A base

O caminho era extenso e íngreme. Os passos tornavam-se cada vez mais pesados e os olhos queriam fechar-se ao descanso eterno. Mas não poderiam até que a história fosse escrita de forma definitiva.

As montanhas de Naär em suas diversas irregularidades permitiam o caminho das pedras para o novo mundo.

“As instalações foram concluídas sem interseções e estamos voltando ao centro de comando, em breve as estruturas estarão prontas e começaremos a exploração”

John comunicava-se com a base lunar de Creta. A instalação da colônia havia sido realizada​ com êxito, apesar das turbulências durante o percurso. A nave restaurava-se dos encontros com objetos indesejados. As pessoas restauravam-se das desastrosas colisões consigo mesmas. O espaço é um lugar silencioso, onde pode-se ficar imerso em seu próprio universo subjetivo. Uma viagem de cinco anos na maior velocidade que a tecnologia alcança permite tempo em medida certa para tais constatações. Universos múltiplos cruzaram-se naqueles anos, as missões e histórias criadas fincaram no tempo laços indissolúveis, a tripulação havia se tornado aos poucos uma grande família.

A equipe de cinco especialistas chegava ao local onde a base estava montada e podiam visualizar perfeitamente em suas mentes o quanto podia ser feito para avançar os conhecimentos que possuíam, quais passos precisavam ser dados.

Não era a primeira vez que se aventuravam em território desconhecido, mas era a primeira vez que estavam longe de tudo.
Mesmo com o avanço da medicina e empreitadas tecnológicas para preservar a vida, esta ainda era um dos bens mais preciosos e vulneráveis.

Pisar em solo desconhecido despertava o primitivo instinto de sobrevivência.

Os cálculos mentais diziam quantos dias de comida e alimento permitiriam a estada ali. A vantagem é que na hora da partida estariam mais próximos do destino seguinte.

Não haveria problema em ir embora deixando aquele mundo para trás, porque já haviam sido doutrinados para tal. Sem recuar deveriam apenas seguir em frente sem prender os olhos ou sentimentos além daquilo em que lhe instruíam.

Mas quando Carlos analisava aquelas rochas e fitava a extensão do horizonte parando o olhar no céu, percebeu que jamais havia encontrado algo tão bonito. Guardou uma amostra para si. Três meses depois, tudo que lhe restou foi a rocha enclausurada em um reduto de vidro, ali dentro não havia céu, mas havia memória. Essa última firmava o solo para qualquer construção que pudesse surgir depois. 

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