conselho intergaláctico. Seu nome era uma referência, sua história era o que tentavam reproduzir. Só ele conhecia suas falhas, suas falsidades e seus medos. Só ele sabia que ele mesmo também era como qualquer outro.

No final da rua a silhueta movia-se fugaz entre as sombras, não adiantava correr. Não há tempo, nem esconderijo quando se deve encarar a verdade. Ficou pensando que aquele era o fim merecido por crimes que assumiram proporções grandes demais se alastrando e sendo bem executados, nos quatro cantos da galáxia. Engoliu em seco levantando-se abriu os braços em redenção e fechou os olhos. Não precisava da visão para saber o que aconteceria.  

Afinal existem momentos de paz entre os picos de êxtase e são nesses momentos que se pode pensar com lucidez. São nesses pequenos instantes em que a única pergunta é por que flertarmos com o delírio tendo em vista, que a única coisa que o separa da realidade é uma tênue linha invisível. Nem todos caminhos são claros ou retos e a placa diz “desconfie”. Para o homem caído era tarde mais, o projétil alojara-se em seu peito, causando hemorragia e interrompendo todo o ciclo de funcionamento interno do corpo, a desordem instalara-se diante do objeto estranho que adentara sem permissão. Mas antes da bala, chegaram primeiro aos ouvidos as palavras: “Pela paz”. Se o outro não tivesse atirado, provavelmente teria morrido ainda assim, pois pela primeira vez entendeu a proporção que uma ideia errada podia causar, o golpe das palavras foi maior do que qualquer dor que já havia sentido. Era tarde demais para reaver a os erros, havia sido morto pelo mesmo desejo que matara anteriormente. A história seguiria o curso, andando por caminhos tortos até que ninguém resolvesse tirar proveito. Coisa inédita ao longo de todo o percurso histórico travado pelos seres.

Quando o corpo tocou o chão novamente, pouca vida restava em seu interior.
“A queda é inevitável” disse o outro observando.

Mal sabia como estava certo. Antes de escurecer completamente temeu pela razão que havia na voz alheia, a queda era necessária e eventualmente inevitável para a maioria de nós, enquanto tudo permanecesse estagnado. Os sistemas internos pararam por completo.

Mas por outros olhos a história continuava e dessa vez, os olhos fitavam o futuro, enquanto observava o corpo desfalecido perder a única centelha de vida que restava e tinha certeza absoluta em si de que seriam esses os olhos responsáveis por levar a paz ao restante. Iria escrever uma história de paz a qualquer preço.

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