A adivinha

-Fique com a mão estendida dessa forma – ela indicava estreitando a vista – preciso ver bem sua palma.
Mantive a mão na posição sugerida enquanto os grandes olhos azuis me encaravam atentos.
-Está vendo algo? – disse depois de alguns minutos em silêncio.
Sua expressão era desorientada. Ela balançava a cabeça levemente numa negativa, os brincos chacoalhavam em suas orelhas.
-Deveria funcionar – dizia incrédula enquanto revirava a palma que se estendia sobre a sua.
-Eu sei, por isso estou aqui.
-Eu sinto muito – desconcertada desvincilhou-se das minhas mãos e ajeitou o óculos – Você precisa reagendar.
-Reagendar? Que absurdo.
-Você tem mãos muito frias, por isso não consigo ler.
-Sempre foram assim, desde quando eu era menino.
Ela deu um longo suspirou e sua mente maquinava a próxima desculpa, enquanto seus olhos realizavam a última varredura da mão gelada.
-Eu te contei isso e você disse que não era um problema – relembrei-a.
-Não… de fato não é um problema.
-Então qual é o problema?
-O problema é que seu futuro está em branco.
-Em branco?
-EM BRANCO!
-Mas o que isso significa?
-Que não sou capaz de ver o que você procura. É como se ainda não existisse.
-Escuta… eu paguei por isso aqui, você deveria me dizer algo concreto.
-Eu sinto muito – ela disse enquanto levantava-se – Poderia inventar um duzia de mentiras que você certamente gostaria de ouvir, relacionadas a sua vida afetiva, social, financeira, e coisas desse tipo. Mas a verdade é que isso não depende de mim, nem do seu conhecimento de como será. Depende do que fará a respeito do que quer que seja.
-Do que farei a respeito sem saber nada a respeito?
-Exatamente.
-Você é a pior cartomante que eu já conheci.
-E você é o cliente mais teimoso que já tive. A maioria fica feliz em saber que é dona do próprio destino.
Eu ri enquanto me despedia e levantava para sair indignado.
-A verdade é que o futuro não se prediz, garoto. Se constrói. Se queres saber como vai ser a vida amanhã, vejas o que faz dela hoje. Isso é o mais concreto que posso lhe oferecer – ela gritou da porta se enrolando em seu xale.
Estava atravessando a rua, mas suas palavras me fizeram parar. Num estalo tudo fez sentido. Eu não precisava daquilo.
-Estou mudando de ideia sobre vo…
Um carro em alta velocidade bateu em cheio jogando o corpo do rapaz alguns metros a frente do estabelecimento. O motorista desceu do carro atônito descrente de seu feito e já chamando a ambulância.
-Não se preocupe – gritou ela fechando a porta – Ele não vai morrer antes dos 32.
-O que? – gritou o rapaz do chão ainda atordoado com o impacto – CARTOMANTE, VOLTE AQUI.

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